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Na Pegada do Silêncio

" ‘You are a lover of silence’, he said". H. W. L. Poonja

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Na Pegada do Silêncio

10
Nov25

A língua também tem "dress code"

Sónia Quental

 

         Mesmo dependendo em grande medida da imagem e do discurso falado, as publicações em redes sociais, blogues e páginas pessoais online, tal como os negócios com montra virtual, não prescindem da palavra escrita. No entanto, se muitos autores e empreendedores capricham na imagem com que se apresentam ao público, no design e na fotografia dos produtos ou serviços que vendem, parece ter-se vulgarizado a ideia de que escrever com erros ortográficos e sintáticos é um pormenor de importância secundária – havendo mesmo copywriters a defender que o erro dá autenticidade à mensagem e faz mais para incentivar à compra do que um texto cuidado. De uma coisa não duvido: inspira camaradagem.

         Acrescento a estes exemplos a facilidade que hoje existe em qualquer um se proclamar autor, autopublicando-se em formato de livro, como se o livro, em suporte físico ou digital, não fosse mais do que um amontoado de páginas, com um título, índice e texto impresso, sem qualquer relação com a qualidade do conteúdo. Frases como “Estou a escrever um livro” passaram de inspirar respeito a semear uma reserva legítima, até culminarem no encolher de ombros do puro ridículo, que sobra para os que praticam o ofício com seriedade.

         A escrita automática que em tempos os surrealistas utilizavam para desbloquear o fluxo espontâneo de ideias é a técnica preferida daqueles que acham que, para serem escritores, só precisam de escrever. É assim que a mesma espontaneidade com que falam é desviada para a escrita a jato, publicada sem revisão – do próprio ou de alguém competente –, que se torna ainda menos desculpável tendo em conta a abundância de dicionários e ferramentas de escrita disponíveis na internet.

         O resultado é um insulto aos leitores ou ao público com formação que se pretende seduzir através da confiança no mérito autoproclamado e quase sempre imaginário. A língua também tem dress code. E, se esta é matéria que se presta a amplo debate, no que se refere a preferências vocabulares, estilo e grau de formalidade quando os textos se destinam a consumo imediato nos meios digitais, a preocupação com o dress code não pode faltar nem passar por cima do aprumo gramatical.

         Além da falta de consideração que mostram por quem lê, os erros de escrita instalam a dúvida sobre a qualidade do conteúdo ou a competência do autor, mesmo que num campo distanciado do da língua. É difícil compreender o orgulho com que muitos ostentam as nódoas na camisa – que os músculos definidos, no caso dos homens, ou as pestanas e unhas postiças, no caso das mulheres, não chegam para compensar. Mais ganhariam se, em vez que publicarem um livro de 500 páginas todos os anos ou fazerem 10 publicações diárias no Instagram exalando puro desmazelo linguístico, dedicassem algum tempo a rever os textos antes do clique automático no botão “Publicar”.

 

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