"Sleepwear"

O assunto de hoje nasce de uma perplexidade que não me tem dado descanso e que considero merecer o devido escrutínio: os pijamas para mulher. Por algum motivo que ainda não consegui apurar, a maioria dos pijamas para adultas divide-se em duas categorias: a da lingerie ou dos pijamas sexy, demasiado arejados e que não foram feitos para casas sem aquecimento, e a categoria dos pijamas com personagens de BD, ursinhos e outros animais fofos.
A escolha é, pois, entre uma sensualidade pouco prática e confortável e a infantilidade declarada, com as poucas exceções caindo no feio e no sem graça. O estranho é que muitas marcas daquilo a que agora se chama sleepwear trazem na etiqueta nomes de mulheres, que também suponho vistam pijama, daí achar pouco compreensível a condição a que reduzam o sexo feminino como um todo, condenado a ir para a cama à noite com as ovelhinhas estampadas na camisola.
O contraste torna-se ainda mais absurdo quando, numa estimativa livre, calculo que neste momento cerca de 90% das mulheres sejam tatuadas. Qualquer que seja a figura gravada na pele e a sua dimensão, confesso que tenho dificuldade em imaginar uma mulher tatuada com um pijama da Hello Kitty ou do Bambi. E que conversa séria seria possível ter com alguém envergando bigodes de bichinhos macios? Basta dizer que nem eu consigo levar-me a sério quando vejo o focinho do Snoopy a acenar-me ao espelho.
Será que o sono nos torna de novo crianças, mas apenas as mulheres estão sujeitas ao fenómeno? E de onde vem a teima em resgatar os animais da quinta e os bonecos da meninice para nos aconchegarem no escuro?... Por aqui, o aconchego perde-se nas dúvidas existenciais despertadas por semelhante companhia, que conduzem a insónia para assuntos desta importância, em vez de a justificarem com destinos mais graves.
Imagem: baralho Rider Waite



