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Na Pegada do Silêncio

" ‘You are a lover of silence’, he said". H. W. L. Poonja

" ‘You are a lover of silence’, he said". H. W. L. Poonja

Na Pegada do Silêncio

25
Jul24

Estorvos

Sónia Quental

If you think you're the person who is flossing your teeth, you just lost it again; but, if you don't floss your teeth, you lost it too. 

Ram Dass

  

       

         Vou a meio de uma equação complicada que demonstre a inexistência de tempo e espaço, os princípios esotéricos da cura, desmanchando a névoa da realidade milímetro a milímetro, quando o telefone toca a dizer-me que preciso de renovar a conta bancária. Tirar mais uma senha, pôr-me na fila de espera, multiplicar assinaturas enquanto um funcionário pachorrento dá pancadinhas para encorajar o computador. A máquina deita fumo, deitam fumo os que desesperam atrás de mim, eu lanço as minhas baforadas aos quinhentos formulários que me apresentam em duplicado, sacados da cartola sem fundo da impressora, atordoada pelo sorvedouro burocrático de seguros, impostos, as newsletters da segurança social, os percevejos a atacar o colchão, enquanto o mundo arde, o purgatório já não tem espaço para os aflitos e a única coisa que apetece invocar em vão é o santo nome de Kafka, Nostradamus incontroverso do século XXI.

         Enquanto o computador vai extorquindo mimos ao funcionário, debato-me por dentro, sem saber como explicar a mensagem out-of-office enviada como malware dos escritórios de Deus, atormentada pela queda de cabelo que me faz duvidar de que Ele consiga contá-los a todos antes de chegarem ao chão. E a única sarça ardente que me acontece na cabeleira é quando recebo orçamentos sem IVA.

         Sentada de castigo diante de uma criatura engravatada que fala em arabescos indecifráveis, a realidade estorva-me as alturas, atordoa-me ad infinitum. Esforçando-me por manter o semblante imperturbável da Mona Lisa e aproveitar o tempo para preencher mentalmente o livro de reclamações celeste com todas as coisas importantes que tenho para fazer, despertam-me os pés em marradinhas. Não se queixam de muito: querem as cócegas do chão.

The job of the Buddha is simply to pick up the garbage, to do the dishes, to sweep the floor.

Byron Katie

 

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Fotografia: © Francisco Amaral – Todos os direitos reservados

 

NOTA: A próxima publicação será uma "caixa de comentários" com algumas das mensagens que tenho recebido como resposta aos textos, que merecem posição de destaque.

 

21
Jul24

Flechas na escuridão

Sónia Quental

 

Escutar é o oposto das abordagens algorítmicas.

Kate Murphy

 

         Decidi parar e ficar só a ouvir. Não o ouvir costumeiro, que aproveita os momentos em que as mãos se ocupam da lida da casa e das refeições ou me desloco na rua para introduzir os cursos e palestras e exercícios e podcasts, mas um ouvir de total disponibilidade, que me ocupasse inteira, sem olhar ao tempo. Que não me inquietasse com o desperdício de não fazer nada além de ouvir.

         Pensei então pela primeira vez nas vozes que me ajudaram a crescer em consciência, sem imagem a contornar o som que ecoava no escuro: vozes sem câmara, gravadas ao microfone, para um público invisível e desconhecido, vindas de uma solidão que tacteia outras na distância, algumas sem noção da influência que exerciam, quem sabe com os seus momentos de dúvida de que houvesse alguém a ouvir. Foi também para esse balanço que parei, para prestar tributo aos locutores que me fermentaram a maturação e que até aqui tenho deixado para trás nas reflexões, que contemplam mais os rastos da leitura do que da audição.

