Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Na Pegada do Silêncio

" ‘You are a lover of silence’, he said". H. W. L. Poonja

" ‘You are a lover of silence’, he said". H. W. L. Poonja

Na Pegada do Silêncio

28
Jun23

Capuchinho Vermelho, a floresta e o caçador

Sónia Quental

A abraçar árvore (2).jpg

Muitos são os educados, mas poucos os iluminados.

David R. Hawkins (psiquiatra)

  

O facto de milhões de pessoas partilharem os mesmos vícios não os transforma em virtudes; o facto de praticarem os mesmos erros não os transforma em verdades e o facto de milhões de pessoas partilharem a mesma forma de patologia mental não as torna mentalmente sãs. 

Erich Fromm (psicanalista, sociólogo e filósofo)

 

 

Era uma vez o Capuchinho Vermelho. Vivia numa pequena casa, situada numa pequena aldeia, na orla de uma grande floresta. Ninguém conhecia bem a floresta nem sabia o que havia do Outro Lado, porque era território interdito e só um caçador autorizado podia aventurar-se arvoredo adentro, desde que respeitasse os limites do município. O caçador tinha de ter licença da Câmara e de ser um especialista reconhecido e certificado pela Associação Mutualista e Inclusiva dos Inimigos do Lobo Mau.

O Capuchinho Vermelho tinha uma curiosidade natural e queria saber o que havia na floresta e, quem sabe, atravessar para o Outro Lado. A mãe, naturalmente protetora, dizia-lhe que só pela mão de um caçador certificado. Eram especialistas com direito a posse de arma, que conheciam as melhores clareiras da floresta e sabiam recitar os nomes das árvores em latim, mas desconheciam o que havia do Outro Lado. Faziam apenas excursões turísticas, para distrair a mente e aliviar o stresse, e deixavam as pessoas tirar fotografias com o telemóvel. Iam e vinham dentro dos limites decretados, mas nunca tinham estado do Outro Lado e, na verdade, pouco uso tinham dado à arma.

Não se conhecia quem tivesse passado para o Lado de Lá (como também lhe chamavam), mas corriam rumores de loucura e ruína transmitidos de geração em geração, dissuadindo os curiosos de se aventurarem no desconhecido. O Lobo Mau era o malfeitor de algumas dessas lendas, de que não restavam sobreviventes para fazer um retrato-robô, por isso a sua identidade e paradeiro permaneciam incógnitos.

 

Este quase que podia ser o enredo do filme The Village (2004), que muito recomendo, e uma alegoria do artigo “O lado sombrio do Zen! Quando a meditação se torna perigosa”, de João Ereiras Vedor, que, se quiséssemos resumir ainda mais, podia caber no provérbio “A curiosidade matou o gato”.

É um texto que escorrega bem, com muitas fontes bibliográficas e escrito com boas intenções, mas cujas ideias considero descabidas. Citando Adyashanti, autoridade reconhecida em meditação: “A verdadeira meditação não tem direção, objetivos nem método. Todos os métodos têm como objetivo alcançar um determinado estado de espírito. Todos os estados são limitados, impermanentes e condicionados” (in True Meditation). Depois de começar por tentar aplicar técnicas e seguir a disciplina do budismo zen, Adyashanti descobriu a meditação autêntica quando se libertou delas. A tónica deste livro aponta precisamente para a importância de se desistir das tentativas de controlar a experiência meditativa e abdicar de todas as formas subtis de manipulação para se abraçar uma inocência intrínseca: “Como é que o controlo e a manipulação podem conduzir-nos ao nosso estado natural?”, pergunta.

Claro que aqui, como sugere o título, se fala da verdadeira meditação, que não é um exercício que se procure para desacelerar o pensamento, controlar as emoções ou aliviar problemas psicológicos. É um repousar no Outro Lado da história do Capuchinho Vermelho, que muitas vezes nos faz confrontar com as sombras e os perigos da floresta. É por aí o caminho e não há atalhos nem “especialistas” que possam desbastá-lo por nós.

