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Na Pegada do Silêncio

" ‘You are a lover of silence’, he said". H. W. L. Poonja

" ‘You are a lover of silence’, he said". H. W. L. Poonja

Na Pegada do Silêncio

28
Fev24

O lado negro da espiritualidade

Sónia Quental

Não sei precisar quando o conceito de “ego” entrou na moda nos meios espirituais e todos passaram a contar como o “seu” ego tinha feito isto e aquilo com toda a autonomia, num estranho exercício dissociativo que o transformou numa espécie de animal de estimação, separado do indivíduo que assim se expressava. A pessoa que falava parecia desempenhar o papel de mónada iluminada que descia por instantes à Terra para censurar o mau comportamento da mente que tinha ficado a animar aquele corpo, presa a tendências retrógradas que não eram de sua responsabilidade.

Nos grupos que tratavam o trabalho espiritual com marcada austeridade, o desconforto era constante, porque a tendência a vigiar o ego tinha planos de expansão e não se ficava pelo próprio: precisava de vigiar também o dos outros. Assim, a pessoa dita “consciente” tinha de andar em contrição permanente, com a culpa do pecado original gravada na testa, o semblante grave e os ombros curvados, não fosse alguém acusá-la de caminhar demasiado direita e querer amestrar-lhe o ego, lembrando-lhe todas as suas projeções, compensações e programações herdadas.

Debbie Ford, uma das autoras que trouxeram à ribalta o trabalho com a sombra, publicou no final dos anos ’90 o livro The Dark Side of the Light Chasers, em que expunha as pretensões dos "trabalhadores da luz", chamando a atenção para a importância da integração de todos os aspetos do Eu. Não seria um livro que Ramana Maharshi tivesse escrito, mas abriu espaço para outras vozes, que preferem trabalhar mais perto da terra, convidando-nos a sujar as mãos, a voltar ao corpo e a deixar de castigar o ego por crimes presumidos. Duas delas são as de Amoda Maa e Miranda Macpherson, que reconfiguraram a espiritualidade pela rendição do feminino – e não há como ignorar Mātā Amritanandamayī Devi, ou simplesmente Amma, a propósito de quem, no documentário Darshan: The Embrace, alguém que se sentou perto dela durante as horas intermináveis que passa a abraçar pessoas dizia ter sentido que o tempo deixara de existir.

There were times (...) when I was just like any other woman (...) at times feeling like a traumatized animal shivering on the floor. All of the models of spiritual realization I had worked with previously, which had been delivered through the masculine lens only, might have viewed my process as a failure to remain in the no self-state. However, the transmission of ego relaxation revealed a much more integrated, feminine approach to walking the path – to surrender in and through all that we encounter, including our animal humanity and all of our emotions.

Miranda Macpherson

 

De minha parte, recordo como, depois de vários dias de um curso de terapia alternativa que fiz em Madrid, o momento que mais me tocou foi quando o motorista do transfer que me levou do hotel para o aeroporto me contou o segredo da felicidade. Era um domingo de Páscoa e o atraso do avião fez-me lamentar a conversa abreviada pela pressa.

À semelhança dessa experiência, aprendi mais sobre espiritualidade a dançar do que a estudar teosofia. Conheci mais de perto o amor no olhar daquela monja do que em qualquer palestra que tenha ouvido. Ensina-me mais quem ocupa uma caixa de supermercado, as pessoas que vejo trabalhar com energia e alegria, sem contar os dias que faltam para chegar a sexta-feira, a professora que repara em quem não foi à aula e quer saber o que lhe aconteceu.

Foi talvez o mesmo que levou os reclusos, na última sessão de formação que dei no estabelecimento prisional masculino de Custoias, a entrarem na sala antes da hora, encurtarem o intervalo, com a formalidade voluntária da fila indiana, e a fazerem em silêncio tudo o que lhes pedi, declarando finalmente o carinho que tinham por mim. Não que tivesse sido branda com eles (pelo contrário): era que me importava, e eles tinham-no testado vezes suficientes para se convencerem disso.

Nos dias que correm, mesmo que ainda não tenha largado a minha máquina de etiquetas e continue a fazer separações, nem todas essenciais, posso dizer que uma das que deitei fora foi a que dizia “espiritual/não espiritual”. Aprendi a deixar certos intelectualismos de lado e a tomar posse de mim e da vida. Divisão por divisão, em vez de fustigar o ego, escolho dançar com a sua sombra. Acho graça quando me calca os pés: a sintonia é plena.

