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Na Pegada do Silêncio

" ‘You are a lover of silence’, he said". H. W. L. Poonja

" ‘You are a lover of silence’, he said". H. W. L. Poonja

Na Pegada do Silêncio

29
Dez25

Metafísica para crianças

Sónia Quental

         Mesmo quem não é naturalmente dado à introspeção acaba, nalgum momento da vida, por não conseguir evitar a pergunta: “O que é a felicidade?” Há quem chegue a ela pela experiência prolongada ou culminante do sofrimento; há quem chegue pela via da concretização de metas que não entregam a satisfação prometida. Na ausência do esquivo troféu, propõem então que a felicidade não esteja nas metas, mas no caminho, escondida nos obstáculos que tiveram de ultrapassar para chegar às metas e na transformação pessoal que daí decorreu.

           Encontrei ao longo dos anos muitos ecos desta filosofia, que não conseguia convencer-me mais do que a ideia da felicidade como fruto de conquistas externas. Ambas as respostas me pareciam fundamentalmente erradas, talvez por ter vivido mais pelos caminhos do pelas chegadas e também por lá não ter visto sinais de felicidade.

         Até que, mergulhada nestas cogitações, me lembrei de uma cantiga que aprendi na escola primária e que só recentemente soube ser um poema de Vinícius: “A casa”, que descreve uma casa “muito engraçada”, que não tinha teto nem coisa nenhuma. Não tinha, enfim, nada que a definisse como casa, além do nome de quem assim a chamava e olhava como tal. Era uma impossibilidade lógica que me fascinava e me ficou a bulir por dentro mais do que qualquer outra coisa que tenha aprendido na carteira da frente da sala de aula.

         O tempo apenas lhe tirou o som, que agora se faz de novo ouvir, quando descubro que a casa engraçada tem sido a minha procura da felicidade, que a consciência nunca rendeu. A felicidade de me encontrar sucessivamente, fulminantemente, com quem sou e com o lugar para o que sou, e de esse lugar vir crescendo comigo. E de assim me achar numa casa sem penico, de onde caem as paredes e se perde o chão, no trabalho de demolição do Amor, que subtrai primeiro para acrescentar depois. Desfeitas as ilusões de pequenez e as romarias da imaginação, a casa sem teto é a mais aconchegante do mundo, em equilíbrio precário no vórtice impossível do ilimitado. Penico para quê?...

 

As you begin to wake yourself up from your dreams of hell or purgatory, heaven dawns on you in a way that the imagination can’t comprehend. And then, as you continue to question what you believe, you realize that heaven, too, is just a beginning.

Byron Katie

 

27
Dez25

A linguagem do amor

Sónia Quental

Captura de ecrã 2025-12-27 180539.png

 

 

 

(…) es donde estoy bien, en lo cotidiano. (…) Amo la vida cotidiana y no los viajes. Ni salir de mí para excitarme ni querer vivir más intenso. Lo intenso está dentro, en la tormenta y la calma cotidianas.

Isra Bravo

 

 

            Onde haveria eu de estar senão aqui, sempre aqui, nas ruas do quotidiano onde o Natal é um dia igual aos outros, igualmente próximo, de onde quer que seja observado. A diferença é que no Natal o silêncio, a linguagem do amor, fala mais à vontade consigo mesmo, pairando sobre as ruas sem precisar que alguém o entenda.

 

Imagem: baralho Morgan Greer

21
Dez25

Pode ferir a sensibilidade

Sónia Quental

         Antigamente, lembro-me de que eram o telejornal e os programas com imagens de violência explícita que avisavam desse teor, impróprio para crianças e suscetível de ferir a sensibilidade dos mais crescidos. Por estes dias, não é só o conteúdo audiovisual que traz essa advertência, já não limitada à violência física: é preciso resguardar o público de tudo o que possa ser percebido como gatilho emocional ou fator desencadeante (triggering), incluindo texto que aborde temas considerados sensíveis.

