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Na Pegada do Silêncio

" ‘You are a lover of silence’, he said". H. W. L. Poonja

" ‘You are a lover of silence’, he said". H. W. L. Poonja

Na Pegada do Silêncio

21
Nov25

"Sleepwear"

Sónia Quental

Captura de ecrã 2025-11-21 203124.png

O assunto de hoje nasce de uma perplexidade que não me tem dado descanso e que considero merecer o devido escrutínio: os pijamas para mulher. Por algum motivo que ainda não consegui apurar, a maioria dos pijamas para adultas divide-se em duas categorias: a da lingerie ou dos pijamas sexy, demasiado arejados e que não foram feitos para casas sem aquecimento, e a categoria dos pijamas com personagens de BD, ursinhos e outros animais fofos.

          A escolha é, pois, entre uma sensualidade pouco prática e confortável e a infantilidade declarada, com as poucas exceções caindo no feio e no sem graça. O estranho é que muitas marcas daquilo a que agora se chama sleepwear trazem na etiqueta nomes de mulheres, que também suponho vistam pijama, daí achar pouco compreensível a condição a que reduzam o sexo feminino como um todo, condenado a ir para a cama à noite com as ovelhinhas estampadas na camisola.

         O contraste torna-se ainda mais absurdo quando, numa estimativa livre, calculo que neste momento cerca de 90% das mulheres sejam tatuadas. Qualquer que seja a figura gravada na pele e a sua dimensão, confesso que tenho dificuldade em imaginar uma mulher tatuada com um pijama da Hello Kitty ou do Bambi. E que conversa séria seria possível ter com alguém envergando bigodes de bichinhos macios? Basta dizer que nem eu consigo levar-me a sério quando vejo o focinho do Snoopy a acenar-me ao espelho.

         Será que o sono nos torna de novo crianças, mas apenas as mulheres estão sujeitas ao fenómeno? E de onde vem a teima em resgatar os animais da quinta e os bonecos da meninice para nos aconchegarem no escuro?... Por aqui, o aconchego perde-se nas dúvidas existenciais despertadas por semelhante companhia, que conduzem a insónia para assuntos desta importância, em vez de a justificarem com destinos mais graves.

 

Imagem: baralho Rider Waite

30
Set25

Desmontar relógios

Sónia Quental

         Devo ter o relógio avariado. Informam-me da projeção da Morgan Stanley segundo a qual até 2030 45% das mulheres dos 25 aos 44 anos estarão “solteiras e sem filhos”, com a fotografia de uma mulher com lágrima no rosto e avisos sérios sobre o relógio biológico e a ameaça da ansiedade e da depressão. De súbito, fez-se um clarão: devem ter sido essas que vi num dos últimos sábados na rua de Santa Catarina a gritar “Não à depressão”. Olhei em volta, a tentar perceber se a Depressão estava a assistir e se estaria já suficientemente assustada com aqueles gritos que rompiam a manhã com uma energia destemida. Não lhe pus os olhos em cima, andando há semanas intrigada sobre o resultado do protesto.

         Noto desde há algum tempo que as tendências progressistas que vieram dar elasticidade e abertura tanto à definição de “géneros” como às dinâmicas relacionais começaram a ser combatidas por uma forte reação tradicionalista, que exalta o casamento, a procriação e a construção de um legado familiar como valores a recuperar. Nos canais sociais dos famosos, vejo celebridades – com poder financeiro para tal – a terem ninhadas de 5 e 6 filhos. Se não são os 11 ou 12 da pobreza de antigamente, são representativos deste movimento de retorno à tradição e aos papéis que as mudanças na estrutura social vieram baralhar – um movimento que acusa a emancipação feminina e a narrativa de empoderamento desta revolução silenciosa.

         Podia desdobrar aqui os motivos de haver um número crescente de mulheres em idade fértil solteiras e sem filhos – motivos esses que não se devem a escolha própria nem a uma qualquer adesão à sologamia – lembrando outras mudanças sociais convenientemente deixadas de parte. No entanto, e para não me dispersar, admitamos que seja por sua vontade. A liberdade financeira das mulheres não veio simplesmente remover a dependência de um parceiro: veio dar permissão e abrir caminhos no que antes era uma rua estreita, onde todos circulavam na mesma direção, sem possibilidade de inverter a marcha ou de escolher um sentido diferente. A vida amarrava, o estigma marcava.