 

 

23
Fev24

Filosofia do lixo

Sónia Quental

 

Many of the trees along the way were hung with plastic bags or the remnants of sheets of polythene that flapped in the wind like Buddhist flags on a high Himalayan plain.

Theodore Dalrymple

 

         

Fiquei a burilar durante meses numa crónica que Tiago de Oliveira Cavaco publicou no Observador a propósito das mulheres que se maquilham nos transportes públicos, gesto que se dizia tentado a atribuir à humildade. Tendo eu este atributo na mesma categoria que o Big Foot e as famílias felizes (ouvem-se relatos, mas os avistamentos são raros), a explicação ficou-me atravessada, sem que alguma vez a aceitasse por completo, pela sua ingenuidade um tanto ou quanto perra.

Tão distinta é a origem que encontro para o fenómeno que não hesito em relacioná-lo com o lixo. Na breve passagem que fiz por Londres, no último ano, a impressão que a cidade me deixou foi de tremenda deceção, em parte devido à evidente falta de planeamento urbano, ao lixo e sujidade que vi nas ruas, que me levaram a pensar que o Porto, um concorrente de peso ao novo troféu de Cidade Imunda, teria de se esforçar um pouco mais para lhe chegar aos calcanhares.

Prova de que não me equivoquei é a análise que Theodore Dalrymple – descobri-o mais tarde – tem vindo a dedicar ao tema do lixo em Inglaterra, em artigos avulsos e na obra Litter, que lhe é inteiramente votada. A cultura em que Dalrymple enquadra a prática generalizada de deitar lixo para o chão corresponde à de uma nova geração em que os hábitos crescentes de consumo de fast food e o desprezo pelas tradições familiares se aliam à apoteose de uma autenticidade e espontaneidade desregradas. O retrato pintado é de uma população bárbara que, divorciada de valores históricos e religiosos, não pode senão prestar culto a si mesma (cabe aqui a vénia ao autor, que é ateu, mas reconhece o lastro da religiosidade).

Britons now drop litter as cows defecate in fields, or snails leave a trail of slime.

Theodore Dalrymple

 

Com o espelho maior (4).jpg

Não me parece difícil encadear esta síntese com a reflexão sobre as mulheres que se maquilham nos transportes e que trazem espelhinhos consigo, como Obélix trazia o seu escudo, nesse belo paralelismo que Tiago Cavaco faz na sua crónica. Embora o nosso país viva outra realidade, aventuro que o seu desfasamento face à sociedade inglesa contemporânea já não será tanto quanto poderia imaginar-se, e o amontoado de lixo aí está para sugerir que seguimos no mesmo trilho e que não são apenas migalhas que deixamos para trás. A diluição entre as esferas do público e do privado, a apropriação abusiva dos espaços partilhados e o exibicionismo vulgar, que acompanha a perda da introspeção e da profundidade em que já aqui tenho insistido, explicam quer a desenvoltura com que certos atos, antes considerados íntimos, se desempenham agora em público quanto a forma descomplexada como o lixo e o barulho atravessam paredes, infestam condomínios e degradam cidades.         

Os espelhos que as pessoas carregam, esses, não são apenas acanhados em dimensão, mas afoitamente distorcidos. Tenho para mim que seremos sempre chamados a prestar contas de como os polimos, se os empregamos para efeitos cosméticos de ocasião, para uma contemplação narcísica ou para um real caminho de aperfeiçoamento que devolva à beleza a sua virtude. 

        

Fotografia: 2021 © Francisco Amaral – Todos os direitos reservados

 

20
Fev24

Divisões

Sónia Quental

No negócio de família, não gostava de atender ao balcão, mas gostava de etiquetar os produtos e de os arrumar na prateleira, um dos gestos concretos com que dava ordem e significado ao mundo. Da mesma forma, rotulamos e dividimos objetos e pessoas em categorias para fazermos mapas que nos situem, para nos defendermos do perigo, mesmo quando ele nasce de ficções ou embirrações pessoais. Tal como divido o mundo entre quem usa cinto e quem não usa, quem toma a meia de leite escura ou clara, morna ou quente (o que tem vastas implicações), há quem o divida entre pessoas simpáticas e antipáticas, bem-dispostas ou maldispostas – eu divido-o ainda entre as superficiais, que fazem divisões destas, e as profundas, que são as raras.