         As primeiras a encantar-me foram as vozes dos professores apaixonados pela sua área de saber, que transportavam em si a franja de segredo dessa paixão, com vestígios de um prazer excessivo e proibido, e o poder de despertar o interesse por disciplinas que pouco entusiasmavam por si - o poder de mudar destinos. Eram vozes que traziam o corpo agarrado, mas que ocupavam como som o primeiro plano, capazes de fascinar pelo contacto que deixavam adivinhar com uma dimensão não domesticada do saber, de que nem todos são porta-vozes autorizados.

         Depois dessas, na vida de casulo em sociedade ou num peregrinar interior que começou por necessidade e continuou pelo seu vórtice gravitacional, vieram as vozes explicitamente iniciadas no Mistério alimentar-me a alma esfaimada, que se prendeu a elas como ao único leme no horizonte. Durante anos, adormeci e movi-me em vigília ao som das centenas de palestras de Trigueirinho, que pareciam inesgotáveis, mas que um dia se extinguiram mesmo. Depois, vieram outros: Joel S. Goldsmith, Neil Kramer, Vernon Howard, Howdie Mickoski – cada um com o seu timbre, a sua modulação e tónica inconfundíveis. Não eram vozes que interrompessem o silêncio, mas que me levaram ao seu encontro e ensinaram a escutá-lo, a definir a minha própria voz, encontrar as próprias pernas.

         Flechas iluminadas é como as vejo, pontos singulares de sanidade quando o mundo em peso mostrou padecer do contrário e era perigoso o contrabalanço. Acima de tudo, mostraram-me que havia outros como eu, peregrinos do espírito, mesmo que à minha volta fosse só deserto e as raras miragens não convencessem. Às vezes, escrevia o que lhes ouvia, como estas palavras cruas de Neil Kramer, sobre aqueles com quem podemos falar de coisas significativas:

How few people we can turn to in life to share the deepest things within a meaningful way, in person, in our life, in a day by day or week by week basis. I tell you: most people have nobody, absolutely nobody.

 

         Reconhecendo também aqui a comunidade dispersa de peregrinos unida pelo fio de uma voz, deixo nesta pasta, a quem interessar, uma faixa da compilação Audio Cleaver, de Neil Kramer, com o título “The Wider Tribe” (em inglês). Ouve-se no escuro.

 

Num estudo realizado em 2018 e em que foram inquiridos vinte mil americanos, quase metade respondeu que não tinha interações sociais em pessoa com significado, como ter uma conversa extensa com um amigo, diariamente. Uma proporção semelhante afirmou que se sentia só e colocada de parte mesmo quando havia outros por perto. (…) As taxas de suicídio atuais atingiram o valor mais alto dos últimos trinta anos nos Estados Unidos, tendo subido 30% desde 1999. A esperança média de vida americana está agora em declínio devido ao suicídio, ao vício de opioides, ao alcoolismo e a outras doenças apelidadas de doenças de ansiedade e associadas à solidão.

            E isto não ocorre apenas nos Estados Unidos. A solidão é um fenómeno mundial. A Organização Mundial da Saúde relata que durante os últimos quarenta e cinco anos, as taxas de suicídio subiram 60% em termos globais.

Kate Murphy, in O que Perde quando não Está a Ouvir

 

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Fotografia: 2024 © Francisco Amaral – Todos os direitos reservados

 

19
Jul24

O caroço

Sónia Quental

 

But to find what true happiness is, we must be willing to be disturbed, surprised, wrong in our assumptions – and cast into a very deep well of unknowing.

Adyashanti

 

                  

         Admito que a glorificação da autoconfiança sempre me inquietou. À medida que ia atravessando limiares etários, sempre à espera de chegar ao círculo das pessoas que “sabem” (o que se passa, o que andamos aqui a fazer, com respostas conclusivas para as perguntas que importam), descobri que quase ninguém se importa com as perguntas que importam. Passado aquele breve intervalo da adolescência ou a eventual crise de vida que leva a que se interroguem sobre o motivo de estarmos aqui ou sobre o que é a felicidade, ninguém quer saber. E descobri que, de entre aqueles que se importam, ninguém ou quase ninguém sabe nada que valha a pena saber. Ninguém que eu conheça, pelo menos – que esteja num círculo de convívio que transforme a ideia de um tal ser em algo mais próximo do que o mito ou a improbabilidade estatística, dando-lhe os contornos de possibilidade alcançável.

