Haja estômago
Matutava no pimento vermelho enquanto fazia o almoço. Tirar a casca ou não tirar. Uma das coisas que aprendi num curso de cozinha, na altura em que era vegetariana, é que a pele das Solanáceas é tóxica e deve ser removida. Basta dizer que o tomate está incluído na categoria para se perceber o trabalho que dá seguir uma única regra da alimentação “saudável”. Nem precisamos de entrar na ciência dos óleos para o refogado.
Apesar do contrassenso de uma receita de arroz ancestral abarcar a finura do pimento sem pele, segui-a fielmente durante muito tempo, como se a professora me espreitasse por cima do ombro enquanto cozinhava. Até que comecei a pensar em todo o tempo consumido em nome do conforto hipotético do sistema digestivo. E agora cometo o crime de deixar o pimento com pele e de voltar a comer o tomate vestido, sem ninguém saber.
Não é que tenha encontrado um regime melhor. É que, na vida, seja nas operações culinárias ou noutra coisa qualquer, é preciso estar sempre a escolher com o que gastamos a energia e o tempo: com o quê, com quem, em que medida, até quando. Idealmente, o processo deve tornar-se em parte automático para as atividades que se repetem no dia a dia, porque cada nova tomada de decisão tem o seu gasto energético.
Foi a mesma constatação que me fez abandonar o vegetarianismo, depois de anos dedicados à causa, na época em que ainda não estava na moda. Era demasiada energia a pensar na alimentação. Quando vejo nas redes sociais publicações da minha antiga professora de cozinha, prometendo salvar-me o fígado por alguns milhares de euros, confirmo-me renegada. O espírito messiânico dos novos health coaches assusta-me tanto quanto o dos catequistas da política, da religião e da ciência. Haja estômago que aguente.