A superficialidade faz-me crispar a pele. Uma das coisas que não deixam saudades da época em que me deslocava para um local de trabalho era o “Bem-disposta?” com que me recebiam ainda antes de pousar pé no recinto – levando a crer que o modo como uma pessoa se apresenta, a sua forma de estar e de ser andassem ao sabor do vento, que sopra aleatoriamente numa direção ou noutra, e fosse preciso fazer medições cautelosas para os restantes adotarem a distância necessária durante o dia. Era a forma de nos dizerem que, se algo corresse mal, a razão não era outra além da má-disposição do culpado. Para quem gosta de dividir o mundo como os polos das pilhas, não haveria outra causa, mais substancial, para uma reação negativa do que a pessoa não se ter disposto como devia.

O mesmo quando vieram as “distâncias de segurança” e tentavam cumprimentar-me com o cotovelo. No dia em que decidi dizer não, obrigada, a pergunta que logo veio, “Acordaste maldisposta?”, ajudou a virar o resto que faltava de umas tripas que costumam portar-se melhor. Como se houvesse sanidade em andar a dar cotoveladas às pessoas e a evitar-lhes o bafo, com aquele ar gorduroso e pífio de “Chega-te para lá, mas somos amigos na mesma”. Também divido o mundo entre esses e os outros.

Há dias em que gostava de pousar a máquina das etiquetas, permitir uma certa desordem durante 5 minutos inteiros, misturar os preços, trocá-los até (arrepio-me só de pensar!). São as divisões que nos fazem sentir seres separados, saber onde começamos e acabamos, responder continuamente à pergunta “Quem sou eu?” na construção de uma identidade que se vai refazendo ao longo da vida. Acontece que tendemos a levá-las longe de mais. Eu levo: esqueço-me de como estar sem a labuta mental de rotular, dividir, embalar, como se não pudesse ser segura sem deixar de cartografar o território, e coisas e pessoas não pudessem mudar de categoria (não costumam, mas haja fé). Como se o mundo se desmanchasse se eu não lhe desse ordem.

Quando me visitam as vozes dos sábios realizados que passaram pelo planeta, soprando-me o seu neti-neti circunspecto (“nem isto, nem aquilo”), é impossível ignorar o fascínio das etiquetas fluorescentes e da máquina com um rolo novo já pronta a imprimir: de um lado, os iluminados; do outro, os remediados!

 

(A propósito de compulsões, aqui fica a torrente poética inspiradora de um obsessivo-compulsivo:)

14
Fev24

Quanto mais me bates

Sónia Quental

NOTA: Publiquei este texto em 2021 num blogue anterior. Republico-o aqui, após breve revisão, por conta da efeméride, com a recomendação de leitura do ensaio "Um amor de valentão" em A Vida na Sarjeta, de Theodore Dalrymple.

 

Só um amor frouxo é compatível com uma vivência pequena em que amar se torna um ato de modéstia.

 Montse Barderi

  

           

Ei-la com os olhos marejados, a coxa pisada, um relato aparatoso metendo polícia e a vergonha da credulidade com que acabara vítima de violência doméstica, depois de várias relações falhadas que a encheram de um temor que impunha distância. Entre a indignação e a dor, contava agora hesitante como durante o dia ainda lhe tinha ido comprar carne ao talho para deixar no apartamento que o pobre continuava a ocupar (o dela), porque não tinha onde ficar. Enquanto ela passava a noite no salão de cabeleireiro onde trabalhava, à espera de vaga na própria casa.

Pensei que fosse o fim da novela, que a vocação criminosa e as ações deletérias do indivíduo em causa fossem agora inquestionáveis até para quem se deslumbra com diamantes em bruto, que se afoita a lapidar. Um “amor” de mulher que se torna mãe, fazendo jus aos sacrifícios da incondicionalidade, que dá sem esperar pelo troco.

O ar de durona ferida com que narrava o seu epílogo e pedia segredo deu lugar, poucos dias depois, a publicações nas redes sociais em que se juntava ao coro de quem condena “julgamentos”, suplicando para o coitado empatia e amor. A dissonância cognitiva, assim preparada, instalou-se em pleno com a fotografia de Natal de uma família feliz em que o rosto do agressor ocupava, sorridente, o primeiro plano, desobrigando desde logo a minha consciência de silêncios prometidos e conivências para com quem assim traía a própria dignidade e me fazia também a mim sentir enganada. 

Grafíti com burca (5).jpg

O caso está longe de ser raro. Nem todas as formas de abuso são físicas, mas a variante psicológica é flagrantemente comum, tal como a cumplicidade que a vítima cede ao ofensor. Há um vínculo mórbido de lealdade que leva o objeto de abuso a encobrir e proteger o seu perpetrador, com quem se une contra quem quer que tente um apelo à razão.

