Dualidade

Quis acertar as balanças do mundo, de olhos abertos, espada na mão. O coração não se conhecia como tal, necessário, chamado a intervir no seu peso diminuto, desmaiado nos pratos horizontais da balança.
Os olhos ardiam, a espada era lâmina sem intervalo que não cortasse de a segurar. Caía-me, sem emenda que a alçasse. Pesava-me de sua justiça que não dormia nem deixava dormir. Achava eu que bastava tirar a venda, que a justiça, como a verdade, era substância de uma camada só, que se revelava de uma vez à disposição de olhar. Mas o meu era míope, fugia-me para o coração desabituado do peso, cortado da culpa que me pesava nos braços hirtos de retidão.
No lugar da cadeira, tivera um regaço que não soubesse se sou torta ou direita – um coração acordado, onde pudesse cair com as pálpebras fechadas da inocência, sem rasgo de acusação.
Imagem: baralho Morgan Greer
