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Na Pegada do Silêncio

" ‘You are a lover of silence’, he said". H. W. L. Poonja

" ‘You are a lover of silence’, he said". H. W. L. Poonja

Na Pegada do Silêncio

07
Nov23

Autobiografia às avessas

Sónia Quental

           

Especializei-me em não saber. Comecei por não saber o que queria ser quando crescesse e depois tomei-lhe o gosto. Quando cresci, desinteressei-me de ser alguma coisa.

Foi-me mais fácil ir descobrindo o que não queria, apesar do susto que dava. Não queria uma vida normal, mesmo quando julgava que sim. Não queria sumir-me no mofo asfixiante da banalidade.

Não queria viver na mentira, onde quer que ela estivesse. Como nos cruzávamos muitas vezes no trabalho, deixei o trabalho. Não sabia o que seria de mim quando viesse embora, mas vim. Tal como não soube porque tinha de passar a comer vegetais quando a ideia veio. Não me sabia orante até que a oração brotou.

Não soube porque me abandonou a vontade de ler literatura ou que fome era a que sentia, que já não se saciava com ela. Atirei a culpa disso para o fundo do subconsciente, já apertado para a acomodar.

Não soube porque tinha de abdicar dos dons que recebera, mas deixei-os morrer na memória – com eles, o orgulho que me restava e qualquer aspiração a ser especial. Com o passar do tempo, em vez de acumular conhecimento, deu-se o caso de o subtrair.

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Não soube porque precisava de deixar pessoas para trás, mas deixei e continuo a trazer na carteira a tesoura de cortar laços e nós.

Não sabia como comprar casa e pagá-la, mas comprei e agora o condomínio quer-se vingar.

Todas as grandes decisões de vida não vieram de mim, mas de Algures. Quando perguntava porquê, saía-me de dentro o silêncio abotoado do “porque sim” e eu que me cosesse com ele.

Nunca soube fazer conversa, mas essa é uma qualidade. Não sei o que responder quando me perguntam por projetos de vida. Não sou arquiteta. Não sei o que a vida quer de mim. Não sei o que quero dela, embora o que não quero cresça em força e firmeza. Se me perguntarem onde me vejo daqui a 5 anos, digo sem rodeios: não sei.

Hoje, que há pessoas a abrir empresas só para poderem ser CEO de alguma coisa, nem sequer preciso de abrir a minha: sou CEO do não saber e não tenho concorrência, já que todos preferem estar do lado das certezas. As atualizações são automáticas: nulas. Posso fazer tudo sozinha, sem delegar tarefas. Referências: toda uma vida dedicada à ignorância.

De não saber em não saber, por aí vou. Também não sei tocar guitarra para fazer disto cantiga, por isso uso o que me sobra: escrever, que também não sei, embora isso me dê esperanças de uma carreira no copywriting.

Espero que pelo menos de Sócrates venha um gesto discreto de assentimento quando repito: só sei que nada sei.

When you first begin, you find only darkness, and as it were a cloud of unknowing.

The Cloud of Unknowing, Anónimo (séc. XIV)

 

 

Fotografia: 2019 © Francisco Amaral – Todos os direitos reservados

01
Nov23

Chegar onde não se sabe

Sónia Quental

Para chegar ao que não sabes, 

Deves ir por onde não sabes.

 

S. João da Cruz

 

 

Com o vigor crescente de áreas como a ciência de dados, que se propõe desenvolver métodos preditivos em que basear tomadas de decisão, os dados parecem encerrar a tão desejada resposta para o domínio definitivo sobre o desconhecido.

Saber organizá-los, analisá-los e interpretá-los para desocultar tendências, fazer previsões e exercer um controlo maior sobre os resultados é uma ambição multidisciplinar, em que a ciência goza da legitimidade que outros métodos de adivinhação, de origem ancestral, não tinham, encostados ao desdém da superstição. Os dados prometem elementos concretos e mensuráveis, que basta saber decifrar para traçar o mapa do comportamento humano e escalar a montanha cada vez mais benigna do sucesso.

Mas o primado da informação para o desenvolvimento de produtos e serviços tem-se transferido também, perigosamente, para a mentoria de vida e para o negócio rentável dos relacionamentos, em que a recolha de dados se presta à composição da fórmula da felicidade. Cada guru tem o seu método infalível para encontrar e atrair o par certo, vendendo programas dispendiosos a espectros que peregrinam de desilusão em desilusão, na febre desumanizante do dating moderno.

