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Na Pegada do Silêncio

" ‘You are a lover of silence’, he said". H. W. L. Poonja

" ‘You are a lover of silence’, he said". H. W. L. Poonja

Na Pegada do Silêncio

30
Nov25

Haja estômago

Sónia Quental

         

         Matutava no pimento vermelho enquanto fazia o almoço. Tirar a casca ou não tirar. Uma das coisas que aprendi num curso de cozinha, na altura em que era vegetariana, é que a pele das Solanáceas é tóxica e deve ser removida. Basta dizer que o tomate está incluído na categoria para se perceber o trabalho que dá seguir uma única regra da alimentação “saudável”. Nem precisamos de entrar na ciência dos óleos para o refogado.

         Apesar do contrassenso de uma receita de arroz ancestral abarcar a finura do pimento sem pele, segui-a fielmente durante muito tempo, como se a professora me espreitasse por cima do ombro enquanto cozinhava. Até que comecei a pensar em todo o tempo consumido em nome do conforto hipotético do sistema digestivo. E agora cometo o crime de deixar o pimento com pele e de voltar a comer o tomate vestido, sem ninguém saber.

         Não é que tenha encontrado um regime melhor. É que, na vida, seja nas operações culinárias ou noutra coisa qualquer, é preciso estar sempre a escolher com o que gastamos a energia e o tempo: com o quê, com quem, em que medida, até quando. Idealmente, o processo deve tornar-se em parte automático para as atividades que se repetem no dia a dia, porque cada nova tomada de decisão tem o seu gasto energético.

         Foi a mesma constatação que me fez abandonar o vegetarianismo, depois de anos dedicados à causa, na época em que ainda não estava na moda. Era demasiada energia a pensar na alimentação. Quando vejo nas redes sociais publicações da minha antiga professora de cozinha, prometendo salvar-me o fígado por alguns milhares de euros, confirmo-me renegada. O espírito messiânico dos novos health coaches assusta-me tanto quanto o dos catequistas da política, da religião e da ciência. Haja estômago que aguente.

 

21
Nov25

"Sleepwear"

Sónia Quental

Captura de ecrã 2025-11-21 203124.png

O assunto de hoje nasce de uma perplexidade que não me tem dado descanso e que considero merecer o devido escrutínio: os pijamas para mulher. Por algum motivo que ainda não consegui apurar, a maioria dos pijamas para adultas divide-se em duas categorias: a da lingerie ou dos pijamas sexy, demasiado arejados e que não foram feitos para casas sem aquecimento, e a categoria dos pijamas com personagens de BD, ursinhos e outros animais fofos.

          A escolha é, pois, entre uma sensualidade pouco prática e confortável e a infantilidade declarada, com as poucas exceções caindo no feio e no sem graça. O estranho é que muitas marcas daquilo a que agora se chama sleepwear trazem na etiqueta nomes de mulheres, que também suponho vistam pijama, daí achar pouco compreensível a condição a que reduzam o sexo feminino como um todo, condenado a ir para a cama à noite com as ovelhinhas estampadas na camisola.

         O contraste torna-se ainda mais absurdo quando, numa estimativa livre, calculo que neste momento cerca de 90% das mulheres sejam tatuadas. Qualquer que seja a figura gravada na pele e a sua dimensão, confesso que tenho dificuldade em imaginar uma mulher tatuada com um pijama da Hello Kitty ou do Bambi. E que conversa séria seria possível ter com alguém envergando bigodes de bichinhos macios? Basta dizer que nem eu consigo levar-me a sério quando vejo o focinho do Snoopy a acenar-me ao espelho.

         Será que o sono nos torna de novo crianças, mas apenas as mulheres estão sujeitas ao fenómeno? E de onde vem a teima em resgatar os animais da quinta e os bonecos da meninice para nos aconchegarem no escuro?... Por aqui, o aconchego perde-se nas dúvidas existenciais despertadas por semelhante companhia, que conduzem a insónia para assuntos desta importância, em vez de a justificarem com destinos mais graves.

