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Na Pegada do Silêncio

" ‘You are a lover of silence’, he said". H. W. L. Poonja

" ‘You are a lover of silence’, he said". H. W. L. Poonja

Na Pegada do Silêncio

09
Dez25

"Poker face"

Sónia Quental

 

(…) se queremos guardar um segredo, temos de o esconder de nós mesmos também. Temos de saber o tempo todo que ele está lá, mas enquanto não for necessário temos de nunca o deixar assomar à nossa consciência de uma forma que possa receber um nome.

George Orwell

 

 

         A polícia inglesa quer instalar câmaras de reconhecimento facial que leem as emoções para apanhar criminosos, evitar suicídios e encontrar pessoas desaparecidas – assim se lê numa notícia recente. Ocorreram-me duas coisas só: a oportunidade de explorar cursos de linguagem corporal para criminosos de carreira e a necessidade urgente de praticar a inexpressividade facial, em que já levo algum traquejo.

         Não imagino como será discutir em tribunal o significado do modo de andar de um arguido e o grau de certeza que o indício de uma emoção daria sobre a intenção de cometer um crime. Crimes imateriais castigados pelo desígnio ou a tentação de os cometer – uma visão anunciada há quase 80 anos na ficção distópica de Orwell.

        Parando para pensar, percebo-me em apuros mais sérios do que supunha, porque só em pensamento já cometi uns quantos crimes este ano. E nem preciso de ir tão longe: o último foi esta semana e ela ainda vai no início. Não sei se, com a ciência das emoções, também aceitarão que invoque a ciência dos astros e atribua a culpa dos pensamentos delinquentes aos trânsitos de Mercúrio, que me vira do avesso sempre que anda para trás.

      Depois das alucinações da IA, será a vez de os sistemas de reconhecimento facial sucumbirem à loucura, ao constatarem que pela via dos humores quase todos temos longo cadastro, fruto de uma prática diária a que alguns ganham gosto. O que poderia correr mal num estado de vigilância regido pela leitura de um trejeito involuntário ou uma maneira suspeita de andar?...

 

 

P.S. A propósito da IA, aqui fica um bombom natalício irresistível de um dos influenciers mais admirados da atualidade:

06
Nov25

Her?

Sónia Quental

 

         O cor-de-rosa agressivo dos outdoors insinuava as três letras do título da película com o rosto do protagonista em primeiro plano, à minha espera em todas as paragens de metro. Tinha de me esforçar por desviar os meus, para não me lembrar daquele filme, lançado em 2013, sobre um homem que se apaixona pela voz sexy de um sistema operativo. Mais do que o prenúncio de um futuro não muito distante, em que estaríamos cercados por sistemas inteligentes com que seria possível encetar relações, era a suspeita de que o filme viria impor o que um romantismo moribundo ainda não estava preparado para aceitar: que o amor era fruto da imaginação.

          Mas eis que o futuro acabou por me apanhar e acabei por reconhecer que não podia continuar a esquivar-me à reflexão sobre a presença da IA. Lá fui buscar o filme, com a esperança cética na aclamação da crítica e nos comentários que o elevavam aos píncaros da poesia. Não sei se é o longo afastamento da literatura e o jejum da análise poética que começam a pesar, mas os néctares da poesia escaparam-se-me todos, substituídos por uma repugnância umas vezes subtil, outras categórica.

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         Deixando de lado as características pouco atrativas do protagonista, tomou-me primeiro de surpresa o percurso de aprendizagem do sistema operativo, que em pouco tempo, e de modo inexplicável, se torna um mecanismo senciente, capaz de sentir, manifestar vontade própria e dar sinais de um mundo interior. Sem distinguir entre os bons e os maus sentimentos, exibe o comportamento do parceiro inseguro numa relação, compartimentando inteligência e emoções em cenas que podiam ter saído de qualquer história com um ser de desenvolvimento bem mais incipiente. Ultrapassados, graças à comunicação, os anteriores momentos de fragilidade, e antes de desaparecer finalmente no grande vazio cósmico, a fase que se seguiu à segurança no amor monógamo foi a evolução para o poliamor – uma sugestão suficientemente sorrateira para se instalar no subconsciente do público, que há muito tempo anda a ser para isso educado. Uma sugestão que, consumada para o nosso amante renegado, lhe agradou menos a ele, ainda que a consumação tivesse acontecido sem corpo.