Que haja quem se aproprie da meditação com objetivos mercantilistas e corporativos inescrupulosos, como propõe João Vedor, certamente que sim – o que não lhe retira valor. Também de Cristo se faz há milénios toda a espécie de apropriações e distorções, encontrando-se a sua hipotética imagem estampada em muitos artigos de merchandising, o que não me parece que faça do próprio uma fraude ou nos obrigue a confiar-nos a uma instituição religiosa ou a um "especialista" para validar a autenticidade de uma experiência epifânica.

Aproveitando o paralelismo legítimo que o autor de “O lado sombrio do Zen!” faz com a oração, as suas advertências em relação à meditação, que considera mais perigosa por não ser herança nossa, seriam o mesmo que dizer a alguém para não orar sem a devida técnica, porque podia sofrer um desarranjo emocional ou ter um arroubo místico incontrolável que só a técnica seria capaz de evitar. Aliás, a sugestão de que as sensações físicas e psíquicas provocadas pela meditação e pela oração se reduzem a efeitos neuronais é particularmente insidiosa e característica de uma ciência materialista, que identifica a mente com o cérebro, classificando certos estados “alterados” de consciência como de “desconexão com a realidade”.

Já quanto ao apontamento histórico sobre a introdução da meditação no Ocidente e o seu desenraizamento, vale a pena lembrar que um dos hippies que impulsionaram o movimento, nos anos '60, foi Ram Dass, professor de Psicologia em Harvard, que também estudou os efeitos terapêuticos das substâncias psicadélicas e fez, sim, a sua viagem de busca existencial à Índia, que não durou apenas um mês e lhe deu ocasião de conhecer Neem Karoli Baba, que mudaria profundamente a sua vida e a orientação do seu trabalho.

 

Como contraponto aos exemplos clínicos apresentados por João Vedor no seu artigo, refiro o caso do escritor Paul Levy, internado pelos pais, diagnosticado como psicótico e acossado pelo sistema psiquiátrico, que reforçou o seu trauma de vida, revelando um lado sombrio da psiquiatria que merece toda a exposição que recebe nas suas obras – particularmente, em Dispelling Wetiko e Awakened by Darkness. Aí se lê que “(...) num verdadeiro despertar espiritual há frequentemente uma conjugação de fatores saudáveis e patológicos” que é preciso integrar: “A iluminação não é apenas ‘ver a luz’; ver a escuridão também é iluminação”.

A sua experiência com a psiquiatria é descrita como uma forma de abuso de poder e de violência disfarçada de amor, exercida por profissionais que desempenham o papel de sumo sacerdotes de uma religião científica moderna, o que a minha experiência confirma. “Na verdade, para a maioria dos psiquiatras, não existe sequer o conceito de um campo de consciência subjacente a tudo. A consciência é antes entendida como algo que surge da matéria e que, portanto, pode ser manipulada através de meios materiais (…)”. Noutro passo: “Enquanto estive no hospital, dei por mim numa situação absurda: estou no meio de um despertar espiritual que mudou a minha vida, enquanto os médicos me interrogam sobre a minha perceção da realidade para perceberem se estou louco. (…) Isto faz-me lembrar uma frase de um e-mail que recebi há alguns anos, em que a pessoa escrevia: ‘Quando disse à minha psiquiatra que achava que a minha missão neste mundo era espalhar a mensagem do amor, ela receitou-me um antipsicótico’”.

 

Para finalizar, apesar da maior apetência pela meditação “verdadeira”, tal como atrás descrita, que não tem um caráter utilitário nem é subserviente a um consenso social e pseudocientífico de realidade, em nada me incomoda quem a tenha como passatempo ou trivialize. É nos passatempos que se descobre paixões e por vezes se tropeça em vocações. Às vezes, há alguém que ganha ganas de chegar ao Outro Lado e, para pasmo de todos, chega mesmo.

