Pode ferir a sensibilidade
Antigamente, lembro-me de que eram o telejornal e os programas com imagens de violência explícita que avisavam desse teor, impróprio para crianças e suscetível de ferir a sensibilidade dos mais crescidos. Por estes dias, não é só o conteúdo audiovisual que traz essa advertência, já não limitada à violência física: é preciso resguardar o público de tudo o que possa ser percebido como gatilho emocional ou fator desencadeante (triggering), incluindo texto que aborde temas considerados sensíveis.
É assim que artigos e séries televisivas que se debruçam sobre o suicídio ou a violação são acolchoados de mensagens a preparar o recetor, que pode sentir-se ansioso ou ofendido praticamente por qualquer coisa, sobretudo por aquilo que ponha em causa os seus pontos de vista, como apontam Greg Lukianoff e Jonathan Haidt em The Coddling of the American Mind (publicado em português com o título A Infantilização da Mente Moderna).
Students claimed that certain kinds of speech – and even the content of some books and courses – interfered with their ability to function. They wanted protection from material that hey believed could jeopardize their mental health by ‘triggering’ them, or making them ‘feel unsafe’.
Greg Lukianoff e Jonathan Haidt
A tendência emergente cedo galgou as fronteiras do mundo académico em foco nesta obra, mostrando que a excessiva cautela com as ameaças à segurança emocional se aliava às preocupações desmesuradas com a segurança física. Daí nascia a necessidade de se criar “espaços seguros” que pusessem a salvo do desconforto ou do risco anunciado pelos caprichos do sentimento.
Ora, parece-me a mim que estas medidas não são suficientes e que deviam ser alargadas às experiências de vida perturbadoras, que nos surpreendem sem a consideração de enviar sinais. Era útil saber quando vou cair num buraco: assim podia contorná-lo ou escolher outro caminho. Nos golpes que não fosse possível evitar, restava-me a técnica que se aprende por reflexo na infância, quando aparecem as tais imagens feias na televisão: tapar os olhos com as mãos. Se possível, refugiava-me numa dessas ilhas de salvação que agora existem – os safe spaces que protegem a nossa fragilidade emocional e não nos deixam bater com a cara no chão.
Prestes a entrar em 2026, é só isso que tenho a pedir aos senhores do carma e aos candidatos à presidência da República: enviem um alerta quando vier marosca. Acreditando que um desejo único tem mais probabilidade de ser atendido do que uma listinha completa, confesso que foi difícil decidir entre isto e a conclusão das obras do metro. Quanto a essas, estou disposta a ser enganada mais um ano; a retrospetiva de 2025 é que ensina a falta que faz um recadinho amigo sobre as minas escondidas no novo ano, para entrar em 2026 de olhos abertos e couraça a rigor. A "resiliência" que se dane.
