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Na Pegada do Silêncio

" ‘You are a lover of silence’, he said". H. W. L. Poonja

" ‘You are a lover of silence’, he said". H. W. L. Poonja

Na Pegada do Silêncio

07
Ago25

Cabeçudos

Sónia Quental

Como os cabeçudos no Carnaval, o Homem é um ser de cabeça inchada, de pasta de papel, que desfila pavoneando as suas deformidades. O que se entende por “pessoa” não é mais do que um agregado psíquico, uma grande forma-pensamento antropomorfizada, convicta da sua originalidade inimitável e do valor sacrossanto das opiniões que a enfeitam.

Entretanto, o veio do Coração, a substância impermeável a sentimentalismos e ao molde do que passa por sentimento bom, propriedade das pessoas de bem, não é conhecido.

Colonizado o cume, a passagem para o País das Maravilhas continua fechada. Para que a cabeça caiba, é preciso desinchar.

 

22
Mai25

O coração dorme de lado

Sónia Quental

 

         O coração dorme de lado. Desacompanhado. Aos soluços. Disseram-lhe que não se dormia de barriga para cima, mas ele dorme. E para baixo. Não há posição que seja cómoda para um coração amassado, sem direito nem avesso, a rebentar pelas costuras. Experimenta-as a todas. De todas se lamenta. Roça-se nos lençóis como animal obrigado, sem dar fé da pele que se solta.

         De lado, em carne viva, por último a paz.

 

14
Fev25

O Ilusionista

Sónia Quental

 

Captura de ecrã 2025-02-14 200424.pngRasgaste-me o coração de forma meticulosa: dobrando bem os vincos e puxando cada parte na direção oposta, umas vezes lentamente, outras com decisão. Depois de teres repetido o processo mil vezes, o coração sem sobra quase que se notasse, escondeste os mínimos pedaços numa mão. Disseste-me que não a perdesse de vista e abriste os dedos, um de cada vez, mostrando-me como se regenera um todo sem partes.

 

Imagem: baralho Rider-Waite

01
Jun23

Quero um amor com fios

Sónia Quental

Chafariz 21.01 (4).jpg

I, too, had the natural impulse to want to be seen, to want to meet some other human being in this damn life, full of gains, and idiocy, and superficiality, and insanity - to meet another human being in the Deepest. What greater blessing is there than that? Not for self, but for Love.

Kavi Jezzie Hockaday

           

Quero um amor analógico, revelado com paciência na câmara escura do coração. Nada de imagens instantâneas, que aparecem no momento, e da gratificação fácil, enganosa que dão.

Quero um amor com fios onde o wireless reina supremo. Um amor como as cassetes, que é preciso virar para ouvir o lado B, cuja fita se embaraça e pede destrinça. Quero um amor denso, que se possa ver e tocar, com episódios semanais por que é preciso esperar – não dessas séries que se vê de uma assentada, em maratonas de madrugada e de fim de semana, e que se esquece logo que acabam.

Quero um amor apurado, que não seja mera fast food; um amor que leve o seu tempo a cozinhar, com ingredientes exóticos e simples, misturados a olho por uma mão que conhece. Um amor que venha com brinde e lance pega-monstros comigo.

         Quero um amor novo, não em segunda mão, comprado na Zara ou made in China. Quero um amor digno, roupa de cerimónia que se veste todos os dias, que não tenha de guardar para a missa de domingo. Quero um amor que persista. Um amor vintage, que não saia de moda e a que possa sempre voltar, a peça básica sem a qual nenhuma funciona.

Quero um amor que não precise de lançar cartas para adivinhar sortes nem desfolhar malmequeres. Um amor de criança, eterno e inocente, que me estale na boca, como as Peta Zetas das tardes em que o tempo não se movia.

Um cubo mágico, com a dose certa de desafio, mas que sempre se refaça depois do desalinho. Um amor que aperte uma pestana nos dedos e peça o mesmo desejo de olhos fechados.

Quero um amor peregrino, assombrado pelas mesmas perguntas que eu, que acerte o passo comigo e ouça o silêncio comigo. Que me lave os pés e eu a ele. Talvez seja inveja de quem teve um Tamagotchi, mas quero um amor de que possa cuidar.

Quero um amor que me leia em braille e conheça as linhas com que me coso. Só lhe vou pedir que me passe a ferro. 

 

Fotografia: 2019 © Francisco Amaral – Todos os direitos reservados

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