Caixa de furos
A sorte, a surpresa, o sabor. Eram os ingredientes da caixa de furos de chocolate que tenho arrumada na infância, com as bolas coloridas que davam direito a dias raros de recompensa. O chocolate que saía tinha a sua importância, mas eram o jogo e o elemento do desconhecido que alimentavam a antecipação.
Ficou-me a nostalgia da caixa de surpresas com o aroma a chocolate, misturado com o boletim do totoloto, os torrões duros de amendoim e o ambiente sombrio dos cafés onde o balcão era mais alto do que a minha cabeça – mas também a lembrança das surpresas felizes, sobretudo as que estavam associadas a pequenas aventuras gustativas. No mundo físico, não é por terras que viajo, mas por cheiros e sabores. Se o chocolate é uma categoria propícia à exploração, o chá é outra. A tradição e a curiosidade levaram-me a investigar a oferta londrina quando a oportunidade se deu. Ao desconsolo inicial da falta de novidade seguiu-se o achado em Notting Hill, onde uma lojinha azul, como a felicidade, convidava a entrar, pela cor e pela miscelânea de aniversário que me acenava da montra (era dia de aniversário e já tinha recebido uma base para copos de um vendedor de rua). Foi assim que conheci a Bird & Blend: um catálogo de sabores insólitos, cujo encantamento começa, como manda a sabedoria, pelos nomes, palavras líquidas que dá vontade de saborear, seja como refresco de verão, seja no aconchego das noites alumiadas por um livro.
Trouxe comigo a caixa de aniversário, onde, entre outras surpresas que não desiludiram, não faltava o chá a saber a bolo. Mas o regresso não foi uma despedida. A relação com a marca continuou à distância, quando descobri o clube de chá mensal: uma subscrição que traz a sorte, a surpresa e o sabor até casa e me deixa ser outra vez a criança à espera de um furo, com a confiança de quem ainda se dá ao desconhecido de olhos fechados.