         Admito que os autoconfiantes me pareciam mais capazes de lidar com a vida. A crença acaba por ter o seu poder hipnótico, dá um certo desembaraço e tenacidade que leva à superação de “desafios”, esse eufemismo que, como todos os que se repetem levianamente, se tornou nada menos do que insuportável.

         Admito que sentia uma certa inveja dos autoconfiantes, a quem o sucesso parecia servido numa bandeja que premiava a simples crença na capacidade própria, fosse qual fosse o seu fundamento. “Autoconfiança” é a qualidade que aparece à cabeça da lista de predicados que se procura no sexo oposto. A pessoa autoconfiante inspira automaticamente confiança – pelo menos, à primeira vista. Chegado o momento da revista, admito que comecei a ver o quanto de propaganda havia na autoconfiança e o escandaloso logro que espreitava por baixo. Percebi que quase todos os autoconfiantes estavam enganados quanto às qualidades de que se achavam investidos, embora não se cansassem de as alardear: se as repetissem muito, talvez conseguissem convencer-se, a si e aos outros, e elas se tornassem reais.

         Admito outra coisa: que os autoconfiantes eram pessoas demasiado normais para mim. Com demasiadas certezas, demasiado instaladas na vida (não conseguia evitar o horror a esse “encaixe”). Convencidas de que a autoconfiança e a força de vontade bastam para marcar pontos, subjugar os obstáculos de uma existência empenhada em criar dificuldades, materializando uma meta depois da outra por pura diversão, numa luta de vontades que pedia, além de autoconfiança e pensamento positivo, perseverança.

         Admito que a perseverança me inspira mais simpatia. Saber a que aplicá-la é para mim um “desafio” bem mais valoroso do que cultivar a autoconfiança à força bruta, envergar trajes glamorosos que nada escondem por baixo. Mais do que a polpa, interessa-me o caroço.

 

11
Jul24

Olhar para o teto

Sónia Quental

 

Antes de existirem os ecrãs, olhávamos para o teto. Isto é, já tínhamos um protótipo de ecrã para estabelecer contacto à distância e dizer “Estou a olhar para o teto”. Nesses tempos, ainda não se falava de mindfulness, não sabíamos nada de meditação. O mais que podíamos fazer nas noites de insónia, além de olhar para o teto, era olhar para a lua ou tentar adivinhar que música ia passar na rádio, numa altura em que ainda não tínhamos sido expropriados dos poderes telepáticos, que funcionavam com uma eficácia acima da média – um indício de que talvez pudéssemos vergar o futuro, embora o presente fosse mais difícil de deslocar.

A ideia de uma tão grande tela em branco, como o teto ou o futuro, assustava o nosso despreparo, mas merecia ser contemplada, não fosse apanhar-nos de surpresa enquanto fazíamos de conta que a vida era sempre em frente e que bastava acertar num curso com saída para se apanhar a via rápida. Literatura, filosofia, teologia, artes não faziam parte da lista.

A nossa era uma terra pequena – nós habituados a caminhar carregando orbes debaixo do sol. Conhecíamos os caminhos difíceis, embora não tão difíceis quanto os das gerações anteriores, que faziam questão de nos lembrar os seus pés descalços na neve e o leite que vinha da ordenha quando eram magras as vacas. Ainda havia férias grandes, momentos parados em que a vida nos obrigava a pensar nela, a procurar palavras que captassem as nuances de uma angústia existencial em que alguns ficaram a morar para sempre: presos no teto, onde ainda flutuam.

