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Na Pegada do Silêncio

" ‘You are a lover of silence’, he said". H. W. L. Poonja

" ‘You are a lover of silence’, he said". H. W. L. Poonja

Na Pegada do Silêncio

21
Ago25

Bom demais para ser verdade

Sónia Quental

         Em tempos de meninice, diziam-me para pensar em coisas boas quando não conseguia dormir. Agora, acabo de apagar um e-mail que me diz para desconfiar se a oferta parecer boa demais para ser verdade, de uma instituição que tenta pegar-me o mesmo cinismo com que tratou a intervenção que lhe pedi num caso de fraude. Aparentemente, há uma medida para o bom que pode acontecer-nos – não admira que pense assim quem vive da prática da extorsão legalizada e pertence ao mesmo clube dos bandidos que se movem na sombra, como acontece com as entidades bancárias.

         Não se cansam de nos tentar dizer qual é o nosso lugar, ao que podemos aspirar e de nos confiar ao caixão seguro do que é moderadamente bom. Com o que está acima só podemos sonhar, mas de olhos muito abertos e sem êxtases que descambem na levitação. O sonho parece atividade que não se transporta para o mundo concreto, um consolo da sensatez cinzenta a que temos de nos resignar. É assim que nos mantêm na linha, de cabeça baixa, desconfiando de todos exceto de quem nos aconselha por bem.

         Nunca fui muito de sonhos, exceto dos involuntários, quando a mente consciente faz a sua pausa noturna. A improbabilidade das coisas boas não as tornava convidativas ao pensamento e eu não queria levá-las para o terreno do impalpável. Sempre preferi o caminho angustiante da verdade. Mas, apesar das doses de cinismo e das más intenções que a experiência torna cada vez mais fácil ler na transparência dos rostos, ainda não acho que haja limites para o que é bom nem que o maravilhoso esteja confinado ao éter do sonho. Se suportarmos a agonia, descobrimos que a verdade e o bom não andam afastados. Nem moram longe do belo.

16
Ago25

Paredes do absurdo

Sónia Quental

         Receber uma encomenda da UPS é como tentar sair de uma escape room em que se choca a cada passo com as paredes do absurdo. Já lá vão os tempos em que eram os estafetas que nos entregavam as encomendas: agora somos nós que temos de nos estafar atrás de umas e de outros, e de pedir por favor para nos entregarem o pacote.

         Com uma malícia refinada, acenam-nos com ele à distância, sem que ela jamais encurte, por mais que estendamos os braços, façamos acrobacias e nos ponhamos a jeito. Entre o atendimento ao cliente, protocolos, políticas e meios de reclamação, o que aumenta não é a eficácia, mas o novelo da desonestidade. Basta um clique inocente num site para no dia seguinte se acordar dentro de um enredo kafkiano capaz de fazer inveja a qualquer autor de ficção.

         Desde notificações de tentativas de entrega que nunca aconteceram e que visam justificar o depósito das encomendas em Pontos de Acesso, até aos ditos pontos de recolha que estão fechados para férias, redundando na decisão sumária de devolver a carga ao remetente, não há fim para uma odisseia que vive do seu despropósito, mudando apenas de cenário e personagens, para ter o seu recomeço no país de expedição.

       Com a nota do ambiente e da sustentabilidade a dar o tom à apresentação da transportadora online, a verdadeira missão calha ser o oposto, dado que a intrincada trajetória de encomendas que podiam ser fácil e diretamente entregues aos destinatários não espelha qualquer compromisso com a sustentabilidade. Aparentemente, a UPS entrega “o que importa” para fazer o mundo andar para a frente, concluindo-se da declaração e da prática que o que considera não importar anda a dar a volta ao globo. O “impacto” social gerado é fácil de ver: a ira dos clientes quando se confrontam com mais uma empresa que, nas suas pretensões de “governança ética”, faz deles peões no tabuleiro desgovernado do nonsense.

Vestido azul contra parede laranja (6).jpg

Fotografia: 2022 © Francisco Amaral – Todos os direitos reservados

 

11
Ago25

Empatia

Sónia Quental

         “Pregar a empatia e pô-la à frente de todas as coisas”. O Toni repetia mentalmente o mandamento gravado a letras douradas na sala da Empatia do Centro de Bem-Estar Integral, um espaço seguro com paredes blindadas, que sugeria o paradoxo de uma solenidade meiga.

       Cabia-lhe certificar-se de que havia caixas de lenços de papel e bolachinhas de manteiga em abundância para reconfortar as almas que ali vinham em busca de alento. Diziam as más-línguas que a afluência crescente se devia meramente às famosas bolachas, as únicas em que ainda era permitido ceder ao capricho do açúcar branco, mas as intrigas faziam parte dos pertences a deixar à entrada, com os sapatos e a perfídia dos julgamentos pessoais.

         O Toni chegou cedo. Apesar de veterano nas reuniões de quinta-feira, era a primeira vez que participava depois de certificado na Amizade pelo próprio Centro que o alistara. Nessa noite, teria o privilégio de ser um dos quatro Amigos a sentar-se na roda, segurando a mão dos convalescentes para ajudar a elevar a corrente energética coletiva. No fim de contas, o Império da Simpatia seria manco sem a Empatia, o outro pilar que estes mosqueteiros eram chamados a defender com fervor pátrio.

        Os procedimentos eram conhecidos de todos: antes do início da reunião, os presentes ensaiavam as interjeições de empatia em coro, que seriam repetidas depois da partilha de quem se oferecesse para desabafar sobre a miséria e as atrocidades do mundo. A ameaça da tristeza era levada a sério, e esse o motivo por que apenas os Amigos dos escalões superiores eram chamados a sustentar a corrente de uma solidariedade positiva, atentos a qualquer nuvem de violência ou ódio que ameaçasse formar-se.

         Eram pessoalmente responsáveis por garantir que ninguém saísse dali enervado ou desiludido com o estado do mundo, o que de resto seria impensável no Império da Simpatia – a grande Reforma já tinha acontecido, e tudo o que sobrara da agrura de tempos passados eram a síndrome do membro-fantasma e a alucinação de uns poucos, confiados ao ambiente terapêutico daqueles espaços seguros. Era da praxe terminar as reuniões com uma troca de abraços, acentuando o conforto das bolachinhas e imprimindo nas mentes a convicção de que as pessoas eram, afinal, boas e simpáticas: a empatia tudo curava.

         “Para quê a sabedoria, quando temos a empatia?” era o tópico da preleção daquela noite, orientada por um dos Amigos mais experientes e outro dos motivos do nervosismo do Toni, que ambicionava tomar o seu lugar num futuro não muito distante.

A adesão pública ao clichê moral torna-se a marca de um bom homem e de uma boa mulher.

Theodore Dalrymple

 

07
Ago25

Cabeçudos

Sónia Quental

Como os cabeçudos no Carnaval, o Homem é um ser de cabeça inchada, de pasta de papel, que desfila pavoneando as suas deformidades. O que se entende por “pessoa” não é mais do que um agregado psíquico, uma grande forma-pensamento antropomorfizada, convicta da sua originalidade inimitável e do valor sacrossanto das opiniões que a enfeitam.

Entretanto, o veio do Coração, a substância impermeável a sentimentalismos e ao molde do que passa por sentimento bom, propriedade das pessoas de bem, não é conhecido.

Colonizado o cume, a passagem para o País das Maravilhas continua fechada. Para que a cabeça caiba, é preciso desinchar.

 

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