Metafísica para crianças
Mesmo quem não é naturalmente dado à introspeção acaba, nalgum momento da vida, por não conseguir evitar a pergunta: “O que é a felicidade?” Há quem chegue a ela pela experiência prolongada ou culminante do sofrimento; há quem chegue pela via da concretização de metas que não entregam a satisfação prometida. Na ausência do esquivo troféu, propõem então que a felicidade não esteja nas metas, mas no caminho, escondida nos obstáculos que tiveram de ultrapassar para chegar às metas e na transformação pessoal que daí decorreu.
Encontrei ao longo dos anos muitos ecos desta filosofia, que não conseguia convencer-me mais do que a ideia da felicidade como fruto de conquistas externas. Ambas as respostas me pareciam fundamentalmente erradas, talvez por ter vivido mais pelos caminhos do pelas chegadas e também por lá não ter visto sinais de felicidade.
Até que, mergulhada nestas cogitações, me lembrei de uma cantiga que aprendi na escola primária e que só recentemente soube ser um poema de Vinícius: “A casa”, que descreve uma casa “muito engraçada”, que não tinha teto nem coisa nenhuma. Não tinha, enfim, nada que a definisse como casa, além do nome de quem assim a chamava e olhava como tal. Era uma impossibilidade lógica que me fascinava e me ficou a bulir por dentro mais do que qualquer outra coisa que tenha aprendido na carteira da frente da sala de aula.
O tempo apenas lhe tirou o som, que agora se faz de novo ouvir, quando descubro que a casa engraçada tem sido a minha procura da felicidade, que a consciência nunca rendeu. A felicidade de me encontrar sucessivamente, fulminantemente, com quem sou e com o lugar para o que sou, e de esse lugar vir crescendo comigo. E de assim me achar numa casa sem penico, de onde caem as paredes e se perde o chão, no trabalho de demolição do Amor, que subtrai primeiro para acrescentar depois. Desfeitas as ilusões de pequenez e as romarias da imaginação, a casa sem teto é a mais aconchegante do mundo, em equilíbrio precário no vórtice impossível do ilimitado. Penico para quê?...
As you begin to wake yourself up from your dreams of hell or purgatory, heaven dawns on you in a way that the imagination can’t comprehend. And then, as you continue to question what you believe, you realize that heaven, too, is just a beginning.
Byron Katie