Iniciados na poesia, era incompreensível a pressão e a expetativa de quem nos queria ver simplesmente funcionais na sociedade, sem destoar demasiado, a não ser pelo lustro ou um lugar de influência. O sustento assegurado. Tanto martelaram que houve quem encaixasse por fora, mas ficasse perdido por dentro, eterno Peter Pan que não encontra saída da Terra do Nunca.

Olhando hoje ao redor, com a escalada da violência e a fragilidade quebradiça da saúde mental, oferecem-se-me duas explicações: é de quem nunca olhou para o teto ou nunca saiu de lá, rodopiando à toa na Terra do Nunca, os olhos fechados em caixão de vidro. Um beijo que nunca chega de fora.

 

03
Jul24

Cupão nosso

Sónia Quental

           

Produtos, serviços e aplicações marcham ao ritmo do tambor do inevitável, rumo à promessa das receitas de vigilância sonegadas aos espaços ainda selvagens que designamos por ‘a minha realidade’, ‘o meu lar’, ‘a minha vida’ e ‘o meu corpo’.

 

Shoshana Zuboff

 

 

Resisti até onde pude aos cupões e às apps que em toda a parte somos aliciados ou intimados a instalar no telemóvel. Afogado em impostos, o Português vive para os descontos, a validar e-faturas na internet, na esperança de ser um dos felizes contemplados no sorteio da Fatura da Sorte, e a colecionar cupões de supermercado e combustível. Agora, são as campanhas renovadas das lojas online, que nos acenam com descontos perpétuos, já não limitados às épocas de saldos, e embustes descarados, que não perdoam a quem não lê as letras miudinhas e se deixa ofuscar pelas imagens (como eu, que quis encomendar um jogo de lençóis e recebi UM lençol, como se fosse dormir enrolada nele, qual mortalha florida).

Não faltando motivos de distração, contar cupões é mais um, com um peso a não menosprezar, atiçando com a sugestão de um ganho, por mais pequeno que seja, o nosso instinto de sobrevivência e vaidade. O tempo, a energia e a atenção que a atividade consome não são perdas sujeitas a balanço. Por outro lado, as vantagens de termos todo um historial de compras gravado numa app, que é preciso instalar se queremos beneficiar de descontos exclusivos, esconde uma sombra que o ingénuo não aceita ver enquanto a ameaça não se tornar esmagadora e impossível de repudiar. O termo “grátis” é o “Abre-te, Sésamo” que lhe faz brilhar nos olhos a gula incontida, tal como a autoimportância, alimentada pelas promessas de relevância e personalização.

À distração amena criada pelos cupões vem juntar-se a utilidade, para os proprietários, da extração de dados dos utilizadores das apps. Cercados por câmaras no mundo físico e com as nossas atividades diárias cada vez mais rastreadas, decantadas e espremidas no virtual, o lucro comercial é apenas o objetivo mais imediato das marcas, que são as primeiras a beneficiar das novas formas de vigilância que a tecnologia põe ao seu dispor. A previsão, o controlo e a manipulação comportamental são a derradeira meta deste assalto gradual, que nem sentimos, de tão manso que é. Agradavelmente persuadidos a abdicar de uma autonomia e liberdade que nunca chegámos a conquistar, são sempre estas que estamos dispostos a entregar em troca de pontos ou de meia dúzia de patacos, quando não da ilusão de segurança. A isto nos conduziu o livre-arbítrio, fonte de orgulho dos donos de opiniões, que trabalham para engordar os aglomerados de dados que fazem os mosaicos da estatística do Big Data, parente do Big Brother.

Quando me lembro da estátua O Pensador, de Rodin, tão distante dos reflexos desta modernidade, inclino-me a achar que o indivíduo esculpido está a tentar decidir que cupão vai usar primeiro ou que aplicação vai apagar do telemóvel, porque já não tem espaço para mais. Não são tarefas pequenas.

 

Mercado de Amarante (21.06.2024) (12) - BOA.jpeg

A pensar nos cupões (versão femme)

 

2024 © Francisco Amaral – Todos os direitos reservados

 

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