Não há verdadeiras descobertas dentro dos limites do conhecido. A técnica não só não nos livra de perigos, como nos inibe, consolidando uma versão acanhada e contrabandeada do Real. Antes viver neste com um surto “psicótico” do que anestesiada no quintal da Carochinha.

 

Perceber tudo como um não é um estado alterado de consciência. É um estado inalterado de consciência; é o estado natural da consciência. Comparativamente, tudo o resto é um estado alterado.

Adyashanti

 

 

Fotografia: 2021 © Francisco Amaral – Todos os direitos reservados

 

26
Jun23

Inocência ou loucura?...

Sónia Quental

Captura de ecrã 2023-06-25 135333.png

 

I don’t have anything to lose. I can afford to be a fool. 

Byron Katie

 

 When I first realized there was only me, I began to laugh, and the laughter ran deep. I preferred reality to denial. And that was the end of sorrow.

Byron Katie

 

 

            

Percebi que um mestre espiritual só é levado a sério se usar tanga. Se tiver tido o azar de nascer no Ocidente e, pior ainda, se for americano, precisa de ter uma elaborada concetualização filosófica e ser pouco dado à ternura ou corre o risco de ser confundido com os desatinos New Age. Há uma certa distância que é preciso manter do comum dos mortais para se ocupar com dignidade o pedestal destinado aos gurus.

Cheguei a essa conclusão quando pensava em escolher um livro de Byron Katie* para oferecer, mas não sabia se seria indicado para a pessoa em causa e resolvi procurar avaliações de outros leitores e pesquisar críticas na internet para perceber como tinha sido recebido (sendo que eu própria já conhecia essa e outras obras da autora).

Apesar da morbidez que espiga nestes meios, os comentários sórdidos do Goodreads e de sites em que analisavam o seu trabalho recorrendo a conceitos psicológicos e filosóficos vazios deixaram-me atónita. Leitores que se socorriam do seu “pensamento crítico”, de uma bagagem intelectual e académica e da sua experiência horizontal de vida para proferir um veredicto de legitimidade sobre alguém que não se encontra no mesmo nível de consciência, chegando ao ponto de ridicularizar que o “despertar” de Katie tenha acontecido quando estava deitada no chão e se apercebeu de uma barata no pé – algo que estes críticos de algibeira não consideram provável. O caso é agravado por se tratar de uma mulher que pouco tempo antes fora alcoólatra, vivera deprimida e com pensamentos suicidas, o que os defensores da tolerância e do não julgamento acham mais uma vez difícil de conciliar com a sua moral vanguardista e a sua mente iluminada.

O que Byron Katie faz no seu “Trabalho” não é a desconstrução de crenças irracionais do cognitivismo. O seu questionamento não é uma técnica de psicoterapia, tendo, sim, como propósito último levar o sujeito que a ele responde para além da mente e do ego. Katie faz publicamente e sem aparato teórico o mesmo que outros professores têm maior relutância levar às últimas consequências: mais do que silenciar a mente por momentos, trata-se de questionar o vício de pensar e de acreditar nos próprios pensamentos, que tem a sua génese na perceção da dualidade. Embora se empenhe em desmistificar as narrativas que causam sofrimento, a sua abordagem faz derrocar a estrutura dos nossos processos mentais. Extrapola-se que não só o “Penso, logo existo” é uma crença equivocada, como o pensamento em si é um logro, sugestão que gera reações de incompreensão, confusão e recusa violenta ao invalidar o que o Homem moderno tem como núcleo da sua identidade.

Essas são secundadas pela incompreensão de alguns que parecem acompanhar o “Trabalho” e empenhar-se nele. Em todos os círculos de vocação espiritual há seguidores que tendem a levar uma prática ou ensinamento ao extremo, perdendo o equilíbrio, o discernimento e transformando-os numa caricatura da proposta original, porque não souberam captar a sua essência. Hoje em dia, com a influência sombria de certos escândalos mediáticos, é tentador colar o rótulo de “culto” em qualquer aglomerado de pessoas que se reúnam em torno de um líder espiritual, embora Byron Katie seja a antítese da soberba – talvez por isso seja tão tentador chamá-la louca. Cai-se na distorção de em tudo ver cultos, depravação ou tudo confundir com o New Age, descartando-se levianamente como fake o que não tenha filiação com uma escola religiosa ou espiritual consagrada.

