Dreams

Adyashanti, in My Secret Is Silence
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Adyashanti, in My Secret Is Silence

A Mãe do Mundo não tem filhos.
Fecundada pelo Verbo, dá luz
aos jardins onde o Amor não é
fruto que se coma, mas néctar
que transborda, essência que nutre
a porosidade das almas
e lhes devolve o resplendor
da perfeição.
Imagem: baralho Morgan-Greer
As belas adormecidas dormitam
no cabeleireiro, cuidando
de não cair num sono de
100 anos, à espera do príncipe
que se atrasou na depilação.
Imagem: baralho Rider-Waite

Chamaste-me para te reunir as partes e
a primeira coisa que disseste foi que o Todo é ainda Maior
Imagem: baralho Rider-Waite

Hélice do Sol,
Tão fogo que parece terra,
Tão rápida, parece queda,
Espiral assombrada,
Ómega do Absoluto,
Teu é o enigma que só te
encontra quem não te procura
Imagem: Tarot Cigano
Quase deixei de ler poesia. São mais os livros que pouso do que aqueles em que me fico – basta uma mirada para lhes cheirar o vazio. Obras de malabaristas, prestidigitadores verbais, ilusionistas que não conhecem a magia e tiram coelhos de cartolas curtas.
Alguns dizem coisas como “gomo”, “retina” e “meu amor” e ainda esses são artifícios que nascem sem vida, enganando apenas os leitores que gostam de cartolas com o fundo à vista.
A homenagem a Adélia Prado já aqui foi feita na Páscoa. Este é um mero apontamento evocativo, por ocasião da atribuição do Prémio Camões, que só peca pelo atraso.
Num jardim japonês
Ao minuto de gozo do que chamamos Deus,
fazer silêncio ainda é ruído.
Adélia Prado
me dá a mão, me cura de ser grande
Adélia Prado
Quis celebrar o Dia Mundial da Poesia com um livro que me falasse à alma e aos sentidos, e que acontece enquadrar-se também na Páscoa, um bom número de pretextos para celebrar a minha adoração poética pela brasileira Adélia
Prado. A segunda antologia que lhe conheço, Tudo que Existe Louvará, é um volume que, ao contrário do recomendável na poesia, se lê a galope acelerado, em travos profundos e extáticos. Se os excessos do arrebatamento obrigam a pousá-lo sucessivas vezes, o mesmo enlevo impele a pegar-lhe de novo, num movimento irresistível de inspiração e expiração que a alegria percorre sem remorso.
Uma alegria visual, sensorial, como a do “Azul sobre amarelo, maravilha e roxo”, que se eleva pela beleza e devoção, desprendendo-se de uma experiência a um tempo poética e religiosa, que aqui arde no fogo tantas vezes abandonado dos lugares comuns. Por isso insistem os prefaciadores da obra em que “Adélia provoca escândalo”, um escândalo bem-vindo, ao mostrar “(…) que a ortodoxia é uma forma radical de heterodoxia e a mais ínfima reverência deve ser mais temida do que a maior blasfémia” (J. Tolentino Mendonça e M. Cabedo e Vasconcelos).
Os títulos dos poemas são parte deste banquete comemorativo, inaugurado com pompas de trombeta pelo estrepitoso “Com licença poética”, o manifesto em que Adélia Prado contrapõe desafiadoramente o seu “anjo esbelto” ao “anjo torto” de Drummond de Andrade no subtexto, apresentando todo um programa de Alegria que casa com o seu sexo de Mulher.
Já não sei que poemas leio pela primeira vez – soam-me todos novos, fulgurantes, brilhando na treva da poesia que hoje se publica, com uma porção igual de arrebatamento e ternura. Do extático ao estático, dou comigo a sorrir até doer numa noite de sexta-feira em que não quero estar senão aqui: levitando.
Harry Potter
Quando era criança
escondia-me no galinheiro
hipnotizando galinhas.
Alguma força se esvaía de mim,
pois ficávamos tontas, eu e elas.
Ninguém percebia minha ausência,
o esforço de levantar-me pelas próprias orelhas,
tentando o maravilhoso.
Até hoje fico de tocaia
para óvnis, luzes misteriosas,
orar em línguas, ter o dom da cura.
Meu treinamento é ordenar palavras:
Sejam um poema, digo-lhes,
não se comportem, como, no galinheiro,
eu com as galinhas tontas.
Adélia Prado
Tendo amanhecido hoje com a notícia da morte de Nuno Júdice, achei por bem dedicar-lhe um in memoriam atabalhoado, deixando as homenagens condignas a quem de maior talento e conhecimento.
