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Na Pegada do Silêncio

" ‘You are a lover of silence’, he said". H. W. L. Poonja

" ‘You are a lover of silence’, he said". H. W. L. Poonja

Na Pegada do Silêncio

09
Dez24

Pés para que vos quero

Sónia Quental

 

        Com o brunch à boca do estômago e depois da manhã fértil em acontecimentos, Ludovina decidiu saltar o almoço e aproveitar a tarde de domingo para continuar a desenvolver a sua abordagem à teoria das personalidades de Myers-Briggs, desautorizada pelo Império. O apartamento onde morava, pequeno, mas verticalizado, ocupava dois andares, dando azo a subidas e descidas que lhe desembaraçavam o tráfego mental.

         Toni, que conhecera numa das idas à Biblioteca de Cordel onde era voluntário e que recentemente fora notícia devido a uma aparatosa evasão aérea, ficara de aparecer para lhe fazer uma massagem aos pés. O pedido, quase roçando a súplica, assustara-a o seu tanto: não lhe agradava ser objeto de fetiche, e as bochechas trementes e luzidias do rapaz inspiravam-lhe decidida aversão. Já tentara, com uma atrapalhação fracassada, deixar escorregar o cumprimento do rosto para o pescoço, mas Ludovina não podia deixar de se doer da sua condição de Amigo do Amigo que não consegue subir de posto. Foi o que a levou a aceitar emprestar-lhe os pés, recitando para consigo os inúmeros benefícios do relaxamento. O Natal deixava-a sempre tensa e ainda não conseguira sacudir os Jingle Bells da cabeça.

       As mãos do Toni apresentaram-se ao serviço como borboletas pesadas, mas hábeis, untadas da extrema vontade de agradar e segurando um tabuleiro de rabanadas caseiras feitas no forno. “Adoçadas com estévia”, apressou-se a dizer enquanto se infiltrava, aspirando os odores da casa para se apropriar do espaço antes de pôr mãos à dona. Se era pouco dado aos desabafos, desempenhando por hábito o papel de ouvinte, não se fez rogado desta vez, talvez pelo efeito inebriante do contacto com uma pele feminina, que lhe soltou as peias. Ou talvez quisesse deslumbrá-la com o seu perfil de candidato com ânsias de ser promovido dos pés para as abóbadas.

         Fosse qual fosse o motivo, enquanto mastigava meticulosamente os pontos de pressão podais, ao ritmo cadenciado da vibração das bochechas, tagarelava sem parar sobre o pioneirismo da empresa de autoclismos de que era proprietário, que, depois de ter lançado a descarga dupla, contribuindo para uma redução de 50% do consumo de água mundial, voltara a inovar ao produzir um autoclismo com material 100% reciclado. Aclamado pelo sucesso da proeza, que lhe valera o tão cobiçado passe para a Web Summit 2025, confessava a esperança casual de ser selecionado como Amigo Certificado pelo Centro de Bem-Estar Integral, a vocação de uma vida coroada em papel.

       A expetativa de descontração fora-se, apesar da massagem superlativa, de que Ludovina ficou a conhecer todos os benefícios terapêuticos. Como seria de esperar, Toni tinha tirado um curso de reflexologia e entendia ser seu dever libertar todas as toxinas daquele corpo que olhava com uma fome saliente no rosto riscado pelos galhos das árvores – uma fome que não se calaria com estévia.

 

26
Dez23

Apontamento escangalhado

Sónia Quental

 

Um dos exercícios que mais me elevam é conhecer uma palavra que me deslumbre.

Manuel Monteiro 

 

        

O Medo acordou-me no escuro. Não posso dizer que tivesse dentes brancos ou o corpo quente, embora a jugular lhe palpitasse com vontade. Bichanava-me coisas malditas, perturbava-me o sono. Achei que o inseticida que tinha de atalaia não surtiria efeito, por isso fiz-me de morta, petrificada.

Ora me ATAZANAVA com a palavra que eu tinha deixado fora de lugar num texto, ora com os mais veementes motivos existenciais, ameaças de morte sempre veladas – assim, sem meias-medidas, em plena madrugada de Natal, quando as defesas estão relaxadas.

Mas os planos saíram-lhe furados, porque o que fez ao apontar-me a palavra fora de sítio, em vez de comichão, foi que me acudisse a outra que eu queria um pretexto para usar: “ESCANIFOBÉTICO”, que avistei num livro infantil, depois de longos anos de separação. Tal como há pessoas que sacam da carteira (ou do telemóvel) para mostrar a fotografia dos filhos, dos netos, do cão, eu gosto de sacar palavras, dar montra embevecida à sua beleza ou encanto, como se me pertencessem.

“Escanifobético” fez-me logo querer ESCANGALHAR de riso e, mais potente do que o inseticida, escangalhou num instante o Medo, que ficou fulminado ou SIDERADO com semelhante munição (outra palavra secreta que saquei em catadupa).

Foi assim, no embalo do dicionário, que o sono voltou e me encontrou, a mim e ao Medo, ÓSCULOS à parte, num AMPLEXO de trégua que restaurou o Natal.

 

23
Dez23

Era uma "bez"

Sónia Quental

 

Embora não seja fã de Bruno Nogueira, a crónica sobre o Porto que publicou há dias na revista Sábado fez-me pender uma das asas uns milímetros na sua direção e desafiar-me de novo a ligar os pontos.