O hábito e a necessidade de dar nomes desconcertam os devotos da tradição, que gostam de saber situar-se para proferir as suas sentenças. Em muitos dos comentários que encontrei no Goodreads, a opinião autorizada era: “não recomendo”. Se ainda não conhecesse os livros, seria motivo bastante para ir a correr comprar a obra completa.

            

My job is to delete myself. If there were a bumper sticker representing my life, it would say: CTRL-ALT-DELETE: WWW.THEWORK.COM.

Byron Katie

 

*Refiro-me concretamente ao título A Mind at Home with Itself, que prefiro ao Loving What Is. Este último, porém, foi traduzido e publicado em português há um ano pela Albatroz. Desconheço a qualidade do trabalho de edição, mas desconfio dela, por tratar o leitor por “tu” logo no título da obra (Ama a Vida como Ela É).

23
Jun23

Mente que mente

Sónia Quental

A preto e branco - Madalena (03.12 (4).jpg

All these disturbances and thoughts are like rats in the home of peace, so you have to be like a cat.

H. W. L. Poonja

 

You can have ten thousand thoughts a minute, and if you don’t believe them, your heart remains at peace.

Byron Katie

   

           

A mente acorda queixosa. A vida vai torta, o mundo não gira como ela queria. A órbita da Terra é incerta e o controlo que exerce sobre ela é pouco. Os queixumes são a forma que aprendeu de regatear favores.

A mente acredita em si mesma, põe fé nos pensamentos. Ao menos esses são seus. Ou seriam, porque a mente ouviu um dia que não se deve acreditar neles. Fica perplexa. Pensa que, se os pensamentos acabam, ela acaba. E a mente não quer acabar.

Quer cobrar todas as promessas não cumpridas que alguma vez lhe fizeram, atirá-las à cara dos faltosos, banquetear-se de rancores. Quer continuar a compilar a lista de males sofridos, que já vai mais comprida do que a lista de livros que leu. Mas gosta de ambas, porque tem queda para listas e gosta de cultivar pequenas vaidades. Gosta de pontualidade e de clamar por justiça.

A mente é inflexível na sua recusa de perdão. Também não gosta de jejuar, mas pelo menos levanta-se cedo. Há vezes em que nem chega a passar pelo sono, porque tem muito que fazer, problemas a resolver, o apuramento de todos os comos e porquês desde o início dos tempos. Para ela, o mundo está sempre à beira do apocalipse. Um pequeno deslize, uma distração involuntária e tudo se acaba.

Quer acordar outro dia queixosa, discutir com a vida do nascer ao pôr do sol, ter a última palavra. A sua fome de mais nunca se aplaca, tal como a busca de responsáveis: os outros, a própria, Deus, o conformismo das massas. Deve haver alguém implicado em tudo o que vai mal, a quem possa pedir contas e obrigar a desfazer o que está feito.

A mente quer encontrar o vilão da história. Quer estar em todo o lado menos aqui, ser tudo menos contente. Acha que aceitar é conformar-se – calar-se, desaparecer. E a mente não quer capitular, ficar sem ocupação. Tem-se como imprescindível, narradora sem a qual a história não avança. E ela gosta de histórias e de protagonismo. Tem sempre desculpas para interromper o silêncio e fazer-se escutar. Caso contrário, faz birra.

Mesmo assim, o Amor vem para a abraçar. A mente emudece de pasmo.

 

Recorte de fotografia de: 2018 © Francisco Amaral – Todos os direitos reservados

 

20
Jun23

"Twilight Zone"

Sónia Quental

100 Years (1).jpg

Live in Mordor too long and you come out looking like Gollum.

Neil Kramer

  

Some people have the idea that, if something is legal, it’s moral. (...) That's what government does: it tries to make the immoral moral by giving it the blessing of legality.

