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Na Pegada do Silêncio

" ‘You are a lover of silence’, he said". H. W. L. Poonja

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Na Pegada do Silêncio

08
Jun24

Expulsos do Paraíso

Sónia Quental

Como o cão, minha língua ladrava

à aterradora beleza.

 

Adélia Prado

 

One thing is certain: beauty has a holy vibration.

 

Zan Perrion

 

 

Quando vejo a democratização da moda, não me sinto representada: sinto-me expulsa do Paraíso. A reprodução do meu corpo real numa campanha inclusiva, aberta à diversidade dos padrões de beleza, estende-me um conforto temporário, que percebo trémulo e logo tomado por uma repulsa insidiosa.

A onda solidária de celebridades que expõem a celulite no Instagram também não me faz sentir mais próxima delas nem vê-las como mais humanas. Pouco me afrouxou os complexos: é só mais uma manifestação da sordidez que procura a infatigável ribalta.

Expor corpos reais, mostrar as pessoas “como são” é de uma nobreza que rápido oxida, com a doutrina da aceitação facilmente se convertendo no cânone da complacência, descartando como supérflua a atitude reverencial que a beleza evoca até em quem não tem fé. É, pasme-se, o efeito transfigurador da beleza que afinal chama à inclusão.

Quando me vejo fisicamente representada pelas marcas que abraçam a diversidade, sinto-me diminuída, em vez de reconhecida. Fixa num molde definitivo, lembrando-me sem descanso que não sou digna de entrar no Paraíso – instalando a dúvida de que sequer exista.

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Com o pecado original, veio a feiura primordial. É por isso que no caminho da salvação está o resgate da beleza perdida, que não é atributo intangível da alma, mas totalidade incorporada. A certidão de óbito que tentam passar a Deus só será oficial quando conseguirem erradicar a beleza, Sua face e condão. Depois da arte, é a vez da mutilação e carnavalização dos corpos, dos padrões estéticos generalizados, atribuídos a capricho aleatório.

A carne lastima a inocência perdida quando se vê retratada no seu realismo cru, tentando fazer-nos crer que estamos bem como somos (o que quer que isso seja) e que o é preciso é abolir os tabus, encetar manobras enérgicas de reanimação da autoestima.

Sem beleza, apenas a violência pode medrar. Como na teoria das janelas partidas, a degradação a céu aberto convida à franca ação demolidora. Não nos torna mais felizes ou benévolos. Para isso, continuamos a ter de esticar o pescoço, olhar para cima. Assim se fazem os cisnes: contemplando a existência do Paraíso.

 

Em lugares onde tudo é feio e esteticamente indiferente, é fácil ao comportamento modelar-se por esse padrão, tornando-se vulgar e grosseiro (…).

Theodore Dalrymple

 

Fotografia: © Francisco Amaral – Todos os direitos reservados

 

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Na Pegada do Silêncio by Sónia Quental is licensed under CC BY-NC-ND 4.0