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Na Pegada do Silêncio

" ‘You are a lover of silence’, he said". H. W. L. Poonja

" ‘You are a lover of silence’, he said". H. W. L. Poonja

Na Pegada do Silêncio

07
Jan26

Não existe dia para usar roupa nova

Sónia Quental

No llegues, márchate.

Isra Bravo

        

         A tradição de usar roupa nova no Ano Novo era daquelas que ajudavam a enrijecer a mentira que se vivia sem fazer feriado. A superstição é o último reduto de quem respira com a crença de que a vida é desligada de si e de que os acontecimentos são fruto do acaso – do acaso e da roupa que se estreou ou não no dia certo.

         Compreendo a importância dos rituais que assinalam passagens simbólicas, nem sempre conscientemente escolhidas, mas pelo menos conscientemente acolhidas. Nos ciclos de vida, porém, o calendário é mera referência – uma âncora útil, por vezes pesada.  Se os dias são curtos para demorarmos em cada um a reflexão, e as decisões de vida precisam de respirar em intervalos de tempo maiores, as resoluções vigorosas querem-se mais correntes do que de ano a ano.

         Roupa nova, para mim, não tem dia marcado. Com mais frequência do que gostaria, constato que aquela que uso já não me serve e que preciso de outra. Cansa viver de abalo em abalo, mas o contrário disso é andar distraído.

         Com a quantidade de bens e objetos que nos habituamos a acumular, não reunimos a energia também necessária para os ajustes sucessivos de rumo. A vida não cessa de perguntar quem somos e para onde vamos, mesmo a quem deixou de se fazer essas perguntas. Ter a resposta continuamente fresca, como a roupa nova, é a única coisa que nos pede. Não é pouco.

 

 

21
Dez25

Pode ferir a sensibilidade

Sónia Quental

         Antigamente, lembro-me de que eram o telejornal e os programas com imagens de violência explícita que avisavam desse teor, impróprio para crianças e suscetível de ferir a sensibilidade dos mais crescidos. Por estes dias, não é só o conteúdo audiovisual que traz essa advertência, já não limitada à violência física: é preciso resguardar o público de tudo o que possa ser percebido como gatilho emocional ou fator desencadeante (triggering), incluindo texto que aborde temas considerados sensíveis.

         É assim que artigos e séries televisivas que se debruçam sobre o suicídio ou a violação são acolchoados de mensagens a preparar o recetor, que pode sentir-se ansioso ou ofendido praticamente por qualquer coisa, sobretudo por aquilo que ponha em causa os seus pontos de vista, como apontam Greg Lukianoff e Jonathan Haidt em The Coddling of the American Mind (publicado em português com o título A Infantilização da Mente Moderna).

 

Students claimed that certain kinds of speech – and even the content of some books and courses – interfered with their ability to function. They wanted protection from material that hey believed could jeopardize their mental health by ‘triggering’ them, or making them ‘feel unsafe’.

Greg Lukianoff e Jonathan Haidt

 

       A tendência emergente cedo galgou as fronteiras do mundo académico em foco nesta obra, mostrando que a excessiva cautela com as ameaças à segurança emocional se aliava às preocupações desmesuradas com a segurança física. Daí nascia a necessidade de se criar “espaços seguros” que pusessem a salvo do desconforto ou do risco anunciado pelos caprichos do sentimento.

 

         Ora, parece-me a mim que estas medidas não são suficientes e que deviam ser alargadas às experiências de vida perturbadoras, que nos surpreendem sem a consideração de enviar sinais. Era útil saber quando vou cair num buraco: assim podia contorná-lo ou escolher outro caminho. Nos golpes que não fosse possível evitar, restava-me a técnica que se aprende por reflexo na infância, quando aparecem as tais imagens feias na televisão: tapar os olhos com as mãos. Se possível, refugiava-me numa dessas ilhas de salvação que agora existem – os safe spaces que protegem a nossa fragilidade emocional e não nos deixam bater com a cara no chão.

          Prestes a entrar em 2026, é só isso que tenho a pedir aos senhores do carma e aos candidatos à presidência da República: enviem um alerta quando vier marosca. Acreditando que um desejo único tem mais probabilidade de ser atendido do que uma listinha completa, confesso que foi difícil decidir entre isto e a conclusão das obras do metro. Quanto a essas, estou disposta a ser enganada mais um ano; a retrospetiva de 2025 é que ensina a falta que faz um recadinho amigo sobre as minas escondidas no novo ano, para entrar em 2026 de olhos abertos e couraça a rigor. A "resiliência" que se dane.

 

31
Dez24

Identidades

Sónia Quental

 

         Se fosse agente de apoio ao cliente num balcão de atendimento virtual, é certo e sabido que teria um álbum de recortes com as selfies que os utilizadores tiram nos processos de verificação de identidade. Seria algo como uma bolinha antistresse mental para descomprimir no pingue-pongue trocado com toda a espécie de criaturas que me passassem pela retina, quando a munição de empatia estivesse em baixo (e prevejo que rareasse com alguma frequência).