Thrive II

  

           

Não tendo atividade comercial nem envolvimento direto na utilização de espaços públicos para outros fins que não a locomoção, há realidades deste mundo que me passam ao lado. Talvez por isso ainda me escandalizem os atos de bizarria que se revestem de normalidade.

O dia em que perdi a inocência foi quando soube que aos meus pais, que tinham um estabelecimento comercial, era pedido o pagamento de uma taxa anual à Câmara por terem o reclame luminoso a fazer publicidade para a rua (!). A segunda vez deu-se no início deste ano, em que me proibiram de ser fotografada no mercado do Bolhão, explicando que era preciso enviar requerimento à Câmara, que o fundamenta no Código Regulamentar do Município pela “(…) pressão exercida na gestão da coisa pública local”. A terceira foi quando me disse uma esteticista que era obrigada a pagar licença para ter a rádio ligada e que o mesmo acontecia com as televisões nos cafés.

Neste rescaldo, e ainda atordoada pelos tentáculos do absurdo, apesar dos anticorpos mentais desenvolvidos desde 2020, chega-me um regulamento em que o Condomínio, maiusculado e tudo, como se pessoa fosse, quer ser meu pai. Pouco falta para ter de lhe pedir permissão para entrar em casa, perguntar como devo decorá-la ou em que posição devo dormir. Por falar nisso, tenho de me lembrar de questionar se vai oficializar a adoção e partilhar apelido comigo, embora duvide que me venha esfregar as costas ao banho, limpar a casa ou preparar as refeições.

Absorvida nestas cogitações, ocorreu-me o jogo infantil “Mamã, dá licença?”, com que nos condicionam desde a infância a acatar ordens arbitrárias, só porque a mamã diz que sim. Estranhamente, quando um qualquer ditame se transforma em lei, inspira nas pessoas o mesmo temor supersticioso que o sobrenatural, como se as ditas leis estivessem gravadas em pedra ou tivessem sido lapidadas nas tábuas de Moisés. Conheci gente que parecia ter uma relação erótica com os regulamentos e que aposto que os usa para se masturbar.

Nas cidades, as normas municipais conferem mais direitos aos edifícios do que às pessoas, aparecendo a proteção destas apenas como pretexto para a instalação de câmaras de rua e o assédio invisível de uma vigilância cada vez mais apertada, em que se vai perdendo o direito à privacidade e tudo se permite em nome da segurança. Prestamo-nos a esta relação paternal(ista) e perversa com os órgãos governativos: em troca de proteção, dispomo-nos a saltar quando nos mandam e a andar ao pé-coxinho ou dar passos à caranguejo quando assim determinam.

Nunca chegamos a atingir a maioridade de consciência, oferecendo a carne às molas da máquina burocrática, que nada busca além da autopreservação. Assumimos que a complexidade das leis e regulamentos esconde uma inteligência e finalidade que não se consegue enxergar entre os termos rebuscados que empregam, mas que insistimos estará por ali algures para nos protegermos do choque psicológico de um mundo em que o Mal manda só porque pode.

 

Fotografia: © Francisco Amaral – Todos os direitos reservados

 

18
Jun23

Bicho-papão

Sónia Quental

100 Years (1).jpg

Fear is the frequency of control.

Neil Kramer

 

 There's so much more to life than the avoidance of death.

David Weiss

 

         

Em pequena, faziam-me adormecer com a ameaça do bicho-papão. Foi assim que ganhei medo ao escuro, aos fantasmas e aos monstros escondidos debaixo da cama ou atrás da porta e foi também assim que me cresceu o pavor de estar sozinha em casa. Nas noites de insónia, transpirava com os lençóis por cima da cabeça, com medo de deixar o nariz de fora para respirar (como agora acontece, mas por causa das melgas). A cantiga mandava o papão embora para o sono vir, mas ele levava-o consigo e só ficavam as trevas.