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Se os dados têm a sua validade, somando-se à experiência própria para a avaliação de possibilidades e as necessárias escolhas, cai-se na desmesura de reduzir a complexidade humana a modelos estatísticos e desfechos calculados, na tentativa de evitar o sofrimento que advenha do erro. Acabar com a incerteza, antecipar o futuro e receber garantias para jogar pelo seguro é o que se pretende ao eliminar as incógnitas da equação.

O amor, que apenas na História recente da nossa cultura passou a motivar as uniões matrimoniais, volta a passar para segundo plano face a considerações mais características de parcerias de negócios, em que os currículos dos candidatos se medem para aferir uma compatibilidade que se preveja funcional e lucrativa, com o mínimo risco e sem margem para falências.

A vertente transformadora e sacrificial do amor, no seu sentido fecundo, vai cedendo terreno à avidez de segurança. Não se busca expandir o Eu, pondo as relações ao serviço do desenvolvimento de consciência, mas deixá-lo onde está. Os famosos “desafios”, eufemismo dileto dos tempos que correm, são percalço a evitar na esfera relacional, em que não se procuram experiências engrandecedoras, porque o que se quer é não ser perturbado.

Para isso, e para que a aposta seja ganha, há que controlar todas as variáveis, ignorar princípios da incerteza e a influência do observador, dando às probabilidades caráter de evidência. Como se o mistério não fizesse parte da vida e os “atos de Deus” não fossem mais do que alíneas sumidas num contrato que acautela calamidades.

Com a sua utilidade relativa, parece-me prudente moderar o entusiasmo com os dados, que a cada momento que passa se transformam em artefactos arqueológicos, lembrando que, se nem sempre se transformam em conhecimento, menos ainda em sabedoria ou clarividência. Cientes da nossa fundamental ignorância sobre as grandes questões da vida, não confiemos o destino à estatística. Reafirmando por outras palavras o que noutros passos tenho escrito: não se chega ao desconhecido por caminhos já batidos, por mais matemáticos que possam ser.

 

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In Lessons in Chemistry

 

17
Ago23

Valha-me a meia de leite

Sónia Quental

 

Gnosis is a moving target. Walking its path is a nomadic life. When night falls, you pitch your tent. In the morning, you pack it up, put in on your back and start walking again. Don't pitch it anywhere permanently. Be the infinite explorer.

Neil Kramer

 

 

Ouvi mais de uma vez pessoas que trabalhavam em cafés ou padarias fazerem comentários de desabafo sobre os hábitos dos clientes regulares. Exasperava-as que a mesma pessoa tomasse todos os dias o mesmo pequeno-almoço, a mesma meia de leite com o que quer que fosse a acompanhar, apesar da variedade de opções em oferta. Os motivos não são tão elementares quanto possa pensar-se, embora nem sempre sejam conscientes.

Os hábitos, por mais pequenos que sejam, são âncoras num mundo de incerteza e insegurança. Falando por mim, que convivo há muito com um grau de incógnita robusto: quase sempre, como trabalhadora independente, não me é possível saber se daqui a um mês vou ter trabalho ou ordenado, o que dificulta fazer planos. A ansiedade e o desgaste que esta situação vai naturalmente gerando ao longo dos anos são amplificados pela falta de uma estrutura familiar e afetiva de apoio. Somam-se as mudanças que vêm de fora, da sociedade, e as que irrompem de dentro, ditando-me viragens de rumo que me cabe apenas pôr em marcha. Uma consciência que não vive petrificada exige um sacudir de pele constante, um nunca pousar a cabeça duas vezes no mesmo leito.

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No meio disto, o que me vale é a meia de leite ao pequeno-almoço. Pode não ajudar a tornar mais interessante o dia de quem a serve, mas é das poucas coisas a que ainda me posso agarrar, tirando quando fecharam cafés e postigos. Aí, nem meia de leite havia.        

Acresce que a quantidade não simplifica a escolha. Quando há muito por onde escolher, a confusão é tanta que quase sempre se escolhe errado, a que se segue o arrependimento pela oportunidade perdida de tomar aquilo de que se gosta garantidamente. Alivia ter-se pelo menos uma preferência em que não é preciso pensar, que é imediata e não atraiçoa. Um pequeno prazer certo entre os tantos que falham.

Há ainda o conforto de ir a um estabelecimento onde se é conhecido. Ter alguém que sabe o que queremos e como gostamos de o tomar, sem ter de perguntar. A comunicação silenciosa e conivente que se estabelece num sítio que não é casa, mas que se torna um pouco mais como casa e que às vezes nos mima com rabanadas fora de época.

Mau grado os argumentos, sei que chegará um dia em que até este apego terei de deixar. Até lá, valha-me a meia de leite.

 

 

Fotografia: 2019 © Francisco Amaral – Todos os direitos reservados

 

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