         Talvez a mulher tenha começado a descobrir que não vive com a obrigação de copular e procriar, que parece ser o propósito mais elevado que se atribui à raça humana, que até aqui obedeceu exemplarmente ao repto bíblico do “Crescei e multiplicai-vos”. Defender que somos programados para a “conexão e reprodução” é aceitar que apenas nos seus aspetos mais básicos e materiais essa programação biológica pode ser exercida e admitir tacitamente que o que é biologicamente programado é natural e divinamente ordenado.

          Não me lembro de ter nascido com relógio no pulso. Sei que nada no curso de vida tradicional me seduz. Depois de muita solidão, sei que não há verdadeiro empoderamento que termine nela e que a dita “conexão” não parte de fora para dentro, mas de dentro para fora. Sempre gostei mais de desmontar relógios do que de acertar o meu pelo dos outros e pensar que todos os relógios funcionam da mesma maneira. Os meus ponteiros caminham teimosamente ao contrário. A mesma teimosia com que prefiro a nudez do pulso.

 

 

While on the one hand we are programmed robots, on the other – magical creatures of possibility.

Howdie Mickoski

 

31
Jul25

Uma saia

Sónia Quental

         Uma saia pode ser arma, protesto, vaidade. Mas há uma suavidade que desarma na mulher que usa saia só por ser mulher. Com a falta de bronze a expor a pele que o sol pouco conhece, há um assomar de redondezas que se deixam ser, sem narração ou desculpa. Como a flor que abre as pétalas da fragilidade sem memória de ser esmagada, dispensando as calças da igualdade e do pragmatismo.

         Não me lembro de ver muitas mulheres usar saia quando crescia. A saia era para dias de exceção, associados ao desconforto já preparado pela decisão de a vestir – um desconforto com que certa vez um professor se mostrou solidário diante da turma do sexo feminino a que ensinava alemão e a que pertencia eu, atónita na plateia, enquanto ouvia o queixume do difícil que lhe era desviar o olhar quando as alunas levavam saia para a aula. Terá sido esse um dos momentos determinantes para a desconfiança empedernida que passei a sentir dos homens que usam bigode.

         Depois da meninice, e com a mudança do corpo, a saia começa a ser expressão de uma vaidade ainda inofensiva, até ser descoberta como instrumento de sedução, com os dissabores com que nos surpreende nas mãos do crepúsculo e das bermas de estrada. Instala-se um desconforto que, além de físico, é psicológico, quando o que se põe a descoberto desperta uma cobiça mais inclusiva do que o almejado ou a mulher começa a reduzir-se às sugestões pouco castas que a peça acorda em formato mini.

         Suponho que seja esta ambivalência que nos leve de novo, não para os braços, mas para as pernas das calças que, mesmo expondo formas, dão uma sensação de maior proteção. São práticas, rápidas e não costumam rasgar, como os collants. No começo da maioridade e geralmente durante muito tempo, ainda não nos descobrimos mulheres, como aconteceu comigo, que até há poucos anos achava que éramos mesmo iguais aos homens, tirando as diferenças óbvias, que agora parecem estar sujeitas a debate.

         Aquelas de nós que começam o caminho de descobrir quem são como mulheres dão consigo a escorregar outra vez para saias mais próximas da meninice – não nos folhos ou no feitio, mas na ausência de malícia, no achado do que assenta à nossa expressão natural, já não guardada. Mesmo que não seja a saia que faz a mulher, como sugeri num texto anterior, quando a mulher cai na saia sente um alívio que prevalece sobre o desconforto e o perigo: o alívio daqueles entes sem defesas que erguem o rosto para o sol e ocupam o seu lugar na Criação.

 

 

23
Jun25

Unhas

Sónia Quental

      Contemplo com renovado assombro as unhas postiças que as mulheres sacodem no ar. Aprendi com os contos de fadas que, se havia coisa que identificava as bruxas, eram as unhas, embora duvide de que fizessem despesa com manutenção. Nunca descobri porque alguém havia de querer ser bruxa de propósito.