Quando fui para a faculdade e passei a morar no Porto, tentaram pôr-me medo aos assaltos; na faculdade, os "veteranos" faziam-nos temer os professores e o desemprego; no ano de estágio, alguém se apoquentava por eu morar com um grupo em que havia um homem que, por ser homem, podia violar-me; na vida profissional, como trabalhadora independente, o medo de ficar sem sustento está sempre à espreita. E assim por diante, que é para não falar do crédito à habitação e da IA.

O medo não é apenas um parasita instalado, que engorda de subsídios diários, mas peçonha com que se tenta contagiar tudo à volta, com o pretexto de boas e pias intenções. O certo é que é omnipresente, decretando destinos individuais e coletivos, sob os disfarces mais convenientes: o disfarce da compaixão, da moralidade, do altruísmo, da sensatez, da consciência social. Um presente envenenado ao serviço da segurança e do bem comum, cuja oferta não só é permitida, como ativamente encorajada. Daqueles brindes que se recebe de graça e que fica mal devolver ao remetente.

Campanhas de propaganda fazem à gente graúda o mesmo que o bicho-papão às crianças: regam-lhes o medo, usam-no para manipular. Não por acaso, ele é semeado na infância e cultivado pelo zelo de adultos que querem espalhar a mesma semente que neles medrou e que desconhecem que trancar as portas de casa não deixa o medo de fora.

O medo é um companheiro fiel aos votos de matrimónio, mas também um deus punitivo, que exige sacrifícios humanos, celebrados por sacerdotes que não perdoam. É a única religião primitiva que vingou num mundo evoluído, sem superstições, que se orgulha da Razão que o governa – a mesma a que gosta de chamar Ciência.

 

Fotografia: © Francisco Amaral – Todos os direitos reservados

15
Jun23

A devoção não magoa

Sónia Quental

Série com o Véu - Madalena (03.12 (2).jpg

 

We are called by the divine like an eagle is called by the wind.

 Neil Kramer 

 

In the heroine’s journey we realise that the dragon lies not in a far-off land, but curled within.

 Lucy H. Pearce

 

 

           

Ao primeiro par de sapatos que me magoou, percebi que tinha sido feita para andar descalça. Como com quase todas as verdades que estorvam, fiz-me desentendida para passar vez. Levei os pés para longe da terra, protegidos por sola e desconforto, e continuei em busca de chão, ignorando os arrozeiros que me casavam ao piso.

Se me tivessem dito que a devoção não magoa, talvez tivesse sido mais pronta a largar parafernália, em vez de me sujeitar a apertos escusados, bolhas, joanetes, um sem-fim de mazelas por meter o pé onde não era chamado. Ter-me-ia ajoelhado mais cedo.

Não era dessas crianças com resposta pronta quando lhes perguntam o que querem ser quando forem grandes. A mim, já me chegava ser grande. Os adultos usavam sapatos e seguiam por caminhos batidos, por isso o que tinha era de ir atrás e transformar-me num cisne dócil. Seria inevitável se me esforçasse o bastante.

Mas o esforço nunca bastou enquanto tentava usar sapatos que não eram os meus, seguir por caminhos que eram de todos. O horizonte continuava à distância e as minhas costas, longe de produzirem penas, torciam-se em nós indecifráveis, porque o mundo era pesado e eu não merecia o céu.

Tentei usar calçadeira, ver se os sapatos alargavam com o uso, aplicar-lhes verniz, a eles e a mim, fazer arranques de voo. Acontece que todo o verniz estalava, o batom não pegava nem me assentavam os moldes.

Quando nos pés não havia mais lugar para marcas, o corpo começou a esfarelar-se em terra, dos nós na espinha rebentaram ramos que me embrulhavam os membros, desabrocharam flores nos poros desimpedidos, orbe espacial em convolução orgânica. A força da gravidade trouxe-me os joelhos ao chão. Árvore alada, prostrada na terra, com pés que se afundam e raízes que sobem, não me doía a devoção.

