Focar ou desfocar
O importante não é o foco mental, mas onde ele é aplicado.
A maioria não padece de falta de foco – antes falta de direção.
Imagem: baralho Morgan Greer
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O importante não é o foco mental, mas onde ele é aplicado.
A maioria não padece de falta de foco – antes falta de direção.
Imagem: baralho Morgan Greer
Em tempos de meninice, diziam-me para pensar em coisas boas quando não conseguia dormir. Agora, acabo de apagar um e-mail que me diz para desconfiar se a oferta parecer boa demais para ser verdade, de uma instituição que tenta pegar-me o mesmo cinismo com que tratou a intervenção que lhe pedi num caso de fraude. Aparentemente, há uma medida para o bom que pode acontecer-nos – não admira que pense assim quem vive da prática da extorsão legalizada e pertence ao mesmo clube dos bandidos que se movem na sombra, como acontece com as entidades bancárias.
Não se cansam de nos tentar dizer qual é o nosso lugar, ao que podemos aspirar e de nos confiar ao caixão seguro do que é moderadamente bom. Com o que está acima só podemos sonhar, mas de olhos muito abertos e sem êxtases que descambem na levitação. O sonho parece atividade que não se transporta para o mundo concreto, um consolo da sensatez cinzenta a que temos de nos resignar. É assim que nos mantêm na linha, de cabeça baixa, desconfiando de todos exceto de quem nos aconselha por bem.
Nunca fui muito de sonhos, exceto dos involuntários, quando a mente consciente faz a sua pausa noturna. A improbabilidade das coisas boas não as tornava convidativas ao pensamento e eu não queria levá-las para o terreno do impalpável. Sempre preferi o caminho angustiante da verdade. Mas, apesar das doses de cinismo e das más intenções que a experiência torna cada vez mais fácil ler na transparência dos rostos, ainda não acho que haja limites para o que é bom nem que o maravilhoso esteja confinado ao éter do sonho. Se suportarmos a agonia, descobrimos que a verdade e o bom não andam afastados. Nem moram longe do belo.
Receber uma encomenda da UPS é como tentar sair de uma escape room em que se choca a cada passo com as paredes do absurdo. Já lá vão os tempos em que eram os estafetas que nos entregavam as encomendas: agora somos nós que temos de nos estafar atrás de umas e de outros, e de pedir por favor para nos entregarem o pacote.
Com uma malícia refinada, acenam-nos com ele à distância, sem que ela jamais encurte, por mais que estendamos os braços, façamos acrobacias e nos ponhamos a jeito. Entre o atendimento ao cliente, protocolos, políticas e meios de reclamação, o que aumenta não é a eficácia, mas o novelo da desonestidade. Basta um clique inocente num site para no dia seguinte se acordar dentro de um enredo kafkiano capaz de fazer inveja a qualquer autor de ficção.
Desde notificações de tentativas de entrega que nunca aconteceram e que visam justificar o depósito das encomendas em Pontos de Acesso, até aos ditos pontos de recolha que estão fechados para férias, redundando na decisão sumária de devolver a carga ao remetente, não há fim para uma odisseia que vive do seu despropósito, mudando apenas de cenário e personagens, para ter o seu recomeço no país de expedição.
Com a nota do ambiente e da sustentabilidade a dar o tom à apresentação da transportadora online, a verdadeira missão calha ser o oposto, dado que a intrincada trajetória de encomendas que podiam ser fácil e diretamente entregues aos destinatários não espelha qualquer compromisso com a sustentabilidade. Aparentemente, a UPS entrega “o que importa” para fazer o mundo andar para a frente, concluindo-se da declaração e da prática que o que considera não importar anda a dar a volta ao globo. O “impacto” social gerado é fácil de ver: a ira dos clientes quando se confrontam com mais uma empresa que, nas suas pretensões de “governança ética”, faz deles peões no tabuleiro desgovernado do nonsense.

Fotografia: 2022 © Francisco Amaral – Todos os direitos reservados
“Pregar a empatia e pô-la à frente de todas as coisas”. O Toni repetia mentalmente o mandamento gravado a letras douradas na sala da Empatia do Centro de Bem-Estar Integral, um espaço seguro com paredes blindadas, que sugeria o paradoxo de uma solenidade meiga.
Cabia-lhe certificar-se de que havia caixas de lenços de papel e bolachinhas de manteiga em abundância para reconfortar as almas que ali vinham em busca de alento. Diziam as más-línguas que a afluência crescente se devia meramente às famosas bolachas, as únicas em que ainda era permitido ceder ao capricho do açúcar branco, mas as intrigas faziam parte dos pertences a deixar à entrada, com os sapatos e a perfídia dos julgamentos pessoais.
O Toni chegou cedo. Apesar de veterano nas reuniões de quinta-feira, era a primeira vez que participava depois de certificado na Amizade pelo próprio Centro que o alistara. Nessa noite, teria o privilégio de ser um dos quatro Amigos a sentar-se na roda, segurando a mão dos convalescentes para ajudar a elevar a corrente energética coletiva. No fim de contas, o Império da Simpatia seria manco sem a Empatia, o outro pilar que estes mosqueteiros eram chamados a defender com fervor pátrio.
Os procedimentos eram conhecidos de todos: antes do início da reunião, os presentes ensaiavam as interjeições de empatia em coro, que seriam repetidas depois da partilha de quem se oferecesse para desabafar sobre a miséria e as atrocidades do mundo. A ameaça da tristeza era levada a sério, e esse o motivo por que apenas os Amigos dos escalões superiores eram chamados a sustentar a corrente de uma solidariedade positiva, atentos a qualquer nuvem de violência ou ódio que ameaçasse formar-se.
Eram pessoalmente responsáveis por garantir que ninguém saísse dali enervado ou desiludido com o estado do mundo, o que de resto seria impensável no Império da Simpatia – a grande Reforma já tinha acontecido, e tudo o que sobrara da agrura de tempos passados eram a síndrome do membro-fantasma e a alucinação de uns poucos, confiados ao ambiente terapêutico daqueles espaços seguros. Era da praxe terminar as reuniões com uma troca de abraços, acentuando o conforto das bolachinhas e imprimindo nas mentes a convicção de que as pessoas eram, afinal, boas e simpáticas: a empatia tudo curava.
“Para quê a sabedoria, quando temos a empatia?” era o tópico da preleção daquela noite, orientada por um dos Amigos mais experientes e outro dos motivos do nervosismo do Toni, que ambicionava tomar o seu lugar num futuro não muito distante.
A adesão pública ao clichê moral torna-se a marca de um bom homem e de uma boa mulher.
Theodore Dalrymple
Como os cabeçudos no Carnaval, o Homem é um ser de cabeça inchada, de pasta de papel, que desfila pavoneando as suas deformidades. O que se entende por “pessoa” não é mais do que um agregado psíquico, uma grande forma-pensamento antropomorfizada, convicta da sua originalidade inimitável e do valor sacrossanto das opiniões que a enfeitam.
Entretanto, o veio do Coração, a substância impermeável a sentimentalismos e ao molde do que passa por sentimento bom, propriedade das pessoas de bem, não é conhecido.
Colonizado o cume, a passagem para o País das Maravilhas continua fechada. Para que a cabeça caiba, é preciso desinchar.
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