         É assim que artigos e séries televisivas que se debruçam sobre o suicídio ou a violação são acolchoados de mensagens a preparar o recetor, que pode sentir-se ansioso ou ofendido praticamente por qualquer coisa, sobretudo por aquilo que ponha em causa os seus pontos de vista, como apontam Greg Lukianoff e Jonathan Haidt em The Coddling of the American Mind (publicado em português com o título A Infantilização da Mente Moderna).

 

Students claimed that certain kinds of speech – and even the content of some books and courses – interfered with their ability to function. They wanted protection from material that hey believed could jeopardize their mental health by ‘triggering’ them, or making them ‘feel unsafe’.

Greg Lukianoff e Jonathan Haidt

 

       A tendência emergente cedo galgou as fronteiras do mundo académico em foco nesta obra, mostrando que a excessiva cautela com as ameaças à segurança emocional se aliava às preocupações desmesuradas com a segurança física. Daí nascia a necessidade de se criar “espaços seguros” que pusessem a salvo do desconforto ou do risco anunciado pelos caprichos do sentimento.

 

         Ora, parece-me a mim que estas medidas não são suficientes e que deviam ser alargadas às experiências de vida perturbadoras, que nos surpreendem sem a consideração de enviar sinais. Era útil saber quando vou cair num buraco: assim podia contorná-lo ou escolher outro caminho. Nos golpes que não fosse possível evitar, restava-me a técnica que se aprende por reflexo na infância, quando aparecem as tais imagens feias na televisão: tapar os olhos com as mãos. Se possível, refugiava-me numa dessas ilhas de salvação que agora existem – os safe spaces que protegem a nossa fragilidade emocional e não nos deixam bater com a cara no chão.

          Prestes a entrar em 2026, é só isso que tenho a pedir aos senhores do carma e aos candidatos à presidência da República: enviem um alerta quando vier marosca. Acreditando que um desejo único tem mais probabilidade de ser atendido do que uma listinha completa, confesso que foi difícil decidir entre isto e a conclusão das obras do metro. Quanto a essas, estou disposta a ser enganada mais um ano; a retrospetiva de 2025 é que ensina a falta que faz um recadinho amigo sobre as minas escondidas no novo ano, para entrar em 2026 de olhos abertos e couraça a rigor. A "resiliência" que se dane.

 

15
Dez25

Uma rabanada

Sónia Quental

       Para mim, o Natal é uma rabanada, repetida todas as semanas até deixarem de as fazer. Ou assim era até as gaivotas terem começado a ameaçar essa nesga de calor, na falta de polícia e de seguranças, que em vez de se unirem na solidariedade de uma muito necessária Brigada das Gaivotas, ocupam o tempo à caça de quem anda a fazer sessões fotográficas em espaços públicos com máquina a sério (com o telemóvel já se pode). Sem rabanada de leite, não há Natal. Por isso, aviso desde já que o andar suspeito que em breve poderá fazer soar o alarme nas câmaras de reconhecimento facial é a rabanada debaixo do casaco, a proteger o meu Natal – o olhar inquieto é o que indaga ao horizonte se o caminho está livre para poder dar uma dentada num Natal com açúcar, mas livre de culpa, sem as aves terem inveja.

         Mesmo que com a presença única de animais que não são meus amigos – o que já por si põe em causa um bom troço de infância passado a ver a Arca de Noé, que nos dizia para sermos amigos deles –, é um Natal mais transparente do que qualquer outro. As gaivotas vão diretas ao assunto, sem se fazerem rogadas. Não andam a rondar pelas costas, a cobiçar a minha rabanada nem a questionar o meu direito a ela: atacam e está feito. Apesar do sobressalto, há mais verdade nisso do que em qualquer Natal que tenha conhecido, mesmo quando recebia prendas e era muito nova e passei pela febre das cassetes da Mariah Carey. Parece outra vida.