 

Fátima - Francisco Amaral (1).jpg

 

Fotografias: © Francisco Amaral – Todos os direitos reservados

10
Jun23

Isso que existe

Sónia Quental

No labirinto.jpg

Assim como a subida da maré levanta todos os navios, o resplendor do amor incondicional num coração humano eleva toda a vida.

 Fran Grace

 

All the love and affection and kindness that came from Maharajji – you cannot get these from man.

 Ram Dass

 

 

O olhar de mais puro amor que alguma vez presenciei foi entre uma monja e uma criança. Parei a contemplar a cena com um pudor maldisfarçado, naquele princípio de noite em que as velas ainda não ardiam no Santuário de Fátima.

Ali estava, antes da procissão, como noutras ocasiões em que fui a Fátima, sem conseguir sentir qualquer beatitude ou atmosfera que sublimasse o lugar, além da miséria das pessoas em súplica ou do castigo de quem cumpre promessa. Chagava-me a exploração comercial dos peregrinos, sugados até ao tutano pela mais mísera refeição que tomassem, sem que a sua verdadeira fome fosse saciada. A missa a que numa dessas manhãs assisti foi uma prova ao que me restava de candura: como é possível celebrar-se a fé com tamanho artificialismo e ostentação?...

A monja do olhar amoroso não era uma monja qualquer, mas essa é outra história. Naquele momento, trouxe-me à lembrança o documentário sobre Sri Prem Baba, Isso Existe, que traduz no título o arrebatamento de quando conheceu o seu mestre e sentiu o amor que dele irradiava. Outros, como Ram Dass, deram testemunhos semelhantes.

Naquela noite de maio que à memória parece ter sido fresca, percebi que não era preciso viajar à Índia nem a lugares remotos para se achar raridades. Elas encontram-se no lusco-fusco do comum; dão-se a quem se dispõe a cruzar o umbral. Podíamos encontrá-las ao nosso lado, se não nos achássemos pequenos em demasia.

Uns, ocupados com o corre-corre mundano, não aspiram a mais e, mesmo quando inclinados para a religiosidade, repetem litanias por tradição ou sentido de obrigação; os aflitos dividem-se entre as velhas e as novas igrejas, estas com rituais mais emancipados, mas continuando a falhar as promessas aos crentes. São poucos os que buscam – sabe-se que ainda menos os que encontram e realizam. Trancados na separação que trazemos no corpo, não queremos largar, embora, no fundo de nós, mesmo não lhe chamando Deus, algo se lembre e clame por aquele amor que vi em Fátima, amor que salva e descansa.

É “isso” que procuramos sem saber, por vielas tortuosas e esconsas, crianças perdidas à espera que Ele nos reconheça e dê a graça do Seu olhar, arrependidas das nossas feições desfiguradas tanto tempo depois da Perfeição.

Fátima - Francisco Amaral (6).jpg

 

Fotografias: © Francisco Amaral – Todos os direitos reservados

 

06
Jun23

À espera de uma encomenda

Sónia Quental

Parede rosa (5).jpg

 

The ultimate gift is the waiting.

Jean Klein

 

 

A encomenda não chega. Quero debulhar as horas e os dias, raspá-los desta espera que não acaba. Não saio de casa, porque a encomenda pode chegar e o mais certo é que chegue quando não estou. É nesses momentos que a vida acontece: quando me ausento. O que me apanha são as contas, o condomínio, as infiltrações, mesmo quando ando em bicos de pés e tento não fazer barulho. O telefone não atendo, a campainha ainda menos – só o correio me atraiçoa. Exceto quando estou à espera de encomenda: é então que se faz de rogado.

À porta, aparece-me todo o tipo de gente. Da última vez que abri, porque a espera da encomenda me fez relaxar cautelas, era um emissário da Securitas a perguntar-me se queria assistir a um curso que decorria na rua ao lado. Horas antes, ao atender sem querer o telemóvel entre provas de sutiãs, não era para mim a chamada (deram-me um número que já teve dono, por isso até no Natal ligam ao engano).