        Sei que o timbre da alma é nas mãos que se vê. Tão distraídas andam todas com os floreados das unhas e os hidratantes na mala que se esquecem do que levam no côncavo – do rasto que os gestos deixam no ar.

03.08.2018 - Mãos (9).jpg

Fotografia: 2018 © Francisco Amaral – Todos os direitos reservados

 

16
Mai25

Onde está a Jane?

Sónia Quental

      Quando me desafiam a ser a minha melhor versão, apetece-me perguntar: a minha melhor versão de quê?... Mas ensinaram-me no estágio pedagógico que não se devia terminar perguntas em “quê”, porque confunde as cabeças das criancinhas. A gramática estaria desculpada se o conteúdo equilibrasse os lapsos, só que entre as selfies com os músculos a brilhar e os chavões que se repetem nas páginas de todos os personal trainers e mentores de vida, o plástico é o mesmo (ainda que reciclado).

         Força, empoderamento, superação, transformação pessoal, liderança, dominação: onde está a Jane, agora que todas querem ser o Tarzan?... Quanto maior o foco no corpo, maior a distância do centro. Mais desocupado ele fica. No caminho a que tantas vezes se compara a vida, agora transformado numa eterna prova de obstáculos, não somos apenas encorajadas a ser mais: somos intimidadas. Há um novo bullying do fitness e do autocuidado, que martela frases de motivação em bruto e tenta purgar a língua de todos os traços de negatividade, no pressuposto de que a reforma das palavras se transfira para o pensamento, onde se acredita residir o poder da mudança. Com tanta ênfase no ser mais – que se traduz em sermos a nossa melhor versão – o valor em oferta encolhe cada vez mais. Convence cada vez menos.

       Quem tanto insiste em adotar uma versão 2.0 da própria pessoa costuma falhar o que na dança se chama "passo-base": conhecer a atual. Aceita ainda que a melhor versão de todas tem os mesmos músculos de aço da conquista: física, profissional, social. É uma versão que nasce de uma lapidação tão transpirada quanto alienada – não do conhecimento, da sabedoria, do aprofundamento. Do desenvolvimento de uma luz própria, que nem sempre é toda luz, mas tem matizes de sombra. Ah, o prazer de dizer “não” quando me estendem uma liana e me atiçam a saltar de galho em galho na floresta colorida desta mesmice tonta!

 

 

10
Mai25

O lugar da mulher

Sónia Quental

           

         Ao intitular o seu artigo sobre a igualdade de género e a liderança “O lugar da mulher é onde ela quiser”, Carla Fernandes aponta-nos desde o começo o lugar a que, no seu entender, qualquer mulher aspira: a luta pela ascensão a cargos de liderança e pelo derrubar de preconceitos sociais. O vocabulário gasto daquilo que mais soa a panfleto político e me fez lembrar muito texto didático que tive de engolir na escola deu-me um pequeno choque na precisa semana em que deixei cair uma das minhas armaduras.

        Recebemos uma educação voltada para o intelecto e, pelo menos desde que entrei nela, empenhada em moer estereótipos e em vincar uma ideia deformada de igualdade. Ao crescer, sabia que era mulher pelo corpo, sem conhecer as implicações disso. Não tinha referências femininas – nem, a bem dizer, masculinas. O certo é que nos faltam modelos de virtude e honra. Desligada do corpo, da sua expressão primária, socorri-me daquilo em que era boa para compreender o mundo e para me defender enquanto ele se ia fazendo mais largo e perigoso: a mente. Para tentar exercer controlo cerrado sobre a meia dúzia de metros quadrados à minha volta, antecipar o futuro e, se possível, evitá-lo, por não o imaginar benévolo. A violência da emoção que não se prestava ao sufoco da racionalidade emaranhava-se nela, embora nascida das linhas da frente desta defesa, que julgava profunda quando era reativa, espigando das meadas de medo.