Se o papel de “vítima” não tem género, falando desta vez de mulheres, estas são aquelas a quem Robin Norwood, na sua obra homónima, chama “mulheres que amam de mais”, cumprindo-me dizer que a descrição pertence ao foro da doença. Não se trata de pureza de sentimento, bondade nem abnegação sadia: o que nos faz correr atrás de quem nos maltrata ou faz do amor uma experiência de penitência, em que se é submetido a um jejum e privação constantes, é tudo menos amor.

Há cautelas a empregar quando se conclui pela inocência das “vítimas” que, numa relação parasítica e destrutiva, recebem também o seu alimento. Há uma gratificação subtil no papel do codependente, sofredor involuntário que não deixa de eternizar o próprio drama, mesmo correndo o risco de acabar em tragédia: o tango dança-se a dois. Não é que peça que lhe batam, mas é isso que se vê merecer e foi o hábito que criou - hábito não isento de provocações astutas. Até que a compulsão ganha vida própria e dá azo ao prazer masoquista da vida na iminência do perigo.

É preciso mais do que consciencializar e decidir para nos desenredarmos do ciclo do abuso: são muitas tomadas de decisão, um caminho de tentativa e erro em que se cai demasiadas vezes para o lado do erro, ao ponto de achar que na nossa história aquele é o único enredo. Os instintos ficam desregulados, vive-se no avesso das relações: fechamo-nos em copas para quem nos quer bem e damos alvarás a quem não tem esse bem em conta, com uma couraça que tenta esconder um coração estuprado, que escancara portas só para quem vem de assalto. A esse nos convencemos a entregar joias, contrato, domicílio permanente. No fim de contas, é a sensação familiar que nos moldou: quanto mais me bates, mais gosto de ti.

 

Fotografia: 2023 © Francisco Amaral – Todos os direitos reservados

11
Fev24

Pós-nupcial

Sónia Quental

Atrevo-me a dizer que sou a cliente ideal das livrarias. Não dou trabalho, arrumo os livros fora de sítio, sou de namoros longos e consumações súbitas. Quando avisto alienígenas de máscara, fico com vontade de lhes pegar na mão e fazer festas na cabeça, como nunca quis a animais ou crianças. Só os destituídos me inspiram o instinto maternal. Sou toda cuidados, sabendo que não posso aproximar-me demasiado nem fazer movimentos bruscos, porque os potros estão sempre a ponto de saltar. Não é domesticá-los que quero – já se vê que o são. É dar-lhes refúgio como a mim dão os livros por estarem ali.

Foram sempre eles a acalmar-me. Forravam-me as noites no primeiro ano de ensino. Só o seu peso na cama me serenava o sistema nervoso, que sabia que eu não devia estar ali. Talvez devesse ter percebido pelo cemitério ao lado da casa onde arrendava quarto, por onde passava todos os dias a pé. O mundo é um livro aberto para quem sabe ler, mas eu estava ainda a aprender.

Parede castanha (Afurada) (13).jpg

Era de longa data o meu caso amoroso com os livros, embora só naquele ano dividíssemos lençóis como manda o costume. Quando acordava, ainda lá estavam, sem as urgências dos amantes intermitentes. É a fidelidade que lhes devo que ainda me leva, cumpridora, às livrarias, mesmo que o amor já não tenha a sofreguidão da verdura. Depois de perceber que a Verdade estava numa prateleira mais alta, mas menos altaneira do que a mente, entrámos num relacionamento à distância, primos afastados em vez de consortes.

Endireito-os enquanto os funcionários se ocupam a fazer vénias a quem chega. Cavaqueamos mais em silêncio, lembrando tempos antigos. Se há algum que reluz com a promessa de raras vertigens, trago-o comigo. Mas procuro principalmente os volumes intangíveis, que não têm palavras que lhes deem forma, esses com o mesmo poder de despertar que os que me adormeciam outrora. Quando preciso de libertar a tensão, procuro as livrarias de papel, faço-me útil, deixo o corpo ir.

 

Fotografia: 2023 © Francisco Amaral – Todos os direitos reservados

 

08
Fev24

De quatro folhas

Sónia Quental

           

Acredito nos amores à primeira leitura como nos amores e desamores à primeira vista. Infalíveis, uns e outros, ao olhar aguçado da experiência, à intuição que nas mulheres apura o passar do tempo, quando chegam a descobrir que não é cego o amor, mas vê bem ao longe.