         De resto, tudo o que queria no Natal era que chegasse o dia seguinte. Quando chegava, preferia que não tivesse chegado. Dentro do espírito da brevidade, é nisto que posso condensar os Natais e aniversários de uma vida – até à data. A felicidade era para fingir, como todos sabiam no contrato tácito que as famílias nos fazem assinar quando subscrevemos o serviço. Em cada Natal e cada aniversário, perdi um pouco mais a inocência de berço que tinha de voltar a montar nos outros trezentos e muitos dias do ano. Mas o trabalho não foi em vão: de tanto escavar para afundar os alicerces, achei uma inocência pré-imaginação, intocada desde antes do primeiro choro. É essa que reluz nos meus olhos, a condizer com o brilho do açúcar na rabanada e um Natal simples, as gaivotas e eu.

 

 

09
Dez25

"Poker face"

Sónia Quental

 

(…) se queremos guardar um segredo, temos de o esconder de nós mesmos também. Temos de saber o tempo todo que ele está lá, mas enquanto não for necessário temos de nunca o deixar assomar à nossa consciência de uma forma que possa receber um nome.

George Orwell

 

 

         A polícia inglesa quer instalar câmaras de reconhecimento facial que leem as emoções para apanhar criminosos, evitar suicídios e encontrar pessoas desaparecidas – assim se lê numa notícia recente. Ocorreram-me duas coisas só: a oportunidade de explorar cursos de linguagem corporal para criminosos de carreira e a necessidade urgente de praticar a inexpressividade facial, em que já levo algum traquejo.

         Não imagino como será discutir em tribunal o significado do modo de andar de um arguido e o grau de certeza que o indício de uma emoção daria sobre a intenção de cometer um crime. Crimes imateriais castigados pelo desígnio ou a tentação de os cometer – uma visão anunciada há quase 80 anos na ficção distópica de Orwell.

        Parando para pensar, percebo-me em apuros mais sérios do que supunha, porque só em pensamento já cometi uns quantos crimes este ano. E nem preciso de ir tão longe: o último foi esta semana e ela ainda vai no início. Não sei se, com a ciência das emoções, também aceitarão que invoque a ciência dos astros e atribua a culpa dos pensamentos delinquentes aos trânsitos de Mercúrio, que me vira do avesso sempre que anda para trás.

      Depois das alucinações da IA, será a vez de os sistemas de reconhecimento facial sucumbirem à loucura, ao constatarem que pela via dos humores quase todos temos longo cadastro, fruto de uma prática diária a que alguns ganham gosto. O que poderia correr mal num estado de vigilância regido pela leitura de um trejeito involuntário ou uma maneira suspeita de andar?...

 

 

P.S. A propósito da IA, aqui fica um bombom natalício irresistível de um dos influenciers mais admirados da atualidade:

06
Dez25

Palavras que pesam

Sónia Quental

 

Te confesaré algo. Si hubiera dependido exclusivamente de mí, este libro tendría 300 palabras. Serían un montón de páginas en branco con, tan sólo, 300 palabras. 

Captura de ecrã 2025-12-06 142818.png

 

        Depois do texto da capa, é com estas palavras que Isra Bravo começa o seu último livro sobre copywriting, que tem mais de 300 e é o mais didático até à data.

        Não são precisas tantas para se deixar uma impressão. Veja-se esta placa que encontrei num estabelecimento aqui perto e que transmite várias mensagens numa só atitude, mesmo com a frase de remate, que está a mais.

Horário.jpg

         

         Hemingway é conhecido pelo brilhantismo com que respondeu ao desafio de escrever uma história com 6 palavras. A Pascal, atribui-se a frase “Fiz esta carta mais longa porque não tive tempo de a tornar mais curta”. Falta-nos cada vez mais o tempo para sermos breves, porque brevidade pede intenção e presença. Amiúde, coragem:

 

El día que la conocí, le dije a los cinco minutos de conocerla: 'Me gustas'. Yo nunca he sabido más técnicas para ligar que ser directo y decir la verdad.

Isra Bravo

 

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