Fez-me lembrar uma interpretação intrigante que encontrei, era ainda estudante, na obra Psicanálise dos Contos de Fadas, em que o autor (outro Bruno, por sinal), a propósito d’ “A Bela Adormecida”, sugeria que o despertar da heroína do sono de 100 anos não se devera tanto ao príncipe eleito, que conseguira finalmente atravessar a sebe de espinhos, mas ao terminar da maldição. Trocando por miúdos: fosse quem fosse o desgraçado a acercar-se do castelo, as sebes abrir-se-iam para lhe dar passagem, simplesmente porque tinha chegado a altura (uma interpretação nada romântica, bem sei).

Diz o Bruno de cá, que vê no Porto um país dentro do país maior que é Portugal, que “Uma cidade não é o que se vê no mapa” e que – aqui em paráfrase –, sejam quais forem os movimentos que a sacudam, continuará a ser aquilo que sempre foi. Tem um espírito próprio, que lhe sobrevive e que contagia quem nela se adentra, ditando desde logo se são compatíveis ou não (isto sou eu que digo). Não é preciso fazer match.

É aqui que entra a história da Bela Adormecida, não porque ao Porto falte viço ou porque tenha sido amaldiçoado por alguma fada desavinda, mas porque o espírito do lugar não é só do lugar: é dos tempos também. Quero com isto dizer que, mesmo quando não é um conjunto de fatores a imprimir a mudança ao espírito da cidade, os espíritos transitam quando chega a hora disso, porque a cidade não deixa de fazer parte de um sistema maior, também ele governado por ritmos, ciclos e qualidades a expressar. Não vive envidraçada num caixão com um isolamento impenetrável, como a Branca de Neve (outra ilustre adormecida), que ainda assim se sujeitava a que o cristal partisse.

Ao contrário da impressão do nosso cronista, parece-me que o espírito do Porto começa, sim, a dar sinais de mudança. Não sei se é por isso que as pessoas se agarram, mais tenazmente do que nunca, ao Natal e às tradições que lhes transmitem a segurança da continuidade, quando os ventos do desconhecido são cada vez mais céleres e desestabilizadores. São tradições que nos fazem recuar ao conforto da infância, ao tempo em que o “E viveram felizes para sempre” dos contos de fadas ainda era possível e as lareiras crepitavam ao som de uma sabedoria mágica e subterrânea, que nos preparava para a vida, resguardando-nos em simultâneo da crueza das suas tragédias, como bem aponta Nuno Lebreiro noutro artigo recente.

Embora não tenha nascido no Porto, sou mais de cá do que de Portugal. Gostava que a sua genuinidade perseverasse, porque também a mim me aproxima mais de quem quero ser, efeito que não cabe num texto nem num postal. Enquanto escrevo este, chegam-me os gritos dos adeptos no Estádio do Dragão e, por mais que comece a agitar-me quando penso que em breve vou querer dormir, já fazem parte da paisagem, como as gaivotas rapaces e as obstinadas pombas. Que passava melhor sem eles, passava - mas não era a mesma coisa. 

Escadaria do Mercado do Bolhão (7).jpg

Fotografia: 2023 © Francisco Amaral – Todos os direitos reservados

 

24
Nov23

Maçã cozida

Sónia Quental

Não sentia o amor à minha volta. Não o cheirava. Não lhe conhecia os passos no escuro. O mais perto disso era a maçã cozida que me levavam à cama quando estava doente, por isso gostava de estar doente, exceto pelo arroz branco. Não me importava de ter febre. Também podia fazer palavras cruzadas e descansar de ser adulta.

Pensei que talvez fosse a luz de presença no corredor. Acreditei que o amor podia muito bem ser o Pai Natal, que aparecia uma vez por ano, até decidir apanhá-lo no ato (e não era). O mais próximo que cheguei de tirar a sorte ao amor foi com os brindes do bolo-rei. Até que o bolo-rei deixou de ter brinde e só trazia a fava.

Momentos houve em que achei que o amor era aquele que ficava com o pescoço e as asas do frango e nos deixava a carne tenra. Mas, quando o procurava, tinha a cabeça enfiada no jornal ou o comando da TV na mão. Mandava-me calar. Era um amor que não me olhava nem ouvia, exceto quando eu chorava, o que não podia, especialmente à mesa, onde o amor era uma côdea em que ninguém pegava. A digestão em família não podia ser perturbada nem a solenidade de quem tinha a garganta fechada. A minha também ficou, mas foi com as lágrimas entaladas.

Animei-me quando julguei que o amor era chá de menta, porque só lhe conhecia os picos e a expetoração. Pensei ter encontrado a fórmula, mas não. Era mais como um bolo de arroz seco, que se esfarelava e só deixava migalhas.

Eu cá gostava de chantilly e morangos. Eram assim os meus bolos de aniversário, vermelhos e brancos, de um requinte que só eu via. Talvez tenha sido a associação que me fez mais tarde pensar que, se eu fosse uma sobremesa, seria um cheesecake. É óbvio que pelo amor. E porque a base de bolacha era sólida. Não se desfazia!

O primeiro bolo que fiz para o amor era de iogurte, mas ele preferia o de natas. Nunca achei a receita certa, não por falta de tentativa. Estou cansada de cozinhar. Prefiro a maçã cozida.

 

Vela à janela (03.12 (2).jpg

 

Fotografia: 2018 © Francisco Amaral – Todos os direitos reservados

 

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