Não existe dia para usar roupa nova
No llegues, márchate.
Isra Bravo
A tradição de usar roupa nova no Ano Novo era daquelas que ajudavam a enrijecer a mentira que se vivia sem fazer feriado. A superstição é o último reduto de quem respira com a crença de que a vida é desligada de si e de que os acontecimentos são fruto do acaso – do acaso e da roupa que se estreou ou não no dia certo.
Compreendo a importância dos rituais que assinalam passagens simbólicas, nem sempre conscientemente escolhidas, mas pelo menos conscientemente acolhidas. Nos ciclos de vida, porém, o calendário é mera referência – uma âncora útil, por vezes pesada. Se os dias são curtos para demorarmos em cada um a reflexão, e as decisões de vida precisam de respirar em intervalos de tempo maiores, as resoluções vigorosas querem-se mais correntes do que de ano a ano.
Roupa nova, para mim, não tem dia marcado. Com mais frequência do que gostaria, constato que aquela que uso já não me serve e que preciso de outra. Cansa viver de abalo em abalo, mas o contrário disso é andar distraído.
Com a quantidade de bens e objetos que nos habituamos a acumular, não reunimos a energia também necessária para os ajustes sucessivos de rumo. A vida não cessa de perguntar quem somos e para onde vamos, mesmo a quem deixou de se fazer essas perguntas. Ter a resposta continuamente fresca, como a roupa nova, é a única coisa que nos pede. Não é pouco.


