P. S.
Estreia da nova plataforma com o breve texto "Da relevância dos blogues": https://spquental.substack.com/p/da-relevancia-dos-blogues.
A quem continuar a acompanhar, por lá nos encontraremos.
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Como sabem os da casa, o SAPO Blogs vai fechar portas. A partir desta semana, mudo para o Substacks:
https://spquental.substack.com/
O blogue atual será extinto no final de novembro.
As pessoas fazem ninho na cabeça: transitórias no lugar, distraídas do corpo, ficam-se a pairar sobre o orgânico, sem parte de espírito. Antes de subir, é preciso descer, encher-se do que é vivo para chegar à inteireza. Fazer soltar das entranhas o canto indígena e levá-lo pelo coração para ganhar asas, ocupar o espaço todo, sem ninhos que embaracem.
É simples: estar inteiro onde se está, tocar com os pés no chão. Arrumar a cabeça para não fazer estática. Ouvir.

2018 © Francisco Amaral – Todos os direitos reservados
No llegues, márchate.
Isra Bravo
A tradição de usar roupa nova no Ano Novo era daquelas que ajudavam a enrijecer a mentira que se vivia sem fazer feriado. A superstição é o último reduto de quem respira com a crença de que a vida é desligada de si e de que os acontecimentos são fruto do acaso – do acaso e da roupa que se estreou ou não no dia certo.
Compreendo a importância dos rituais que assinalam passagens simbólicas, nem sempre conscientemente escolhidas, mas pelo menos conscientemente acolhidas. Nos ciclos de vida, porém, o calendário é mera referência – uma âncora útil, por vezes pesada. Se os dias são curtos para demorarmos em cada um a reflexão, e as decisões de vida precisam de respirar em intervalos de tempo maiores, as resoluções vigorosas querem-se mais correntes do que de ano a ano.
Roupa nova, para mim, não tem dia marcado. Com mais frequência do que gostaria, constato que aquela que uso já não me serve e que preciso de outra. Cansa viver de abalo em abalo, mas o contrário disso é andar distraído.
Com a quantidade de bens e objetos que nos habituamos a acumular, não reunimos a energia também necessária para os ajustes sucessivos de rumo. A vida não cessa de perguntar quem somos e para onde vamos, mesmo a quem deixou de se fazer essas perguntas. Ter a resposta continuamente fresca, como a roupa nova, é a única coisa que nos pede. Não é pouco.
Acostumei-me a deixar doer quando algo doía, por amor confuso ao sofrimento. Agora, quando dói, deixo doer, mas por amor só. As mãos do amor nunca trabalharam e não se lhes vê fundo. Não lhes falta saber nem há fome de que padeçam. Fermentam cura no seu calor iletrado. Ao seu cuidado, a dor volve redonda, feita nada – silêncio iluminado.
Mesmo quem não é naturalmente dado à introspeção acaba, nalgum momento da vida, por não conseguir evitar a pergunta: “O que é a felicidade?” Há quem chegue a ela pela experiência prolongada ou culminante do sofrimento; há quem chegue pela via da concretização de metas que não entregam a satisfação prometida. Na ausência do esquivo troféu, propõem então que a felicidade não esteja nas metas, mas no caminho, escondida nos obstáculos que tiveram de ultrapassar para chegar às metas e na transformação pessoal que daí decorreu.
Encontrei ao longo dos anos muitos ecos desta filosofia, que não conseguia convencer-me mais do que a ideia da felicidade como fruto de conquistas externas. Ambas as respostas me pareciam fundamentalmente erradas, talvez por ter vivido mais pelos caminhos do pelas chegadas e também por lá não ter visto sinais de felicidade.
Até que, mergulhada nestas cogitações, me lembrei de uma cantiga que aprendi na escola primária e que só recentemente soube ser um poema de Vinícius: “A casa”, que descreve uma casa “muito engraçada”, que não tinha teto nem coisa nenhuma. Não tinha, enfim, nada que a definisse como casa, além do nome de quem assim a chamava e olhava como tal. Era uma impossibilidade lógica que me fascinava e me ficou a bulir por dentro mais do que qualquer outra coisa que tenha aprendido na carteira da frente da sala de aula.
O tempo apenas lhe tirou o som, que agora se faz de novo ouvir, quando descubro que a casa engraçada tem sido a minha procura da felicidade, que a consciência nunca rendeu. A felicidade de me encontrar sucessivamente, fulminantemente, com quem sou e com o lugar para o que sou, e de esse lugar vir crescendo comigo. E de assim me achar numa casa sem penico, de onde caem as paredes e se perde o chão, no trabalho de demolição do Amor, que subtrai primeiro para acrescentar depois. Desfeitas as ilusões de pequenez e as romarias da imaginação, a casa sem teto é a mais aconchegante do mundo, em equilíbrio precário no vórtice impossível do ilimitado. Penico para quê?...
As you begin to wake yourself up from your dreams of hell or purgatory, heaven dawns on you in a way that the imagination can’t comprehend. And then, as you continue to question what you believe, you realize that heaven, too, is just a beginning.
Byron Katie

(…) es donde estoy bien, en lo cotidiano. (…) Amo la vida cotidiana y no los viajes. Ni salir de mí para excitarme ni querer vivir más intenso. Lo intenso está dentro, en la tormenta y la calma cotidianas.
