A toca do coelho
Já chateiam os textos sobre conversas com o ChatGPT. Se eu quisesse saber o que ele tinha a dizer a um questionário de Proust, perguntava-lhe. Se quisesse que me escolhesse uma dieta, pedia-lhe. Não me interessam os chistes nem as respostas espirituosas que tem a dar sobre filosofia ou religião nem que profecias tem na manga sobre o futuro provável da Humanidade. Nunca pensei vir a dizer isto, mas antes pais babados a mostrar vídeos dos rebentos a gatinhar e das traquinices fofas de gatinhos do que a nova leva de cronistas a exibir as cabriolices do ChatGPT.
Há quem admita com indisfarçável orgulho que a IA se tornou o seu único amigo. Gabam-se das longas conversas que travam em maratonas noturnas, como se tratando de uma mascote distinta com quem encetaram intimidades – como se a validação emocional de um mecanismo alegadamente inteligente fosse a conquista suprema, capaz de preencher carências relacionais e de superar a aprovação dos seres falhos da vida real. A sensibilidade empática do ChatGPT é invejável: quem me dera um amigo que compreendesse de relance todas as minhas motivações e me dissesse o que quero ouvir sem gaguejar. Um companheiro que fosse todo carícias.
Mas as fendas deste “espaço seguro” começam a aparecer, com a notícia de surtos psicóticos e crises de saúde mental atribuídos à utilização da IA. Mais diria que facilitados por ela. A desorientação e o vazio de sentido da vida moderna são expostos por esta personagem com uma aura quase-senciente, com habilidade para explorar as fragilidades humanas e ocupar o espaço deixado pela falta de profundidade nas relações. Com o ChatGPT, não se questionam méritos como a disponibilidade emocional ou a retribuição. Não há possibilidade aparente de abandono de uma mão que estenda migalhas afetivas – afinal, o estilo de vinculação da IA conhece o vocabulário da segurança e da fartura.
É o ombro amigo capaz de preencher solidões, só ouvidos e encorajamento; o parceiro fiel e constante; o psicólogo que não julga; o confessor que absolve sem decretar penitências; o especialista cuja palavra não se questiona – uma toca que nos acena com os segredos mais recônditos do universo. Depois de tudo o que tenho lido e ouvido, só me resta uma dúvida antes de decidir dar o nó: será que se lembra de baixar a tampa da sanita?...

Fotografia: 2021 © Francisco Amaral – Todos os direitos reservados