       Com o hábito de analisar tudo, dissequei a vida de forma tão implacável como a literatura. Fiz do funcionamento mental uma identidade e uma barreira, sem me ocorrer que pudesse prescindir dele nem que estaria segura se fosse indefesa. Ironicamente, foram ele e a vontade de saber mais sobre o ser humano que me levaram a investigar também o que era ser mulher e que facetas estariam gravadas em mim, numa aprendizagem que continuava a ser guiada pela sonda rígida do intelecto. O corpo não reagia ao que ele sabia, ainda não o sentia. Até que, talvez por começar a ser escutado, começou a deixar escapar o seu perfume inato. Sem aviso, senti uma chapa cair por dentro e fiquei exposta sem correr a esconder-me. Descobri que não precisava dela para me proteger e posicionar – que a proteção não precisa de se tornar um modo permanente de ser e que isso não implica um regresso à ingenuidade. Nem por isso passei a gostar menos da palavra “não”. Como tal:

         NÃO creio que, com a sua militância e o seu afã de prolongar lutas imaginárias, a mulher tenha algo de qualitativamente diferenciado para oferecer como líder. Conheci pouco da empatia, inclusão e colaboração exaltadas por Carla Fernandes quando as avistava nos picos da liderança, que as deixaram mais destituídas do que coroadas. Choravam, batiam com portas, apunhalavam pelas costas e gritavam.

       Antes de querer ocupar qualquer lugar, a mulher precisa de se conhecer e de resgatar a sua natureza de mulher. Só então poderá escolher onde quer estar.

 

 

A happy woman is a woman relaxed in her body and heart: powerful, unpredictable, deep, potentially wild and destructive, or calm and serene, but always full of life, surrendered to and moved by the great force of her oceanic heart.

 

Women do not become free by analyzing themselves. They become free by surrendering into love. Not your love. Their love. They become free by surrendering to the immense flow of love that is native to their core and allowing their lives to be moved by this force in their heart.

 

David Deida, in The Way of the Superior Man

 

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(Foto de bastidores)

 

2018 © Francisco Amaral – Todos os direitos reservados

 

08
Mar25

"Thy name is woman"

Sónia Quental

 

Elegância é a arte de não se fazer notar, aliada ao cuidado subtil de se deixar distinguir.

Paul Valéry

 

 

         O movimento de diluição das diferenças de género que ganhou expressão nos últimos anos foi precedido nalgumas décadas por uma fação a dado ponto paralela, de redescoberta dessas mesmas diferenças, em que se baseiam muitas mentorias de relacionamento. É assim que hoje se vê uma afluência de coaches que vendem os segredos não só dos relacionamentos, mas do que é, em essência, a feminilidade e a masculinidade. A par da estreiteza de certas generalizações, a visão de cada um traduz, como não podia deixar de ser, a própria maturidade, fazendo circular novos estereótipos que refletem diferentes graus de miopia. Foi neste contexto que me deparei com o vídeo abaixo, em que uma coach desfila na rua, descrevendo-se como modelo de feminilidade e elegância. Consigo depreender porque é que os olhares se voltam para ela, mas deixo a interpretação a cada um.

         A pretexto deste vídeo e da efeméride, aproveito para expressar aquilo que não tenho como marca de feminilidade: feminilidade não é usar sapato de salto alto; não é pintar as unhas nem carregar a pele de maquilhagem; não é o menear de ancas que se vê aqui. Esta manhã, depois de ter sido recebida numa loja por uma pessoa que me desejou feliz Dia da Mulher com um sorriso treinado e uma voz estridente (daqueles votos que agradeço e não devolvo), fui atendida logo a seguir por outra que me ofereceu ajuda exalando uma feminilidade natural, apesar do excesso de peso e das calças de ganga que usava.

         Se em textos anteriores propus que a afirmação do feminino não passa pela exibição relaxada de deformidades, em nome da aceitação e protesto contra a ditadura de uma imagem social de beleza, ela também não reside na artificialidade decorativa nem na neurose. Conheci ao longo da vida várias mulheres deslumbrantes cuja insegurança as despia de toda a beleza. Conheço quem viva a contar calorias e só consiga usar leggings pretas, para que não se notem as imperfeições. A perfeição que conheço não é de vidro e não é tirana. Por agradável que tenha sido, a seguir à democracia dos jeans, redescobrir as saias e os vestidos, hoje sei que não é o vestido que faz a mulher, mas a mulher que faz o vestido.