Como a poesia de Adélia Prado, amei à primeira leitura o talhe dos versos de Amalia Bautista, que me persuadiram a comprar-lhe o Trevo. Não sendo feminista, há um sentir do feminino ao mesmo tempo selvagem e delicado que esparsamente me chama ao seu resgate. Estes vultos na poesia, outros na pintura e nas coisas do espírito, cativam-me pela violência simples e crua da emoção a caminho da transfiguração, de um corpo devocional do feminino com uma fisiologia distinta em cada uma delas, oscilando entre a adoração e o esconjuro.

Num mundo dominado por pretensões de racionalismo, lembram-nos que é no escuro que caminha a mulher, que por lá a leva uma fome primordial que resiste a planos, estratégias, à mais residual tentativa de controlo. Para apaziguar essa fome, há o ato de um canibalismo amoroso que não procura desculpas, e do comer que é castigo, a fome acirrada de uma presa antiga, mantida a pão e água, como Amalia Bautista no seu “Em dieta”:

Deitei-me sem jantar e nessa noite

sonhei que te comia o coração.

Deveria ser por causa da fome.

Enquanto eu devorava aquela fruta,

que era doce e amarga ao mesmo tempo,

tu beijavas-me com os lábios frios,

mais frios e mais pálidos do que nunca.

Deveria ser por causa da morte.

 

           Acudiu-me por estas linhas a lembrança de um colega que, quando foi promovido a diretor, se propôs o desafio de ver quantas mulheres conseguia fazer chorar no gabinete. Eu também chorei uma vez, tenho as lágrimas como preciosas e atirei-lhas quais pérolas de Virgem contrariada, que ele não saberia apreçar, apesar da cobiça que tinha por elas. Lágrimas que uns querem ganhar, erguer como troféus e a outros espantam.

Há-os como ele, que não sabem que é com as lágrimas que a mulher se regenera e segura o mal à distância: “(…) há algo na pureza das lágrimas verdadeiras que anula o poder do demónio”, diz Clarissa Pinkola Estés no seu formidável Mulheres que Correm com os Lobos.

Depois da minha oferta, fiz o que outras não fizeram: juntei o resto das lágrimas e vim embora. Ainda são elas que me salvam quando fico sem jantar e me apetecem os corações que um dia me deixaram à míngua.

 

Amalia Bautista.jpg

 

02
Fev24

Nostalgia

Sónia Quental

Este texto começa e acaba com a toada de uma música dos Smiths, nascidos no mesmo ano que eu: “There is a light that never goes out”, com uma letra que exprime a mesma ânsia do regresso a casa que começa por afastar. Os tons da melancolia e da nostalgia habitam caracteristicamente a música dos Smiths, que encaixa em ambientes e horas de penumbra, despertando dores adormecidas.

Apesar do travo agridoce deixado por ela, o filósofo espiritual Richard Rose dizia da nostalgia ser uma das nossas emoções primárias, uma janela para a alma ou o instinto de uma perda longínqua (a mesma nostalgia imortal que, para Roger Scruton, a arte digna desse nome tem o poder de evocar, satisfazendo uma fome de essência). Embora duvide que Roger Scruton fosse fã dos Smiths, é essa mensagem que, para mim, transmite a sua música, e este título em particular.

I maintain that nostalgia has something to tell us. We are programmed to indulge in life, but the haunting nostalgia is the subliminal message from another plane.

Richard Rose

 

A viagem faz-se de carro, evocando talvez as viagens eternas da idade em que ainda não se aprendeu a medir o tempo e se reside num devir difuso; é ele que permite a intimidade da deslocação a dois. Mais do que um meio de transporte, é o começo de casa – quem não tem para onde ir já chegou, sobretudo se é o amor que o leva. E, quando se chega a uma casa assim, o que vem a seguir já não importa.

A proverbial luz ao fundo do túnel, aqui literal numa primeira leitura, nem sempre faz tão grande contraste com o desespero que leva à fuga ou ao desamparo de não se ter casa no mundo. A luz continua à mesma distância quando se participa da música e do bulício, quando a vida nos inclui e os êxitos se confirmam. A luz diz: “Ainda não é isso”, continuando a atrair-nos com o acorde da nostalgia, criando uma sensação persistente de insatisfação, sinalizando que apenas uma luz que não se apaga pode ser real. Todas as outras vão e vêm com a passagem dos dias, o subir e descer das marés. A resposta não é necessariamente a inspiração niilista que a música dos Smiths parece sugerir, mas um movimento peregrino em busca do que permanece e nos revela desde sempre inteiros – o halo perdido que buscamos no olhar de Quem nos conheça.

 

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Na Pegada do Silêncio by Sónia Quental is licensed under CC BY-NC-ND 4.0