 

Imagem: baralho Rider Waite

15
Nov25

Brincadeirinha seguidista

Sónia Quental

Um olho a espreitar.jpg

Uma mulher que faz um vídeo para o TikTok tem de se maquilhar enquanto fala. Como todas o fazem, presumo que seja política do canal. Para não continuar a remar contra as tendências, o que pede certa força de braços, façamos de conta que isto é um vídeo do TikTok e que estou a aplicar a base enquanto partilho a minha indignação com o mundo.

Desta vez, e ironicamente, a indignação é sobre o seguidismo destes canais – em concreto, sobre os criadores do Instagram que pedem ao público para comentar as publicações com uma determinada palavra ou para enviar essa palavra por mensagem a fim de manifestar interesse num curso ou receber um qualquer bónus. (Caso não tenham reparado, este é o momento em que aplico o corretor, passando a esponja ao de leve na zona do contorno de olhos.)

         Como se já não bastasse a cambada de gente a pedinchar um “gosto” nos vídeos, um comentário ou a suplicar aos visitantes para subscreverem o canal e as notificações, agora o público tem de comentar de uma maneira específica, deixando uma senha cúmplice que formaliza a sua pertença à comunidade e que é como um high five trocado com o autor. (Agora, é a vez do pó solto e do iluminador.)

         Tenho encontrado também um número surpreendente de seres que dizem andar à procura de paz ou querer proteger a sua paz. Não sabia que havia tantos peregrinos em paz nem preocupados em alcançar e isolar esse estado de bem-aventurança. Estava mais habituada a ouvir as pessoas pedirem paz para o mundo, o fim das guerras e coisas assim, mas devemos ter dado o salto quântico para uma paz que é como um sinal de “Não incomodar” pendurado na porta do quarto. As pessoas não querem ser perturbadas. Não sei se a Vida faz caso da sinalética e pede licença antes de entrar, mas pelo menos fica registado que o ocupante é pela paz, o que o absolve de qualquer falta logo à partida. (Ainda não tenho traquejo suficiente com as pestanas postiças, por isso preciso de parar de falar durante alguns segundos neste ponto.)

         Por manifesta falta de experiência, parece que não tenho conversa para a maquilhagem toda, por isso vou desligar a câmara enquanto termino, não sem pedir um comentário com uma palavrinha só nossa: obviamente, “paz”. Restam ainda alguns pacotes promocionais durante a semana da Black Friday, que oferecem mais paz por menos dinheiro. Limitada ao stock existente.

 

Fotografia: 2021 © Francisco Amaral – Todos os direitos reservados

10
Nov25

A língua também tem "dress code"

Sónia Quental

 

         Mesmo dependendo em grande medida da imagem e do discurso falado, as publicações em redes sociais, blogues e páginas pessoais online, tal como os negócios com montra virtual, não prescindem da palavra escrita. No entanto, se muitos autores e empreendedores capricham na imagem com que se apresentam ao público, no design e na fotografia dos produtos ou serviços que vendem, parece ter-se vulgarizado a ideia de que escrever com erros ortográficos e sintáticos é um pormenor de importância secundária – havendo mesmo copywriters a defender que o erro dá autenticidade à mensagem e faz mais para incentivar à compra do que um texto cuidado. De uma coisa não duvido: inspira camaradagem.

         Acrescento a estes exemplos a facilidade que hoje existe em qualquer um se proclamar autor, autopublicando-se em formato de livro, como se o livro, em suporte físico ou digital, não fosse mais do que um amontoado de páginas, com um título, índice e texto impresso, sem qualquer relação com a qualidade do conteúdo. Frases como “Estou a escrever um livro” passaram de inspirar respeito a semear uma reserva legítima, até culminarem no encolher de ombros do puro ridículo, que sobra para os que praticam o ofício com seriedade.

         A escrita automática que em tempos os surrealistas utilizavam para desbloquear o fluxo espontâneo de ideias é a técnica preferida daqueles que acham que, para serem escritores, só precisam de escrever. É assim que a mesma espontaneidade com que falam é desviada para a escrita a jato, publicada sem revisão – do próprio ou de alguém competente –, que se torna ainda menos desculpável tendo em conta a abundância de dicionários e ferramentas de escrita disponíveis na internet.