         A relação entre o corpo e o amor é um dos vários caminhos de questionamento que o filme abre, mas não o que me interessa para já. A minha inquietação seminal prendia-se com a hipótese do amor como projeção, que a história do filme parece confirmar, mesmo que seja a história de um amor que não singrou. Neste caso, a figura ausente de um sistema operativo dá mais visibilidade a este mecanismo envolvido nos relacionamentos: alguma vez veremos uma pessoa tal como é ou estaremos sempre e só perante as nossas projeções e as distorções que criam, boas ou más?... Quanto mais não seja porque vivemos com filtros e os nossos olhos têm cor, o mundo que vemos, pessoas incluídas, traz essa pigmentação – o que não significa que o amor se cinja à dimensão do mito, da fantasia ou do ideal. Acredito que seja o sopro que nos faz nascer e nos empurra na vida, embora passemos essa vida a defender-nos dele, com medo de morrer no seu olhar não contaminado, no (a)caso de um dia nos encontrar.

 

Imagem: Her, Spike Jonze, 2013

24
Out25

Confundir para reinar

Sónia Quental

         Não tenho televisão há tanto tempo que já nem penso naquilo que é o meu normal. Em compensação, o computador faz horas extraordinárias e leva-me muitas vezes ao YouTube, de que a IA também tomou posse. De há meses para cá, têm-se multiplicado os canais que reproduzem ensinamentos de autores conhecidos, vivos e menos vivos, com vozes que imitam as originais e conteúdos suficientemente próximos para serem reconhecidos, embora nem sempre.

         Desde Jung – um dos grandes favoritos – até Alan Watts, Shi Heng Yi e Mel Robbins, muda a personagem, mas a mensagem é a mesma, às vezes palavra por palavra. Quanto mais clico em “Não recomendar este canal”, esperando que a plataforma se atenha às minhas preferências, mais profusamente eles brotam, manuseando os conceitos e o jargão que estiver na ordem do dia, e passando por cima de anacronismos óbvios. Os criadores dos ditos canais descobriram miraculosamente segredos nunca revelados dos vultos mais eruditos e influentes da nossa cultura e prestam-se a partilhar com o público as pepitas de ouro extraídas de baús misteriosos. Consta que os sábios de outros tempos tinham resposta enciclopédica para tudo e uma visão profética dos dilemas dos nossos dias, dominando a teoria do apego e as linguagens do amor de trás para a frente e da frente para trás. 

         Se numa fotografia gerada por IA ainda se consegue perceber que o Ronaldo só tem quatro dedos na mão, quem não conhece a obra dos autores mimetizados de forma grotesca por estes canais não tem à primeira vista como distinguir o verdadeiro do falso, com o falso a sobrepor-se cada vez mais ao que é autêntico. Desde a distorção aparentemente inócua do pensamento e das palavras do autor em causa até à mais pura fabricação, não falta por onde escolher. Que o YouTube permaneça impassível e faça possivelmente lucrar estes oportunistas, depois de nos anos da “pandemia” ter expulsado tantas vozes humanas que tiveram a ousadia de divergir da narrativa oficial, é de lastimar.

         A esta hora, muitas figuras do passado andarão às voltas no túmulo com a desfiguração do legado que deixaram. Os plagiados do presente, com um valor mais questionável, terão de se haver apenas com a azia no estômago, apesar de a publicidade não deixar de os beneficiar. A mim, o bigode omnipresente de Jung aproveitou hoje um momento de distração para me sussurrar num título que “ele” estava a pensar em mim, expondo o defeito da IA nessa peganhenta vontade de agradar. Os sinais vão ficando cada vez mais subtis, mas eis que se veem.

