"Poker face"
(…) se queremos guardar um segredo, temos de o esconder de nós mesmos também. Temos de saber o tempo todo que ele está lá, mas enquanto não for necessário temos de nunca o deixar assomar à nossa consciência de uma forma que possa receber um nome.
George Orwell
A polícia inglesa quer instalar câmaras de reconhecimento facial que leem as emoções para apanhar criminosos, evitar suicídios e encontrar pessoas desaparecidas – assim se lê numa notícia recente. Ocorreram-me duas coisas só: a oportunidade de explorar cursos de linguagem corporal para criminosos de carreira e a necessidade urgente de praticar a inexpressividade facial, em que já levo algum traquejo.
Não imagino como será discutir em tribunal o significado do modo de andar de um arguido e o grau de certeza que o indício de uma emoção daria sobre a intenção de cometer um crime. Crimes imateriais castigados pelo desígnio ou a tentação de os cometer – uma visão anunciada há quase 80 anos na ficção distópica de Orwell.
Parando para pensar, percebo-me em apuros mais sérios do que supunha, porque só em pensamento já cometi uns quantos crimes este ano. E nem preciso de ir tão longe: o último foi esta semana e ela ainda vai no início. Não sei se, com a ciência das emoções, também aceitarão que invoque a ciência dos astros e atribua a culpa dos pensamentos delinquentes aos trânsitos de Mercúrio, que me vira do avesso sempre que anda para trás.
Depois das alucinações da IA, será a vez de os sistemas de reconhecimento facial sucumbirem à loucura, ao constatarem que pela via dos humores quase todos temos longo cadastro, fruto de uma prática diária a que alguns ganham gosto. O que poderia correr mal num estado de vigilância regido pela leitura de um trejeito involuntário ou uma maneira suspeita de andar?...
P.S. A propósito da IA, aqui fica um bombom natalício irresistível de um dos influenciers mais admirados da atualidade:
