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Na Pegada do Silêncio

" ‘You are a lover of silence’, he said". H. W. L. Poonja

" ‘You are a lover of silence’, he said". H. W. L. Poonja

Na Pegada do Silêncio

22
Jun25

Pular a cerca

Sónia Quental

         O stalking é a nova pornografia, a um tempo privada e social – sempre clandestina. Um hábito pútrido, a que não se dá suficiente atenção antes de chegar aos noticiários, quando atingiu proporções dramáticas e já não é possível evitar-se as consequências. Numa era em que as tecnologias nos deixam cada vez mais expostos, não se fala o suficiente sobre o stalking cibernético – tal como não se discutem subtilezas como o direito moral de acesso a conteúdos públicos por parte de indivíduos a quem se transmitiu a vontade de um total afastamento.

        Com a generalização da internet e dos conteúdos digitais, é cada vez mais impraticável deixar-se pessoas para trás, no tempo e no espaço – dizer um adeus definitivo e fazer respeitar esse desejo. Porque há um motor de busca na ponta dos dedos; porque fomos colegas de escola, temos parentesco ou nalgum momento da vida nos cruzámos, há quem pareça achar que isso lhe dá direito de permanência e invasão, por mais recusas que lhe tenham sido dirigidas, verbalmente e/ou através de gestos explícitos. Vive, pois, a tentar contornar bloqueios e a pular a cerca, fazendo da perseguição carreira – o que significa que, se alguém que impôs certas barreiras quiser criar algo que lhe dê visibilidade pública, terá de arcar com os simplórios, chicos-espertos, parasitas e abutres que traz às costas desde nascença, que não largam o radar. Como se isso não bastasse, muitos – os piores – têm-se por bem-intencionados, acreditando agir para o bem da pessoa acossada e por graça de uma qualquer magnanimidade de que são dotados. A todos é comum o acharem-se simplesmente no direito, uma mentalidade prevalente, que perdeu todos os limites de exercício.

         A pergunta que deixo é: se alguém tem meios de aceder a conteúdos públicos de um terceiro que já deixou claro querer distância, terá essa pessoa o direito moral de utilizar os meios ao seu dispor para continuar a violar o limite imposto? A maior parte das mentes jamais se fará este questionamento, continuando a desobrigar-se da contenção, por ter uma noção tão rudimentar do que é o respeito quanto relaxados são os direitos de que julga gozar. Afinal, se pode, deve: há que usufruir em pleno das liberdades que tem. É assim que invade e se instala em casa alheia como se fosse sua. Não havendo nada a fazer em relação ao que é público, nem uma margem de privacidade a fazer valer dentro deste vasto campo aberto, restaria o apelo à consciência – não fosse esse acessório de luxo, que os ditos indivíduos não saberiam com que moeda pagar.

 

29
Jan24

Artigo no "Público"

Sónia Quental

 

       Apelando de novo à benevolência dos leitores, pelo overkill a que tenho sujeitado o tema, achei que merecia maior projeção, por isso voltei a mastigá-lo para o "Megafone" do Público. Dedicado a todos quantos padecem do fetiche pelas câmaras, com os votos de rápidas melhoras, o texto de hoje não está aqui, mas ali: "Tentáculos da vigilância".

 

13
Jan24

A "freelancer" que não vendeu o seu Ferrari

Sónia Quental

Longe vão os tempos em que se procurava refúgio num mosteiro para se ser monge: hoje, basta ser-se freelancer. Nada de retiros espirituais, saltar para cima de uma mula para encontrar o Xangrilá e um Baba dedicado, como os gestores de conta, atingir a Realização numa caverna, o corpo mordido por insetos. Pode fazer-se tudo no (des)conforto do lar, rodeado pelas mesmas criaturas invertebradas, e contratar um guru à hora.

Não há necessidade de vender o Ferrari, porque nunca se chegará a ter um. A custo virá um momento culminante, em que se reequacionem valores materiais após uma crise de vida que sangre arrependimento: não há grande coisa a reformar, as carnes são poucas para cortar, e o voto de pobreza e silêncio vem temperado com o jejum da eterna Quaresma.

Tenho um pouco mais de sorte do que o freelancer comum, porque me fizeram saber, pela boca do próprio, que há um Cristo a morar no prédio. Este quer instalar câmaras para apanhar o Judas em flagrante, em vez de dividir a hóstia. Espero que na proximidade do seu manto a conversão seja mais rápida, sem o aperto de disciplinas prolongadas, e eu possa voltar à civilização com a iluminação conquistada por osmose, parábolas a recitar como quem despede histórias de guerra, o corpo com o castigo suficiente para se notar.