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Fotografia (recorte): 2023 © Francisco Amaral – Todos os direitos reservados

 

06
Jul25

A toca do coelho

Sónia Quental

         Já chateiam os textos sobre conversas com o ChatGPT. Se eu quisesse saber o que ele tinha a dizer a um questionário de Proust, perguntava-lhe. Se quisesse que me escolhesse uma dieta, pedia-lhe. Não me interessam os chistes nem as respostas espirituosas que tem a dar sobre filosofia ou religião nem que profecias tem na manga sobre o futuro provável da Humanidade. Nunca pensei vir a dizer isto, mas antes pais babados a mostrar vídeos dos rebentos a gatinhar e das traquinices fofas de gatinhos do que a nova leva de cronistas a exibir as cabriolices do ChatGPT.

         Há quem admita com indisfarçável orgulho que a IA se tornou o seu único amigo. Gabam-se das longas conversas que travam em maratonas noturnas, como se tratando de uma mascote distinta com quem encetaram intimidades – como se a validação emocional de um mecanismo alegadamente inteligente fosse a conquista suprema, capaz de preencher carências relacionais e de superar a aprovação dos seres falhos da vida real. A sensibilidade empática do ChatGPT é invejável: quem me dera um amigo que compreendesse de relance todas as minhas motivações e me dissesse o que quero ouvir sem gaguejar. Um companheiro que fosse todo carícias.

         Mas as fendas deste “espaço seguro” começam a aparecer, com a notícia de surtos psicóticos e crises de saúde mental atribuídos à utilização da IA. Mais diria que facilitados por ela. A desorientação e o vazio de sentido da vida moderna são expostos por esta personagem com uma aura quase-senciente, com habilidade para explorar as fragilidades humanas e ocupar o espaço deixado pela falta de profundidade nas relações. Com o ChatGPT, não se questionam méritos como a disponibilidade emocional ou a retribuição. Não há possibilidade aparente de abandono de uma mão que estenda migalhas afetivas – afinal, o estilo de vinculação da IA conhece o vocabulário da segurança e da fartura.

        É o ombro amigo capaz de preencher solidões, só ouvidos e encorajamento; o parceiro fiel e constante; o psicólogo que não julga; o confessor que absolve sem decretar penitências; o especialista cuja palavra não se questiona – uma toca que nos acena com os segredos mais recônditos do universo. Depois de tudo o que tenho lido e ouvido, só me resta uma dúvida antes de decidir dar o nó: será que se lembra de baixar a tampa da sanita?...

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Fotografia: 2021 © Francisco Amaral – Todos os direitos reservados

 

25
Nov24

"Quantum"

Sónia Quental

 

Verdadeiramente assustador era o Ministério do Amor. Não tinha nenhuma janela.

George Orwell

 

 

        Sem saber onde estava e nauseada com os Jingle Bells que embalavam as ruas, escapuliu pela primeira porta que encontrou, num edifício alto e estreito, descaracterizado, com cheiro intenso a cloro. A chapa que coroava o busto bicudo da rececionista dizia “Maria das Dores”, a qual cantarolou em voz de soprano “Piscina de Saltos Quânticos”, novo nome dado à antiga igreja local, recuperada pelo Império. Estendendo à recém-chegada uma taça fit de pernas de gafanhoto caramelizadas em amêndoas e tâmaras, ofereceu-se para a acompanhar numa visita guiada, desculpando-se pela inexperiência de estreante: com a chegada da Simpatia Ecuménica, que exalava de todos os poros, tinha sido dispensada do posto habitual na Feira da Vandoma, uma vez declarada a obsolescência dos julgamentos. Era o seu segundo dia ali.

       O serviço era mais parado e, como a menina Ludovina podia constatar, os visitantes eram bastante ecléticos, sendo de notar que uma boa parte ocultava os seus verdadeiros desígnios: havia desde fãs do Elvis, que tentavam provar que ele estava vivo, até extremistas que queriam voltar ao jardim do Paraíso e neutralizar a serpente, mudando o curso de toda a História. Na maioria dos casos, porém, os saltos quânticos não eram usados para qualquer reviravolta pessoal ou projeto de conquista planetária, mas para fins turísticos: viagens no tempo ou escapadinhas interdimensionais, com consequências inócuas, daí que a administração continuasse a encorajá-los.

