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Na Pegada do Silêncio

" ‘You are a lover of silence’, he said". H. W. L. Poonja

" ‘You are a lover of silence’, he said". H. W. L. Poonja

Na Pegada do Silêncio

07
Mai25

Caixa de furos

Sónia Quental

         A sorte, a surpresa, o sabor. Eram os ingredientes da caixa de furos de chocolate que tenho arrumada na infância, com as bolas coloridas que davam direito a dias raros de recompensa. O chocolate que saía tinha a sua importância, mas eram o jogo e o elemento do desconhecido que alimentavam a antecipação.

       Ficou-me a nostalgia da caixa de surpresas com o aroma a chocolate, misturado com o boletim do totoloto, os torrões duros de amendoim e o ambiente sombrio dos cafés onde o balcão era mais alto do que a minha cabeça – mas também a lembrança das surpresas felizes, sobretudo as que estavam associadas a pequenas aventuras gustativas.  No mundo físico, não é por terras que viajo, mas por cheiros e sabores. Se o chocolate é uma categoria propícia à exploração, o chá é outra. A tradição e a curiosidade levaram-me a investigar a oferta londrina quando a oportunidade se deu. Ao desconsolo inicial da falta de novidade seguiu-se o achado em Notting Hill, onde uma lojinha azul, como a felicidade, convidava a entrar, pela cor e pela miscelânea de aniversário que me acenava da montra (era dia de aniversário e já tinha recebido uma base para copos de um vendedor de rua). Foi assim que conheci a Bird & Blend: um catálogo de sabores insólitos, cujo encantamento começa, como manda a sabedoria, pelos nomes, palavras líquidas que dá vontade de saborear, seja como refresco de verão, seja no aconchego das noites alumiadas por um livro.

         Trouxe comigo a caixa de aniversário, onde, entre outras surpresas que não desiludiram, não faltava o chá a saber a bolo. Mas o regresso não foi uma despedida. A relação com a marca continuou à distância, quando descobri o clube de chá mensal: uma subscrição que traz a sorte, a surpresa e o sabor até casa e me deixa ser outra vez a criança à espera de um furo, com a confiança de quem ainda se dá ao desconhecido de olhos fechados.

 

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22
Mai24

42. Balanço de anca

Sónia Quental

           

As únicas coisas que posso ter como certas no aniversário são que vai estar de chuva e que haverá um qualquer alucinado a tentar saltar da caixa de Pandora, mostrando o quão fundo ela vai: o trabalho do esquecimento é uma odisseia cheia de remos.

Não trago listas com aprendizagens de vida, ocupada que estou a desaprender, bater de lado contra a ignorância. Posso contar as pancadas que já dei, enquanto anseio pela próxima e me desenredo da esperança, para não criar depósitos no fundo. Só a travessia do desespero leva às costas da Alegria.

Quem disse que o que sobrava era a esperança não quis ir longe. Eu quero, nem que seja de boia ou atada a um mastro. Quanto mais longe vou, menos as certezas, mais leve fico, descosida de sabedorias. A única coisa que balança é a anca, enquanto repito “sim, sim; não, não” e reduzo as palavras à essência, a um afago o silêncio.

 

 

23
Mai23

40 anos no deserto

Sónia Quental

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Fotografia de © Richard Barman (@richardbarman), publicada com autorização do autor.

 

The poem or painting were exorcisms, spells against the desert.

Octavio Paz

 

Diz-se que, da cabeça até ao umbigo, o corpo de Lilith é o de uma bela mulher; porém, do umbigo para baixo, ela é um fogo abrasador.

Barbara Black Koltuv

 

    

Não era a mulher quem arrastava o desconforto pelo aeroporto, mas a criança no pânico de se perder e não encontrar o caminho de volta. A mesma que teve de aprender a ir para a escola sozinha e ficou congelada no trauma.

Os dedos sujos de chocolate, bate a culpa por beber mais uma Coca-cola. Penso nos gurus da alimentação saudável que estarei a ofender, no que comi de mais, se gastei em excesso, se o entusiasmo me faltou, na busca incessante da medida certa, tal o hábito de me achar de um lado ou do outro da balança.

Devo ter estado lá, no momento do pecado original, porque é essa a culpa que me persegue, até nos aeroportos. Tento despistá-la no labirinto de corredores, deixá-la para trás no controlo de segurança. Mas a culpa não é líquida, antes sólida, cheia de grelo, como as cebolas, e com o mesmo cheiro a enxofre.

Hoje estou no meio; não o meio do equilíbrio, mas de um lugar de passagem, 40 anos volvidos do começo. Aceito com relutância os 41 e a contrariedade de me achar mortal. Há quem chame “não lugares” aos aeroportos – não conhece outra coisa quem habita um não lugar persistente e atravessa os dias no rasto de quimeras. Aqui, o deserto é apenas mais óbvio, mas nem só antro de demónios. Quando vejo, são as bênçãos que assaltam. É por isso que evito o jejum: para não ceder à tentação.

Ouvir a língua nativa é o primeiro sinal de casa. Gostava de ter a simpatia imaculada dos hospedeiros e de encontrar no deserto a fonte do amor, mesmo que as águas do destino sejam turvas.

Tenho sede, dispo-me sem que percebam. Pode ser que a chuva venha.

 

 

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