Tive o privilégio de me cruzar com Nuno Júdice no papel de arguente quando apresentei à FLUP a minha dissertação de mestrado, nascia o ano pouco grato de 2010. Verdade seja dita, foi um privilégio que teria dispensado, porque tudo o que tinha a dizer, passados 3 anos e 150 páginas a espreitar para debaixo da saia dos anjos, foi que não lhes lobrigava o sexo. Não havia forma mais extensa ou elaborada de o transmitir por palavras, por isso creio ter tido nessa tarde uma das poucas experiências extracorpóreas por que passei na vida, em que deixei o corpo transpirar aflição e me dissociei daquele embaraço pantanoso de que não tinha como sumir.
Enquanto poeta, não posso dizer que a poesia discursiva de Nuno Júdice me cante ao ouvido, que prefere os poemas como os óleos essenciais: simples e concentrados, com um poder maior nas poucas palavras que convocam. Ainda assim, e porque o tema da inspiração foi o pretexto para o nosso breve encontro, deixo abaixo o poema que reproduzi num dos pórticos do meu Todas as Manhãs da Arte. A moral da história foi ter percebido que era feio andar a olhar para as partes privadas dos anjos, com régua e esquadro na mão. Dedico-me desde então a aprender-lhes a língua. Eles chegam-se mais.
Não sei o que é a inspiração. Tenho falado dela,
e sei que os gregos a tomaram como ponto de referência quando,
nas suas poéticas, distinguiram entre a obra humana e o desígnio
divino. Mas esses deuses, que cicatrizavam nas feridas abertas pela
inquietação do homem quanto ao destino, foram desaparecendo, enterrados
sob os escombros das cidades antigas, ou esculpidos no mármore
que serviu de entulho para novas cidades. E a inspiração ficou
reduzida a um alento vago, que nasce da zona obscura do espírito
em que se formam as imagens. Depois, ninguém mais acreditou
na hipótese de um sopro metafísico, como se o poema se fizesse
apenas a partir de palavras ou de ideias, e não houvesse na sua
substância mais profunda uma cintilação que envolve o verso e o
impede de ganhar a ferrugem do tempo.
Nuno Júdice
Acredito nos amores à primeira leitura como nos amores e desamores à primeira vista. Infalíveis, uns e outros, ao olhar aguçado da experiência, à intuição que nas mulheres apura o passar do tempo, quando chegam a descobrir que não é cego o amor, mas vê bem ao longe.
Como a poesia de Adélia Prado, amei à primeira leitura o talhe dos versos de Amalia Bautista, que me persuadiram a comprar-lhe o Trevo. Não sendo feminista, há um sentir do feminino ao mesmo tempo selvagem e delicado que esparsamente me chama ao seu resgate. Estes vultos na poesia, outros na pintura e nas coisas do espírito, cativam-me pela violência simples e crua da emoção a caminho da transfiguração, de um corpo devocional do feminino com uma fisiologia distinta em cada uma delas, oscilando entre a adoração e o esconjuro.
Num mundo dominado por pretensões de racionalismo, lembram-nos que é no escuro que caminha a mulher, que por lá a leva uma fome primordial que resiste a planos, estratégias, à mais residual tentativa de controlo. Para apaziguar essa fome, há o ato de um canibalismo amoroso que não procura desculpas, o instinto acirrado de uma presa antiga, mantida a pão e água, como Amalia Bautista no seu “Em dieta”:
Deitei-me sem jantar e nessa noite
sonhei que te comia o coração.
Deveria ser por causa da fome.
Enquanto eu devorava aquela fruta,
que era doce e amarga ao mesmo tempo,
tu beijavas-me com os lábios frios,
mais frios e mais pálidos do que nunca.
Deveria ser por causa da morte.
Acudiu-me por estas linhas a lembrança de um colega que, quando foi promovido a diretor, se propôs o desafio de ver quantas mulheres conseguia fazer chorar no gabinete. Eu também chorei uma vez, tenho as lágrimas como preciosas e atirei-lhas quais pérolas de Virgem contrariada, que ele não saberia apreçar, apesar da cobiça que tinha por elas. Lágrimas que uns querem ganhar, erguer como troféus, e a outros espantam.
Há-os como ele, que não sabem que é com as lágrimas que a mulher se regenera e segura o mal à distância: “(…) há algo na pureza das lágrimas verdadeiras que anula o poder do demónio”, diz Clarissa Pinkola Estés no seu formidável Mulheres que Correm com os Lobos.
Depois da minha oferta, fiz o que outras não fizeram: juntei o resto das lágrimas e vim embora. Ainda são elas que me salvam quando fico sem jantar e me apetecem os corações que um dia me deixaram à míngua.

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