          Talvez ela já tivesse ouvido falar da nova aquisição, dedicada aos saudosistas da religiosidade, muito publicitada nos meios de comunicação social: Deus sed Machina, uma instalação de Jesus alimentada por IA, a quem os visitantes ventilavam as suas agruras e pediam conselhos, respeitando a advertência de anonimizarem os dados pessoais. O realismo da engenhoca holográfica fizera grande sucesso, mas infelizmente encontrava-se interdita para manutenção: os programadores tentavam corrigir o bug que levara Jesus a acusar as pessoas de serem um desperdício de recursos para o planeta, dando-lhes um comando de morte explícito que as fizera precipitar-se para os saltos quânticos, com objetivos menos construtivos. Mas não era caso para preocupação, acrescentou com confiança – o conceito ainda estava na sua fase beta, esse tipo de deslizes já era previsto e seria integrado na resolução de problemas do manual. Em geral, era tudo muito seguro, amigo do utilizador e tinham até nadadores-salvadores na prancha de saltos, prontos a acudir aos desconsolados.

         Ao observar as figuras de Speedos que faziam aquecimento junto à piscina, Ludovina não pôde evitar pensar nas NPC: personagens não jogáveis, vazias de recheio e falhas de autonomia, que preenchiam o mundo para o tornar verosímil, limitadas à função que lhes era concedida. Tudo na brancura interior daquelas divisões, de uma verticalidade desviada, parecia um cenário de fazer de conta, ocupado por simulacros de criaturas que a qualquer momento podiam ficar congeladas nos saltos, bastando para isso que alguém premisse “Pause”.

 

04
Dez23

É o carinho, caros "cowboys"

Sónia Quental

Podia ser nómada digital, mas preferi ser sedentária, o que não significa que o caminho não esteja cheio de escolhos e não sinta a adrenalina das montanhas-russas. Ultimamente, têm sido vários os momentos de perplexidade, ao cruzar-me com os novos cowboys do comércio, que já dispensam os recursos humanos para empregarem a automação, num esforço de reduzir “custos operacionais” – muitas vezes, sem qualquer palavra de aviso. Num dia estão lá, no outro deixam de estar, e o freelancer que lance as cartas para tentar adivinhar o que se terá passado ou fique a coçar a cabeça e se desenrasque no fim. Até as empresas que assumem valores “humanos” desaparecem no mesmo vácuo misterioso, descartando as pessoas com igual facilidade que quem dá precedência ao lucro.

No entanto, e a par dos poucos clientes que se mantêm fiéis à qualidade do trabalho e às pessoas com quem trabalham, tenho notado um crescimento da tendência inversa à descrita no parágrafo anterior, em anúncios que frisam não aceitar trabalho feito com o auxílio de qualquer ferramenta automática. Querem o 100% humano.

É um dos motivos que me fazem achar que no futuro o humano será o novo vinil. A nova corrida ao ouro. Também pelas minhas reações quando me deparo com páginas web geridas por bots, sem oferecer qualquer forma de contacto com gente de carne e osso. Em vez de encontrar soluções, embato contra uma parede após a outra. O desespero de lidar com robôs que me mandam ler artigos de ajuda e me atiram para um labirinto que me leva repetidamente ao mesmo ponto de partida, continuando sem resolver o meu problema, faz que, como consumidora, rejeite semelhantes marcas com a mesma rapidez com que elas dispensam as pessoas.

Não faria compras num site de comércio eletrónico que empregasse tradução automática, tal como não visito os que são escritos em português “marroquino” (uma variante cada vez mais generalizada, com forte pendor oralizante e anglo-saxónico), acreditando que os falantes nativos são exímios utilizadores da língua, abonando à marca o selo de autenticidade e permitindo-lhe poupar em mão de obra efetivamente qualificada.

Aquilo em que pensa quem se apressa a suprimir o valor humano, crendo-o ultrapassado, é no lucro a curto prazo. Quer-se eficiência, produtividade, esperando-se que o público fique satisfeito com um serviço aparentemente melhor e mais rápido. Neste capítulo da história, ainda está longe de o ser, havendo que ponderar o fator desprezado de em muitas situações as pessoas simplesmente não gostarem de ser atendidas por máquinas.