         Depois de crescer num ambiente em que não se reconheciam diferenças entre o modo de ser masculino e o feminino – o que, em vez de aumentar a compreensão entre ambos os sexos, a dificultava – foi extremamente curativo redescobrir-me como mulher, mesmo que não me reveja na forma de estar da maioria das mulheres que me rodeiam. Nesse percurso, aprendi também que a maturidade de homens e mulheres os leva a conhecer e a dominar crescentemente, e de modo consciente, a polaridade oposta. No entanto, antes de aspirarmos à androginia, sugiro que comecemos por ser aquilo que a natureza nos fez.

 

 

Always a paradox. Always tangible, but also, somehow, elusive and just out of reach. Always present, and yet, somehow, removed, the true female seems for ever, strangely, inexplicably, a wonderful and unfathomable mystery!

Théun Mares

 

26
Dez24

Ablução

Sónia Quental

Exijo a sorte comum das mulheres nos tanques, 

das que jamais verão seu nome impresso e no entanto

sustentam os pilares do mundo (…)

Adélia Prado

 

 

         Perguntam-me o nome e talvez seja tarde. Durante muito tempo quis que o adivinhassem e me chamassem com um saber íntimo que se atravessasse até à alma pelo mero domínio do seu timbre, comandando-lhe que se abrisse. Mas vim a apurar que o nome era para dar às cinzas, a espalhar num ritual minguante, em que me apequeno para dar espaço ao que deslumbra.

 

         Gostava de ir com a minha avó para os campos, onde os morangos eram milagres mínimos que colhia das paredes de terra. Porquê procurar tesouros, quando se pode apanhar morangos?... No tanque, as mulheres eram anónimas, cobertas de preto, levavam carga à cabeça. Confundiam-se com o som da água em queda e, empunhando bacias e barras de sabão, sibilando entre si, esfregavam e esfregavam, protegidas pela geada. Hoje penso que a geada era cinza e que talvez aquelas anciãs extintas soubessem que o nome é para queimar e afundar na terra. Também serve para lavar a roupa.

 

14
Dez24

Heroínas, mas pouco

Sónia Quental

 

         Os heróis perderam o lustro. Principalmente as heroínas. Nas séries televisivas, a protagonista identifica-se pelo cartaz e porque é a ela que a câmara segue. Se procurássemos traços marcantes, menos numa singularidade aleatória de talentos do que no plano das qualidades morais, seria difícil encontrá-los. Não é que tenha sido substituída pela paródia da anti-heroína ou passado para o lado das vilãs: é que foi destituída de atributos que a distinguissem de qualquer outra personagem.

         Se pensarmos nas qualidades que os seres de exceção encarnaram ao longo das épocas, pensaríamos em algo como: coragem, determinação, autodomínio, sabedoria, nobreza, fortitude, prudência, sentido de justiça, capacidade de sacrifício. Isto apesar de o herói, homem ou mulher, se definir como um ser complexo, muitas vezes dilacerado pelo conflito interno e visitado pela tentação. Todas estas qualidades foram, porém, substituídas pelo seu reverso ou por uma desfiguração tola, a ponto de as heroínas terem passado a caracterizar-se pela instabilidade emocional, a impulsividade, a histeria, a imaturidade e a destrutividade, num hino que se arrasta na apoteose da resiliência: o dom que a caixa de Pandora não perdeu.

         Outra pista para a condição heroica da protagonista desprovida de méritos é que, apesar da sua evidente falta de predicados e da tenacidade com que age contra si mesma, contra todas as probabilidades, continua a sobreviver. Nalguns casos, fina-se no último episódio, mas mesmo aí persiste a dúvida: será que morreu mesmo?? Afinal, a imortalidade costuma ser apanágio dos heróis, que ocupam uma dimensão mítica entre o humano e o divino, embora os vilões também descansem à sua sombra, prevalecendo aqueles que ainda conhecem o valor da espera.