Isra Bravo
Onde haveria eu de estar senão aqui, sempre aqui, nas ruas do quotidiano onde o Natal é um dia igual aos outros, igualmente próximo, de onde quer que seja observado. A diferença é que no Natal o silêncio, a linguagem do amor, fala mais à vontade consigo mesmo, pairando sobre as ruas sem precisar que alguém o entenda.
Imagem: baralho Morgan Greer
Antigamente, lembro-me de que eram o telejornal e os programas com imagens de violência explícita que avisavam desse teor, impróprio para crianças e suscetível de ferir a sensibilidade dos mais crescidos. Por estes dias, não é só o conteúdo audiovisual que traz essa advertência, já não limitada à violência física: é preciso resguardar o público de tudo o que possa ser percebido como gatilho emocional ou fator desencadeante (triggering), incluindo texto que aborde temas considerados sensíveis.
É assim que artigos e séries televisivas que se debruçam sobre o suicídio ou a violação são acolchoados de mensagens a preparar o recetor, que pode sentir-se ansioso ou ofendido praticamente por qualquer coisa, sobretudo por aquilo que ponha em causa os seus pontos de vista, como apontam Greg Lukianoff e Jonathan Haidt em The Coddling of the American Mind (publicado em português com o título A Infantilização da Mente Moderna).
Students claimed that certain kinds of speech – and even the content of some books and courses – interfered with their ability to function. They wanted protection from material that hey believed could jeopardize their mental health by ‘triggering’ them, or making them ‘feel unsafe’.
Greg Lukianoff e Jonathan Haidt
A tendência emergente cedo galgou as fronteiras do mundo académico em foco nesta obra, mostrando que a excessiva cautela com as ameaças à segurança emocional se aliava às preocupações desmesuradas com a segurança física. Daí nascia a necessidade de se criar “espaços seguros” que pusessem a salvo do desconforto ou do risco anunciado pelos caprichos do sentimento.
Ora, parece-me a mim que estas medidas não são suficientes e que deviam ser alargadas às experiências de vida perturbadoras, que nos surpreendem sem a consideração de enviar sinais. Era útil saber quando vou cair num buraco: assim podia contorná-lo ou escolher outro caminho. Nos golpes que não fosse possível evitar, restava-me a técnica que se aprende por reflexo na infância, quando aparecem as tais imagens feias na televisão: tapar os olhos com as mãos. Se possível, refugiava-me numa dessas ilhas de salvação que agora existem – os safe spaces que protegem a nossa fragilidade emocional e não nos deixam bater com a cara no chão.
Prestes a entrar em 2026, é só isso que tenho a pedir aos senhores do carma e aos candidatos à presidência da República: enviem um alerta quando vier marosca. Acreditando que um desejo único tem mais probabilidade de ser atendido do que uma listinha completa, confesso que foi difícil decidir entre isto e a conclusão das obras do metro. Quanto a essas, estou disposta a ser enganada mais um ano; a retrospetiva de 2025 é que ensina a falta que faz um recadinho amigo sobre as minas escondidas no novo ano, para entrar em 2026 de olhos abertos e couraça a rigor. A "resiliência" que se dane.
Para mim, o Natal é uma rabanada, repetida todas as semanas até deixarem de as fazer. Ou assim era até as gaivotas terem começado a ameaçar essa nesga de calor, na falta de polícia e de seguranças, que em vez de se unirem na solidariedade de uma muito necessária Brigada das Gaivotas, ocupam o tempo à caça de quem anda a fazer sessões fotográficas em espaços públicos com máquina a sério (com o telemóvel já se pode). Sem rabanada de leite, não há Natal. Por isso, aviso desde já que o andar suspeito que em breve poderá fazer soar o alarme nas câmaras de reconhecimento facial é a rabanada debaixo do casaco, a proteger o meu Natal – o olhar inquieto é o que indaga ao horizonte se o caminho está livre para poder dar uma dentada num Natal com açúcar, mas livre de culpa, sem as aves terem inveja.
Mesmo que com a presença única de animais que não são meus amigos – o que já por si põe em causa um bom troço de infância passado a ver a Arca de Noé, que nos dizia para sermos amigos deles –, é um Natal mais transparente do que qualquer outro. As gaivotas vão diretas ao assunto, sem se fazerem rogadas. Não andam a rondar pelas costas, a cobiçar a minha rabanada nem a questionar o meu direito a ela: atacam e está feito. Apesar do sobressalto, há mais verdade nisso do que em qualquer Natal que tenha conhecido, mesmo quando recebia prendas e era muito nova e passei pela febre das cassetes da Mariah Carey. Parece outra vida.
De resto, tudo o que queria no Natal era que chegasse o dia seguinte. Quando chegava, preferia que não tivesse chegado. Dentro do espírito da brevidade, é nisto que posso condensar os Natais e aniversários de uma vida – até à data. A felicidade era para fingir, como todos sabiam no contrato tácito que as famílias nos fazem assinar quando subscrevemos o serviço. Em cada Natal e cada aniversário, perdi um pouco mais a inocência de berço que tinha de voltar a montar nos outros trezentos e muitos dias do ano. Mas o trabalho não foi em vão: de tanto escavar para afundar os alicerces, achei uma inocência pré-imaginação, intocada desde antes do primeiro choro. É essa que reluz nos meus olhos, a condizer com o brilho do açúcar na rabanada e um Natal simples, as gaivotas e eu.
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