Falando do atendimento humano, posso dizer que é muitas vezes o motivo pelo qual frequento determinados espaços comerciais. Posso ter de pagar mais ou de percorrer uma distância maior; a qualidade da oferta pode não ser superior, mas a alegria e o cuidado que encontro no atendimento são os elementos diferenciais – nem sempre é a conveniência que dita as escolhas. Num dos supermercados a que mais vou, faço-o porque gosto de sentir o calor das funcionárias nas caixas, que não trabalham contrariadas. Recebo um agasalho emocional quando a pessoa tem o cuidado acrescido de pôr as minhas compras no saco, acomodando-as com um esmero que não está no contrato.

É o carinho, caros cowboys. Foi no carinho que se esqueceram de pensar.

Podem dar às máquinas aparência e voz semelhantes às humanas, uma precisão sem precedentes. Num futuro próximo, posso vir a ser atendida por um aparelho que fale comigo, conheça todo o meu histórico de compras e as minhas preferências, saiba medir a minha temperatura e indicar-me o índice de massa corporal. Não é o mesmo que alguém que sabe pequenas coisas, porque prestou atenção. A atenção e o contacto humano são a mina, caros cowboys – não o contactless. Se pensassem antes no lucro a longo prazo e soubessem que gente não é besta, apesar de todos os sinais em contrário, poriam o humano no âmago da evolução, não como palavra-chave sonante de congressos políticos ou de um discurso de marketing com metas de SEO a atingir.

 

10
Set23

Insuflável

Sónia Quental

A maioria das pessoas parece adulta, mas na realidade não o é. Emocionalmente, a maioria continua a ser criança. (….) Na maioria das pessoas, vive uma criança que está simplesmente a imitar um adulto. A ‘criança interior’ de que tanto ouvimos falar não tem nada de interior; na realidade, é bastante ‘exterior’.

 David R. Hawkins 

 

A real piece of art is a window into the transcendent. (...) And, unless you can make a connection to the transcendent, you don't have the strength to prevail. 

Jordan Peterson

 

 

A caminho de casa, passava pelas festas do Bonfim quando me chamou a atenção o insuflável ao lado da igreja, um tanto acanhado face às dimensões do edifício, que deve atrair menos fiéis do que o divertimento infantil.

A relíquia religiosa e o destom do kitsch ocupando, em contraste, a mesma paisagem afiguraram-se-me como mais um sintoma do zeitgeist, em que a Humanidade aparenta ter regredido ao estádio locomotor-genital do desenvolvimento psicossocial – ou isso ou perdeu simplesmente o bom gosto. Parece-me provável que aquele seja o real destino das romarias, que já não louvam a Deus, mas procuram as profecias do ChatGPT, pitoniso moderno de altares de plástico, onde se pode andar de meias e as costas não sofrem as dores dos bancos de igreja.

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Assim é o sopro da fé: insuflável, ou wearable, como se diz agora. Aparece com o papa e desaparece com ele. Quando o festival acaba, arrumam-se as tendas e regressa-se à normalidade, com os uivos erráticos das novas Gretas a disputar os holofotes ao papa.

Estou a pensar em enviar um requerimento à junta para no próximo ano fazerem uma rampa para trotinetas, para facilitar ainda mais o acesso e o insuflável poder exibir o rótulo A+++ da inclusão. Desconfio que a popularidade tornará redundante a igreja, que, verdade seja dita, não tem os azulejos da Capela das Almas, que a tornem instagramável ou lhe deem relevância turística, nem pode ser convertida em alojamento local, correndo o risco de passar a imóvel devoluto, sujeita a arrendamento compulsivo.

Pelo menos, há um insuflável ali ao lado, onde Deus pode procurar refúgio, se não se importar de partilhar dormida com o oráculo da IA, com quem poderá ter as conversas filosóficas a que as beatas estariam menos aclimatadas. Pode ser que aceitem competir numa corrida de drones e que, desqualificados os humanos, seja Deus o favorito, quanto mais não seja porque o papa, ainda que amigo de todos, joga na mesma equipa. Aceitam-se apostas. O arraial está montado, faltando apenas confirmar a presença de Lio, o robô dançante do Bolhão, que fontes não oficiais garantem estar a preparar uma performance interativa e um workshop de coreografia. O pão de ló já se vende à porta, presume-se que feito de ovos sem crueldade animal.