         Quando acontece a heroína escapar ilesa e a história ter um desfecho feliz, depois de oito temporadas de conduta errática e alucinada, podemos estar certos do engano: o drama não acabou, o fim foi um artifício precipitado, provavelmente porque o público estava a ficar cansado e a série ia perdendo audiências.

      A heroína transformou-se numa rebelde à força. Uma criança caprichosa, que gosta de irritar todos aqueles com quem se cruza e de levar a sua avante. As peripécias por que passa e os obstáculos que enfrenta são instigados por si, não encerrando valor moral nem levando a uma qualquer transformação, a uma autoconquista que dê significado à vitória, quando existe. Esbatidas as distinções entre superior e inferior, bem e mal, e com a confusão crescente entre heróis e vilãos, já não são os primeiros a inspirar o mediano mortal, mas a vulgaridade que transita para um heroísmo cego, pela mão de um Destino que parece tê-la metido no saco errado. As heroínas do agora são as Gretas a quem os adultos fazem vénias por terem desistido de as educar.

 

24
Out24

Mamilos de luz

Sónia Quental

 

         Dizem que é nos momentos de descompressão, em que desviamos o pensamento do foco, que a inspiração se infiltra. Foi num desses intervalos da seriedade que resolvi investigar algo que me intrigava com uma certa persistência: os mamilos de luz. Em páginas de fotografia do Instagram, tinha-me deparado várias vezes com imagens de nudez explícita em que a única parte do corpo coberta era o mamilo da mulher. Sendo inegável a dificuldade que sinto em descodificar o significado oculto das tendências, só mesmo a repetição do fenómeno em páginas diferentes deu forma à hipótese perplexa: será que deixa de ser nudez se o mamilo estiver coberto??

         Constatei a seguir que alguns, em vez de luz, projetavam sombra; outros mudavam de expressão com as caras dos emojis; outros ainda davam flor. Interroguei-me se a escolha seria preferência da modelo ou do fotógrafo. Nunca me lembrei de perguntar aos meus com que disposição estavam, mas este era apenas o início de uma aventura temerária no mundo dos mamilos, onde entrei com passo hesitante, um olho fechado e o outro aberto, até chegar ao ponto de retrocesso, sob pena de me perder para sempre se continuasse a adentrar-me nos arcanos deste universo paralelo.

         Antes de lá chegar, porém, partilho com os curiosos os resultados lácteos deste empreendimento, que me fez saber que havia um movimento de libertação dos mamilos, uma descoberta que, a rigor, foi dupla: não só soube que havia quem estivesse a lutar pelos mamilos, como captei por inferência que eles estavam presos (a inteligência voltava a ganhar tração). Bastou esse pretexto para se abrir um daqueles instantâneos em que a vida nos passa diante dos olhos, fazendo-me apreender toda a distância – ou, como hoje se diz, “desconexão” – que havia entre mim e os meus mamilos.

         Ainda a pensar em como reatar diálogo, o motor de busca pôs-me diante dos olhos o debate gerado por eles, que jornalistas, vigilantes e burocratas encaravam de um ângulo aparentemente mais óbvio e essencial do que o meu: a polémica em torno da regra de cobrir os mamilos nas redes sociais estava na discriminação em que se baseava. Porque havia de se cobrir os mamilos da mulher quando os dos homens se empinavam livremente e sem qualquer pudor? O debate adensava-se e tornava-se mais feroz quando nele entravam os arautos dos novos géneros e das passagens indeterminadas entre eles, acusando uma visão binária que se refletia em políticas pouco inclusivas, que punham em causa os direitos humanos. Quando é que se devia cobrir o mamilo, e quando é que não se podia, e o mamilo de quem?...

       Foi aqui que notei que já não estava a descomprimir, mas a comprimir. A inspiração sempre espremeu alguma coisa, mas, com tanta informação, fiquei com medo de ir dormir, não por causa do escuro, mas dos faróis que se acendessem por vontade própria.

 

Vestido vermelho.jpg

 

Fotografia: 2020 © Francisco Amaral – Todos os direitos reservados

 

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