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Na Pegada do Silêncio

" ‘You are a lover of silence’, he said". H. W. L. Poonja

" ‘You are a lover of silence’, he said". H. W. L. Poonja

Na Pegada do Silêncio

26
Jun23

Inocência ou loucura?...

Sónia Quental

Captura de ecrã 2023-06-25 135333.png

 

I don’t have anything to lose. I can afford to be a fool. 

Byron Katie

 

 When I first realized there was only me, I began to laugh, and the laughter ran deep. I preferred reality to denial. And that was the end of sorrow.

Byron Katie

 

 

            

Percebi que um mestre espiritual só é levado a sério se usar tanga. Se tiver tido o azar de nascer no Ocidente e, pior ainda, se for americano, precisa de ter uma elaborada concetualização filosófica e ser pouco dado à ternura ou corre o risco de ser confundido com os desatinos New Age. Há uma certa distância que é preciso manter do comum dos mortais para se ocupar com dignidade o pedestal destinado aos gurus.

Cheguei a essa conclusão quando pensava em escolher um livro de Byron Katie* para oferecer, mas não sabia se seria indicado para a pessoa em causa e resolvi procurar avaliações de outros leitores e pesquisar críticas na internet para perceber como tinha sido recebido (sendo que eu própria já conhecia essa e outras obras da autora).

Apesar da morbidez que espiga nestes meios, os comentários sórdidos do Goodreads e de sites em que analisavam o seu trabalho recorrendo a conceitos psicológicos e filosóficos vazios deixaram-me atónita. Leitores que se socorriam do seu “pensamento crítico”, de uma bagagem intelectual e académica e da sua experiência horizontal de vida para proferir um veredicto de legitimidade sobre alguém que não se encontra no mesmo nível de consciência, chegando ao ponto de ridicularizar que o “despertar” de Katie tenha acontecido quando estava deitada no chão e se apercebeu de uma barata no pé – algo que estes críticos de algibeira não consideram provável. O caso é agravado por se tratar de uma mulher que pouco tempo antes fora alcoólatra, vivera deprimida e com pensamentos suicidas, o que os defensores da tolerância e do não julgamento acham mais uma vez difícil de conciliar com a sua moral vanguardista e a sua mente iluminada.

O que Byron Katie faz no seu “Trabalho” não é a desconstrução de crenças irracionais do cognitivismo. O seu questionamento não é uma técnica de psicoterapia, tendo, sim, como propósito último levar o sujeito que a ele responde para além da mente e do ego. Katie faz publicamente e sem aparato teórico o mesmo que outros professores têm maior relutância levar às últimas consequências: mais do que silenciar a mente por momentos, trata-se de questionar o vício de pensar e de acreditar nos próprios pensamentos, que tem a sua génese na perceção da dualidade. Embora se empenhe em desmistificar as narrativas que causam sofrimento, a sua abordagem faz derrocar a estrutura dos nossos processos mentais. Extrapola-se que não só o “Penso, logo existo” é uma crença equivocada, como o pensamento em si é um logro, sugestão que gera reações de incompreensão, confusão e recusa violenta ao invalidar o que o Homem moderno tem como núcleo da sua identidade.

Essas são secundadas pela incompreensão de alguns que parecem acompanhar o “Trabalho” e empenhar-se nele. Em todos os círculos de vocação espiritual há seguidores que tendem a levar uma prática ou ensinamento ao extremo, perdendo o equilíbrio, o discernimento e transformando-os numa caricatura da proposta original, porque não souberam captar a sua essência. Hoje em dia, com a influência sombria de certos escândalos mediáticos, é tentador colar o rótulo de “culto” em qualquer aglomerado de pessoas que se reúnam em torno de um líder espiritual, embora Byron Katie seja a antítese da soberba – talvez por isso seja tão tentador chamá-la louca. Cai-se na distorção de em tudo ver cultos, depravação ou tudo confundir com o New Age, descartando-se levianamente como fake o que não tenha filiação com uma escola religiosa ou espiritual consagrada.

O hábito e a necessidade de dar nomes desconcertam os devotos da tradição, que gostam de saber situar-se para proferir as suas sentenças. Em muitos dos comentários que encontrei no Goodreads, a opinião autorizada era: “não recomendo”. Se ainda não conhecesse os livros, seria motivo bastante para ir a correr comprar a obra completa.

            

My job is to delete myself. If there were a bumper sticker representing my life, it would say: CTRL-ALT-DELETE: WWW.THEWORK.COM.

Byron Katie

 

*Refiro-me concretamente ao título A Mind at Home with Itself, que prefiro ao Loving What Is. Este último, porém, foi traduzido e publicado em português há um ano pela Albatroz. Desconheço a qualidade do trabalho de edição, mas desconfio dela, por tratar o leitor por “tu” logo no título da obra (Ama a Vida como Ela É).

23
Jun23

Mente que mente

Sónia Quental

A preto e branco - Madalena (03.12 (4).jpg

All these disturbances and thoughts are like rats in the home of peace, so you have to be like a cat.

H. W. L. Poonja

 

You can have ten thousand thoughts a minute, and if you don’t believe them, your heart remains at peace.

Byron Katie

   

           

A mente acorda queixosa. A vida vai torta, o mundo não gira como ela queria. A órbita da Terra é incerta e o controlo que exerce sobre ela é pouco. Os queixumes são a forma que aprendeu de regatear favores.

A mente acredita em si mesma, põe fé nos pensamentos. Ao menos esses são seus. Ou seriam, porque a mente ouviu um dia que não se deve acreditar neles. Fica perplexa. Pensa que, se os pensamentos acabam, ela acaba. E a mente não quer acabar.

Quer cobrar todas as promessas não cumpridas que alguma vez lhe fizeram, atirá-las à cara dos faltosos, banquetear-se de rancores. Quer continuar a compilar a lista de males sofridos, que já vai mais comprida do que a lista de livros que leu. Mas gosta de ambas, porque tem queda para listas e gosta de cultivar pequenas vaidades. Gosta de pontualidade e de clamar por justiça.

A mente é inflexível na sua recusa de perdão. Também não gosta de jejuar, mas pelo menos levanta-se cedo. Há vezes em que nem chega a passar pelo sono, porque tem muito que fazer, problemas a resolver, o apuramento de todos os comos e porquês desde o início dos tempos. Para ela, o mundo está sempre à beira do apocalipse. Um pequeno deslize, uma distração involuntária e tudo se acaba.

Quer acordar outro dia queixosa, discutir com a vida do nascer ao pôr do sol, ter a última palavra. A sua fome de mais nunca se aplaca, tal como a busca de responsáveis: os outros, a própria, Deus, o conformismo das massas. Deve haver alguém implicado em tudo o que vai mal, a quem possa pedir contas e obrigar a desfazer o que está feito.

A mente quer encontrar o vilão da história. Quer estar em todo o lado menos aqui, ser tudo menos contente. Acha que aceitar é conformar-se – calar-se, desaparecer. E a mente não quer capitular, ficar sem ocupação. Tem-se como imprescindível, narradora sem a qual a história não avança. E ela gosta de histórias e de protagonismo. Tem sempre desculpas para interromper o silêncio e fazer-se escutar. Caso contrário, faz birra.

Mesmo assim, o Amor vem para a abraçar. A mente emudece de pasmo.

 

Recorte de fotografia de: 2018 © Francisco Amaral – Todos os direitos reservados

 

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Na Pegada do Silêncio by Sónia Quental is licensed under CC BY-NC-ND 4.0

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