Tudo porque estou à espera de encomenda e temo que seja o carteiro à porta ou o estafeta ao telefone. Não posso aspirar a casa porque às tantas a encomenda chega e eu não ouço. Não posso atirar-me ao trabalho, porque a campainha me sobressalta a concentração. Cozinhar está fora de questão, para não deixar o fogão ao abandono e o cheira a comida a escorregar da roupa. Levar o lixo, só se for a correr e a olhar por cima do ombro. Vestir o pijama não é aconselhável, porque vou ter de descer para abrir a porta. E de nada adianta pôr-me à janela, porque o correio só vem quando não estou a ver.

Só me resta esperar. Falha na distribuição. Uma vez, duas. Mensagens de SMS, e-mails a avisar que a encomenda está na rua e de novo a dizer que é arredia à entrega. A única coisa que me resta entre um dia e o outro é dormir, mas a inquietação não deixa. Já não quero saber da encomenda – o que quero é que a espera acabe. Quero a rotina, quero retomar o fio do sono. Quero voltar a escorraçar vendedores, fazer de conta que não ouço a porta. Quero que me deixem lavar os dentes, foliar à vontade com o secador. Quero caminhar sem tropeçar nas horas. Quero fazer a digestão em paz. Quero o fim da agonia, do abafo que cisma em não trovejar. Quero a certeza das coisas previsíveis, que não se desviam da hora marcada. 

 

Fotografia: 2020 © Francisco Amaral – Todos os direitos reservados

01
Jun23

Quero um amor com fios

Sónia Quental

Chafariz 21.01 (4).jpg

I, too, had the natural impulse to want to be seen, to want to meet some other human being in this damn life, full of gains, and idiocy, and superficiality, and insanity - to meet another human being in the Deepest. What greater blessing is there than that? Not for self, but for Love.

Kavi Jezzie Hockaday

           

Quero um amor analógico, revelado com paciência na câmara escura do coração. Nada de imagens instantâneas, que aparecem no momento, e da gratificação fácil, enganosa que dão.

Quero um amor com fios onde o wireless reina supremo. Um amor como as cassetes, que é preciso virar para ouvir o lado B, cuja fita se embaraça e pede destrinça. Quero um amor denso, que se possa ver e tocar, com episódios semanais por que é preciso esperar – não dessas séries que se vê de uma assentada, em maratonas de madrugada e de fim de semana, e que se esquece logo que acabam.

Quero um amor apurado, que não seja mera fast food; um amor que leve o seu tempo a cozinhar, com ingredientes exóticos e simples, misturados a olho por uma mão que conhece. Um amor que venha com brinde e lance pega-monstros comigo.

         Quero um amor novo, não em segunda mão, comprado na Zara ou made in China. Quero um amor digno, roupa de cerimónia que se veste todos os dias, que não tenha de guardar para a missa de domingo. Quero um amor que persista. Um amor vintage, que não saia de moda e a que possa sempre voltar, a peça básica sem a qual nenhuma funciona.

Quero um amor que não precise de lançar cartas para adivinhar sortes nem desfolhar malmequeres. Um amor de criança, eterno e inocente, que me estale na boca, como as Peta Zetas das tardes em que o tempo não se movia.

Um cubo mágico, com a dose certa de desafio, mas que sempre se refaça depois do desalinho. Um amor que aperte uma pestana nos dedos e peça o mesmo desejo de olhos fechados.

Quero um amor peregrino, assombrado pelas mesmas perguntas que eu, que acerte o passo comigo e ouça o silêncio comigo. Que me lave os pés e eu a ele. Talvez seja inveja de quem teve um Tamagotchi, mas quero um amor de que possa cuidar.

Quero um amor que me leia em braille e conheça as linhas com que me coso. Só lhe vou pedir que me passe a ferro. 

 

Fotografia: 2019 © Francisco Amaral – Todos os direitos reservados

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2024
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2023
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D

Na Pegada do Silêncio by Sónia Quental is licensed under CC BY-NC-ND 4.0