Confundir para reinar
Não tenho televisão há tanto tempo que já nem penso naquilo que é o meu normal. Em compensação, o computador faz horas extraordinárias e leva-me muitas vezes ao YouTube, de que a IA também tomou posse. De há meses para cá, têm-se multiplicado os canais que reproduzem ensinamentos de autores conhecidos, vivos e menos vivos, com vozes que imitam as originais e conteúdos suficientemente próximos para serem reconhecidos, embora nem sempre.
Desde Jung – um dos grandes favoritos – até Alan Watts, Shi Heng Yi e Mel Robbins, muda a personagem, mas a mensagem é a mesma, às vezes palavra por palavra. Quanto mais clico em “Não recomendar este canal”, esperando que a plataforma se atenha às minhas preferências, mais profusamente eles brotam, manuseando os conceitos e o jargão que estiver na ordem do dia, e passando por cima de anacronismos óbvios. Os criadores dos ditos canais descobriram miraculosamente segredos nunca revelados dos vultos mais eruditos e influentes da nossa cultura e prestam-se a partilhar com o público as pepitas de ouro extraídas de baús misteriosos. Consta que os sábios de outros tempos tinham resposta enciclopédica para tudo e uma visão profética dos dilemas dos nossos dias, dominando a teoria do apego e as linguagens do amor de trás para a frente e da frente para trás.
Se numa fotografia gerada por IA ainda se consegue perceber que o Ronaldo só tem quatro dedos na mão, quem não conhece a obra dos autores mimetizados de forma grotesca por estes canais não tem à primeira vista como distinguir o verdadeiro do falso, com o falso a sobrepor-se cada vez mais ao que é autêntico. Desde a distorção aparentemente inócua do pensamento e das palavras do autor em causa até à mais pura fabricação, não falta por onde escolher. Que o YouTube permaneça impassível e faça possivelmente lucrar estes oportunistas, depois de nos anos da “pandemia” ter expulsado tantas vozes humanas que tiveram a ousadia de divergir da narrativa oficial, é de lastimar.
A esta hora, muitas figuras do passado andarão às voltas no túmulo com a desfiguração do legado que deixaram. Os plagiados do presente, com um valor mais questionável, terão de se haver apenas com a azia no estômago, apesar de a publicidade não deixar de os beneficiar. A mim, o bigode omnipresente de Jung aproveitou hoje um momento de distração para me sussurrar num título que “ele” estava a pensar em mim, expondo o defeito da IA nessa peganhenta vontade de agradar. Os sinais vão ficando cada vez mais subtis, mas eis que se veem.

Fotografia (recorte): 2023 © Francisco Amaral – Todos os direitos reservados


