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Na Pegada do Silêncio

" ‘You are a lover of silence’, he said". H. W. L. Poonja

" ‘You are a lover of silence’, he said". H. W. L. Poonja

Na Pegada do Silêncio

08
Mar24

Um minuto de silêncio

Sónia Quental

Pedem-me um minuto de silêncio por uma qualquer causa nobre que desconheço e nada me diz. Se fizéssemos um minuto de silêncio, silêncio só pelo silêncio, sem motivos ulteriores e em homenagem a coisa nenhuma que não o próprio silêncio, saberíamos que ele não é luto nem lamentação, e que o silêncio nunca vem só.

Solto o pensamento e deixo-o comprazer-se nesse minuto cheio de nobreza que se faz tão longo para mim, para quem a vida é silêncio. Silêncio forçado, num parêntese que fecha o mistério e reduz à modéstia o infinito.

           

Este é outro recorte de poema que copiei à socapa de um livro de João Habitualmente, que sabe o que é o silêncio, o que é a beleza e o que é a mulher:

 

E é verdade que beleza é fundamental.

 

Mas não essa beleza beleza

essa que se esgota na beleza

e quer que para fora dela

Nada exista

e não exista nada.

 

Porque o grande mistério é o silêncio

 

E o grande mistério é a mulher

quando nos olha em silêncio

 

as beldades que me perdoem

mas silêncio é fundamental

 

08
Fev24

De quatro folhas

Sónia Quental

           

Acredito nos amores à primeira leitura como nos amores e desamores à primeira vista. Infalíveis, uns e outros, ao olhar aguçado da experiência, à intuição que nas mulheres apura o passar do tempo, quando chegam a descobrir que não é cego o amor, mas vê bem ao longe.

Como a poesia de Adélia Prado, amei à primeira leitura o talhe dos versos de Amalia Bautista, que me persuadiram a comprar-lhe o Trevo. Não sendo feminista, há um sentir do feminino ao mesmo tempo selvagem e delicado que esparsamente me chama ao seu resgate. Estes vultos na poesia, outros na pintura e nas coisas do espírito, cativam-me pela violência simples e crua da emoção a caminho da transfiguração, de um corpo devocional do feminino com uma fisiologia distinta em cada uma delas, oscilando entre a adoração e o esconjuro.

Num mundo dominado por pretensões de racionalismo, lembram-nos que é no escuro que caminha a mulher, que por lá a leva uma fome primordial que resiste a planos, estratégias, à mais residual tentativa de controlo. Para apaziguar essa fome, há o ato de um canibalismo amoroso que não procura desculpas, o instinto acirrado de uma presa antiga, mantida a pão e água, como Amalia Bautista no seu “Em dieta”:

Deitei-me sem jantar e nessa noite

sonhei que te comia o coração.

Deveria ser por causa da fome.

Enquanto eu devorava aquela fruta,

que era doce e amarga ao mesmo tempo,

tu beijavas-me com os lábios frios,

mais frios e mais pálidos do que nunca.

Deveria ser por causa da morte.

 

           Acudiu-me por estas linhas a lembrança de um colega que, quando foi promovido a diretor, se propôs o desafio de ver quantas mulheres conseguia fazer chorar no gabinete. Eu também chorei uma vez, tenho as lágrimas como preciosas e atirei-lhas quais pérolas de Virgem contrariada, que ele não saberia apreçar, apesar da cobiça que tinha por elas. Lágrimas que uns querem ganhar, erguer como troféus, e a outros espantam.

Há-os como ele, que não sabem que é com as lágrimas que a mulher se regenera e segura o mal à distância: “(…) há algo na pureza das lágrimas verdadeiras que anula o poder do demónio”, diz Clarissa Pinkola Estés no seu formidável Mulheres que Correm com os Lobos.

Depois da minha oferta, fiz o que outras não fizeram: juntei o resto das lágrimas e vim embora. Ainda são elas que me salvam quando fico sem jantar e me apetecem os corações que um dia me deixaram à míngua.

 

Amalia Bautista.jpg

 

23
Mai23

40 anos no deserto

Sónia Quental

Screenshot_2.png

Fotografia de © Richard Barman (@richardbarman), publicada com autorização do autor.

 

The poem or painting were exorcisms, spells against the desert.

Octavio Paz

 

Diz-se que, da cabeça até ao umbigo, o corpo de Lilith é o de uma bela mulher; porém, do umbigo para baixo, ela é um fogo abrasador.

Barbara Black Koltuv

 

    

Não era a mulher quem arrastava o desconforto pelo aeroporto, mas a criança no pânico de se perder e não encontrar o caminho de volta. A mesma que teve de aprender a ir para a escola sozinha e ficou congelada no trauma.

Os dedos sujos de chocolate, bate a culpa por beber mais uma Coca-cola. Penso nos gurus da alimentação saudável que estarei a ofender, no que comi de mais, se gastei em excesso, se o entusiasmo me faltou, na busca incessante da medida certa, tal o hábito de me achar de um lado ou do outro da balança.

Devo ter estado lá, no momento do pecado original, porque é essa a culpa que me persegue, até nos aeroportos. Tento despistá-la no labirinto de corredores, deixá-la para trás no controlo de segurança. Mas a culpa não é líquida, antes sólida, cheia de grelo, como as cebolas, e com o mesmo cheiro a enxofre.

Hoje estou no meio; não o meio do equilíbrio, mas de um lugar de passagem, 40 anos volvidos do começo. Aceito com relutância os 41 e a contrariedade de me achar mortal. Há quem chame “não lugares” aos aeroportos – não conhece outra coisa quem habita um não lugar persistente e atravessa os dias no rasto de quimeras. Aqui, o deserto é apenas mais óbvio, mas nem só antro de demónios. Quando vejo, são as bênçãos que assaltam. É por isso que evito o jejum: para não ceder à tentação.

Ouvir a língua nativa é o primeiro sinal de casa. Gostava de ter a simpatia imaculada dos hospedeiros e de encontrar no deserto a fonte do amor, mesmo que as águas do destino sejam turvas.

Tenho sede, dispo-me sem que percebam. Pode ser que a chuva venha.

 

 

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Na Pegada do Silêncio by Sónia Quental is licensed under CC BY-NC-ND 4.0