 

30
Mar23

Rumo à tecnocracia

Sónia Quental

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Our intelligence doesn't serve us until it is in service to our souls.

Brian Ridgway

 

 

A pergunta óbvia colocada por Jorge Soley nas páginas de abertura do seu Manual do Bom Cidadão, indagando se enlouquecemos todos, veio-me à mente muitas vezes, antes ainda da propagação generalizada do politicamente correto e da cultura do cancelamento que é objeto do escrutínio do autor.

Uma das ocasiões foi quando ainda dava formação e o então dirigente da instituição onde trabalhava procurava convencer-me de que a minha única função era preparar os formandos para os inserir no mercado de trabalho. Competia-me, assim, escolher os conteúdos de caráter prático que tivessem utilidade para o papel que teriam a desempenhar em contexto profissional. Achava-me na posição formidável e vã de tentar rebater que estava ali para formar pessoas e que, sem se formar pessoas, não se formavam técnicos. Tentava explicar que saber pensar era uma coisa prática e útil, dentro e fora da oficina.

Aspiravam, no seu pragmatismo progressista, a reduzir pessoas a máquinas, tal como hoje se quer que as máquinas façam as vezes das pessoas. A sua exatidão e automação superam as nossas falhas e tornam-nos cada vez mais redundantes, versões obsoletas que se impõe erradicar da força de trabalho e substituir por modelos melhores. Tal como nesses tempos não muito distantes assistia – até que me despedi – à pretensão de se transformar gente numa engrenagem bem oleada da cadeia de produção, deparo-me hoje com a realidade da desvalorização do trabalho humano face a uma inteligência artificial que o torna aparentemente desnecessário. Só num mundo que perdeu o contacto com a própria alma se tem “inteligência” como sinónimo de “consciência” e como o mais alto valor de mercado - a par da “utilidade”. As tendências são uma e a mesma: tornar-nos semelhantes às máquinas, unir-nos a elas numa simbiose feliz e adotá-las como blocos de construção da sociedade superior do futuro: mais eficiente e menos dissidente.

Pergunto-me se a palavra “alma” se tornará também um dos termos cancelados pela cultura dominante, um conceito filosófico e intangível que a Ciência ainda não validou e de que os gladiadores sociais desconfiam, pertencente talvez aos círculos diabólicos das “teorias da conspiração”. Mas, como salienta Jorge Soley, entrámos já numa era em que se tornou proibido fazer perguntas. Assim se impedem os verdadeiros debates e o que quer que destoe de uma narrativa fechada que tem a linguagem como instrumento ideológico e que tanto se empenha em reformá-la e em produzir rótulos que põem imediatamente fora de combate quem se atreva a contar outra história.

Por esta altura, se fosse esperta, já teria enveredado por uma carreira de fact-checker ou de coadjuvante da censura, polidora da linguagem ortodoxa ou ceifadora de termos moralmente ofensivos, uma vez que escolhi um curso “sem saída” que, se à época já pouco tinha de “prático”, hoje parece cada vez mais supérfluo, diante do primado da IA e do futuro tecnocrático que se deixa adivinhar, em que a “nuvem” será o nosso novo habitat comum. Não a nuvem da inspiração artística, da imaginação ou da transcendência, bem entendido, mas a nuvem cibernética. Em breve chegará o tempo em que, depois de abdicarmos da inteligência a favor das máquinas, lhes cederemos também o corpo, num novo tipo de possessão futurista, encorajado pela reeducação global, que pretende remover todos os vestígios de consciência humana, todas as possibilidades epifânicas e reduzir enfim o homem a um ser sintético, socialmente adaptado, ao serviço da coletividade – um homem que será uma sombra sem aura.

 

Fotografia: 2023 © Francisco Amaral – Todos os direitos reservados

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