Depois das sessenta e duas mil horas de meditação que a precariedade laboral tornou possíveis, estou prestes a atingir o amor incondicional. Com o poder das ondas gama projetadas pelo cérebro, vou concorrer ao título de “Mulher Mais Feliz do Mundo” e posar ao lado de Matthieu Ricard, ajudar as pessoas a despojarem-se para aprenderem a pensar como um monge e a acumular riqueza material, mantendo uma atitude positiva e cultivando a compaixão do Cristo cá do sítio. A ciência moderna confirma que é possível passar da mente de macaco à mente de monge e estou a caminho de o provar, embora ainda não tenha fustigado suficientemente o ego e renunciado por completo à crítica (shame on me).

Atualmente, treino o “namastê” que não me sai e aproveito os saldos para escolher uma t-shirt com o meu mantra favorito, para que não haja dúvida, quando for à garagem onde não tenho um Ferrari, que sou um ser de paz, as câmaras não me confundam com o Judas e não disparem a matar.

 

Escadas (3).jpg

Fotografia: 2020 © Francisco Amaral – Todos os direitos reservados

 

20
Jun23

"Twilight Zone"

Sónia Quental

 

Live in Mordor too long and you come out looking like Gollum.

Neil Kramer

  

Some people have the idea that, if something is legal, it’s moral. (...) That's what government does: it tries to make the immoral moral by giving it the blessing of legality.

Thrive II

  

           

Não tendo atividade comercial nem envolvimento direto na utilização de espaços públicos para outros fins que não a locomoção, há realidades deste mundo que me passam ao lado. Talvez por isso ainda me escandalizem os atos de bizarria que se revestem de normalidade.

O dia em que perdi a inocência foi quando soube que aos meus pais, que tinham um estabelecimento comercial, era pedido o pagamento de uma taxa anual à Câmara por terem o reclame luminoso a fazer publicidade para a rua (!). A segunda vez deu-se no início deste ano, em que me proibiram de ser fotografada no mercado do Bolhão, explicando que era preciso enviar requerimento à Câmara, que o fundamenta no Código Regulamentar do Município pela “(…) pressão exercida na gestão da coisa pública local”. A terceira foi quando me disse uma esteticista que era obrigada a pagar licença para ter a rádio ligada e que o mesmo acontecia com as televisões nos cafés.

Neste rescaldo, e ainda atordoada pelos tentáculos do absurdo, apesar dos anticorpos mentais desenvolvidos desde 2020, chega-me um regulamento em que o Condomínio, maiusculado e tudo, como se pessoa fosse, quer ser meu pai. Pouco falta para ter de lhe pedir permissão para entrar em casa, perguntar como devo decorá-la ou em que posição devo dormir. Por falar nisso, tenho de me lembrar de questionar se vai oficializar a adoção e partilhar apelido comigo, embora duvide que me venha esfregar as costas ao banho, limpar a casa ou preparar as refeições.

Absorvida nestas cogitações, ocorreu-me o jogo infantil “Mamã, dá licença?”, com que nos condicionam desde a infância a acatar ordens arbitrárias, só porque a mamã diz que sim. Estranhamente, quando um qualquer ditame se transforma em lei, inspira nas pessoas o mesmo temor supersticioso que o sobrenatural, como se as ditas leis estivessem gravadas em pedra ou tivessem sido lapidadas nas tábuas de Moisés. Conheci gente que parecia ter uma relação erótica com os regulamentos e que aposto que os usa para se masturbar.

Nas cidades, as normas municipais conferem mais direitos aos edifícios do que às pessoas, aparecendo a proteção destas apenas como pretexto para a instalação de câmaras de rua e o assédio invisível de uma vigilância cada vez mais apertada, em que se vai perdendo o direito à privacidade e tudo se permite em nome da segurança. Prestamo-nos a esta relação paternal(ista) e perversa com os órgãos governativos: em troca de proteção, dispomo-nos a saltar quando nos mandam e a andar ao pé-coxinho ou dar passos à caranguejo quando assim determinam.

Nunca chegamos a atingir a maioridade de consciência, oferecendo a carne às molas da máquina burocrática, que nada busca além da autopreservação. Assumimos que a complexidade das leis e regulamentos esconde uma inteligência e finalidade que não se consegue enxergar entre os termos rebuscados que empregam, mas que insistimos estará por ali algures para nos protegermos do choque psicológico de um mundo em que o Mal manda só porque pode.

 

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