         Desde o primeiro “Sorria”, “Pare de sorrir”, “Encaixe o rosto na oval” até à derradeira estocada: “Não reconhecemos um rosto”, não é difícil conceber a fúria expressiva que fica registada no instante despreparado em que a câmara resolve disparar, quando o olhar do alvo fulmina a voz mecânica que o manda fazer o pino e ainda lhe pede bis. Pensando positivo, como é de bom tom, a imaginação tem a oportunidade de se exercitar num catálogo subtilíssimo de posições para a cabeça dentro da oval que a transportam ao celebrado “pensar fora da caixa” que muitos julgariam estar além da sua capacidade. Todos os intervenientes saem enriquecidos de uma experiência que, mesmo com curadoria, seria capaz de encher uma galeria de arte mais concorrida do que a dos instantâneos para o cartão do cidadão e que deve fazer a alegria dos agentes que se encarregam das revisões manuais. Num modesto terceiro lugar, estariam as fotografias de tipo passe.

         Enquanto aguardo o resultado do que poderia ser uma formalidade efémera, mas que no nosso mundo de (in)eficiências burocráticas e excessos tecnológicos é mais um teste à placidez da compostura, não sei se quero ou não ser reconhecida – o que me traz à mensagem de final de ano. Há quem diga que a identidade se constrói, o que supõe todo um trabalho, se não de reconstrução, pelo menos de manutenção e reparação, num afã que não traz grande coisa de novo enquanto nada for demolido. Os pequenos embaraços diários que os imperativos de segurança vão fazendo aumentar em quantidade e despropósito mostram que a identidade nos leva a um confronto constante entre perceção, projeção e realidade, que só poderemos apreender gradualmente – por motivos de segurança de outra ordem.

         O difícil da identidade é estarmos sempre a perceber que não somos o que pensamos que somos, sempre a soltar e a raspar a pele. É o desgosto de descobrir que por baixo de uma camada há outra ainda, que continua escurinha de fuligem, e mesmo assim continuar a raspar na esperança de chegar à pele de bebé, com aquele cheirinho que apetece comer, em sentido inverso à casca de fora, que acusa os efeitos crescentes da gravidade. Não quero com isto sugerir que andemos atrás de bebés para comer, mas aproveitar a imagem para deixar um voto simples, desta que nunca deu valor ao Ano Novo nem aos protocolos da data, mas que o redescobre nas manifestações de bem-querença que encham o ar: Ano Novo, Pele Nova.

Parede rosa (2).jpg

Fotografia: 2020 © Francisco Amaral – Todos os direitos reservados

 

01
Jan24

A galinha cor-de-rosa

Sónia Quental

 

A minha avó das Corgas tinha coelhos, vacas e galinhas. Costumava vê-la a dar erva às vacas e a ir buscar ovos ao galinheiro. Um dia, eu disse à minha tia favorita que tinha visto uma galinha com penas cor-de-rosa, comentário recebido com a candura de quem se desacredita dos absurdos perfeitamente lógicos que saem da boca de uma criança. Tanto foi que a história se espalhou e desde então a minha avó perguntava-me sempre pela galinha cor-de-rosa, que não voltei a pôr os olhos em cima.

Pus empenho em encontrar a galinha, quanto mais não fosse por uma questão de honra, algo que as crianças não dispensam. Não podia desdizer-me nem apresentar provas e devia ser das poucas que não queriam a Galinha dos Ovos de Ouro: só pedia uma cor-de-rosa, que pudesse apontar em triunfo para ser levada a sério.

Até que começaram a diagnosticar-me excesso de seriedade e uma vez me perguntaram:

           

- Porque é que és tão triste?

           

Tinha deixado a galinha noutro troço da infância, mas talvez lhe tivesse ficado o fantasma. Em vez de chamar estúpida à pessoa por fazer uma pergunta daquelas, fiquei ainda mais séria, a cismar no verbo “ser”, em vez de “estar”, que me traçava todo um destino, e eu que tinha uma galinha para achar e ainda nem sequer gostava de Português.

Vultos diferentes deram eco à mesma pergunta ao longo do tempo, variações poucas. Porque és tão séria, tão triste, porque não vês connosco a novela. Quando perguntavam pelas costas, a malícia tinha um vocabulário mais expressivo, mas sempre a pender para o mesmo lado. Nem eu sabia que era enjoada nem as pessoas que eu tinha uma galinha atravessada na infância. No hard feelings.

Depois, o meu primeiro namorado a sério, que também me achava séria, cancelou o contrato vitalício antes do fim da garantia, porque, dizia, eu tinha um segredo que ele nunca conseguira decifrar. Os mistérios a resolver já eram muitos e agora mais este, que veio juntar-se à galinha lá no topo e me acusava outra vez de males de que eu não sabia sofrer.

Por estes dias, ao preparar a lista de desejos para o Ano Novo, eles lá estão, vivinhos da Silva, e eu a copiá-los de novo, com uma letra desacostumada do papel, “Achar a galinha e o segredo”. Imagino esse tal namorado, que teve morte prematura (aqui é à letra, não é figura de estilo), a abanar a cabeça do Além enquanto digito ao Leo, nas primeiras horas do ano, “De que cor são as penas das galinhas”, a julgar que a galinha sou eu.

 

Porta azul.jpg

Fotografia: 2020 © Francisco Amaral – Todos os direitos reservados

 

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