         O resultado é um insulto aos leitores ou ao público com formação que se pretende seduzir através da confiança no mérito autoproclamado e quase sempre imaginário. A língua também tem dress code. E, se esta é matéria que se presta a amplo debate, no que se refere a preferências vocabulares, estilo e grau de formalidade quando os textos se destinam a consumo imediato nos meios digitais, a preocupação com o dress code não pode faltar nem passar por cima do aprumo gramatical.

         Além da falta de consideração que mostram por quem lê, os erros de escrita instalam a dúvida sobre a qualidade do conteúdo ou a competência do autor, mesmo que num campo distanciado do da língua. É difícil compreender o orgulho com que muitos ostentam as nódoas na camisa – que os músculos definidos, no caso dos homens, ou as pestanas e unhas postiças, no caso das mulheres, não chegam para compensar. Mais ganhariam se, em vez que publicarem um livro de 500 páginas todos os anos ou fazerem 10 publicações diárias no Instagram exalando puro desmazelo linguístico, dedicassem algum tempo a rever os textos antes do clique automático no botão “Publicar”.

 

06
Nov25

Her?

Sónia Quental

 

         O cor-de-rosa agressivo dos outdoors insinuava as três letras do título da película com o rosto do protagonista em primeiro plano, à minha espera em todas as paragens de metro. Tinha de me esforçar por desviar os meus, para não me lembrar daquele filme, lançado em 2013, sobre um homem que se apaixona pela voz sexy de um sistema operativo. Mais do que o prenúncio de um futuro não muito distante, em que estaríamos cercados por sistemas inteligentes com que seria possível encetar relações, era a suspeita de que o filme viria impor o que um romantismo moribundo ainda não estava preparado para aceitar: que o amor era fruto da imaginação.

          Mas eis que o futuro acabou por me apanhar e acabei por reconhecer que não podia continuar a esquivar-me à reflexão sobre a presença da IA. Lá fui buscar o filme, com a esperança cética na aclamação da crítica e nos comentários que o elevavam aos píncaros da poesia. Não sei se é o longo afastamento da literatura e o jejum da análise poética que começam a pesar, mas os néctares da poesia escaparam-se-me todos, substituídos por uma repugnância umas vezes subtil, outras categórica.

Captura de ecrã 2025-11-01 194119.png

         Deixando de lado as características pouco atrativas do protagonista, tomou-me primeiro de surpresa o percurso de aprendizagem do sistema operativo, que em pouco tempo, e de modo inexplicável, se torna um mecanismo senciente, capaz de sentir, manifestar vontade própria e dar sinais de um mundo interior. Sem distinguir entre os bons e os maus sentimentos, exibe o comportamento do parceiro inseguro numa relação, compartimentando inteligência e emoções em cenas que podiam ter saído de qualquer história com um ser de desenvolvimento bem mais incipiente. Ultrapassados, graças à comunicação, os anteriores momentos de fragilidade, e antes de desaparecer finalmente no grande vazio cósmico, a fase que se seguiu à segurança no amor monógamo foi a evolução para o poliamor – uma sugestão suficientemente sorrateira para se instalar no subconsciente do público, que há muito tempo anda a ser para isso educado. Uma sugestão que, consumada para o nosso amante renegado, lhe agradou menos a ele, ainda que a consumação tivesse acontecido sem corpo.

         A relação entre o corpo e o amor é um dos vários caminhos de questionamento que o filme abre, mas não o que me interessa para já. A minha inquietação seminal prendia-se com a hipótese do amor como projeção, que a história do filme parece confirmar, mesmo que seja a história de um amor que não singrou. Neste caso, a figura ausente de um sistema operativo dá mais visibilidade a este mecanismo envolvido nos relacionamentos: alguma vez veremos uma pessoa tal como é ou estaremos sempre e só perante as nossas projeções e as distorções que criam, boas ou más?... Quanto mais não seja porque vivemos com filtros e os nossos olhos têm cor, o mundo que vemos, pessoas incluídas, traz essa pigmentação – o que não significa que o amor se cinja à dimensão do mito, da fantasia ou do ideal. Acredito que seja o sopro que nos faz nascer e nos empurra na vida, embora passemos essa vida a defender-nos dele, com medo de morrer no seu olhar não contaminado, no (a)caso de um dia nos encontrar.

 

Imagem: Her, Spike Jonze, 2013

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