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Na Pegada do Silêncio

" ‘You are a lover of silence’, he said". H. W. L. Poonja

" ‘You are a lover of silence’, he said". H. W. L. Poonja

Na Pegada do Silêncio

13
Jan26

Ninhos

Sónia Quental

 

As pessoas fazem ninho na cabeça: transitórias no lugar, distraídas do corpo, ficam-se a pairar sobre o orgânico, sem parte de espírito. Antes de subir, é preciso descer, encher-se do que é vivo para chegar à inteireza. Fazer soltar das entranhas o canto indígena e levá-lo pelo coração para ganhar asas, ocupar o espaço todo, sem ninhos que embaracem.

 

É simples: estar inteiro onde se está, tocar com os pés no chão. Arrumar a cabeça para não fazer estática. Ouvir.

 

04
Jan26

Mãos

Sónia Quental

Acostumei-me a deixar doer quando algo doía, por amor confuso ao sofrimento. Agora, quando dói, deixo doer, mas por amor só. As mãos do amor nunca trabalharam e não se lhes vê fundo. Não lhes falta saber nem há fome de que padeçam. Fermentam cura no seu calor iletrado. Ao seu cuidado, a dor volve redonda, feita nada – silêncio iluminado.

 

27
Dez25

A linguagem do amor

Sónia Quental

Captura de ecrã 2025-12-27 180539.png

 

 

 

(…) es donde estoy bien, en lo cotidiano. (…) Amo la vida cotidiana y no los viajes. Ni salir de mí para excitarme ni querer vivir más intenso. Lo intenso está dentro, en la tormenta y la calma cotidianas.

Isra Bravo

 

 

            Onde haveria eu de estar senão aqui, sempre aqui, nas ruas do quotidiano onde o Natal é um dia igual aos outros, igualmente próximo, de onde quer que seja observado. A diferença é que no Natal o silêncio, a linguagem do amor, fala mais à vontade consigo mesmo, pairando sobre as ruas sem precisar que alguém o entenda.

 

Imagem: baralho Morgan Greer

31
Out25

A margem e o centro

Sónia Quental

The personality vehicle I have incarnated into has mostly been fragile and frequently brought to its knees by life’s turmoil. But I see now that throughout it all there was (and continues to be) a disciplined mind and rebellious spirit. I have never been able to conform to society’s rules about family, work, or career (often to my own detriment). Throughout my life, I have chosen to sacrifice comfort and security for freedom.

Amoda Maa

 

 

         Para se andar com as costas direitas, é preciso caminhar muito pela margem, com elas voltadas para o centro. O meu centro é a margem dos outros, enquanto o deles para mim é quadrado. E aquilo, aqui tão longe, que pareceria exílio e deserto, é um jardim tão redondo que derrete o olhar, com flores que nenhum quadrado conhece. Aqui, o silêncio não é ermo nem vértice, mas maravilha por estrear, que a mudança de estação não estraga. Na margem, posso andar descalça, como Deus manda, e fechar os olhos quando durmo. Os animais são ímpares e majestosos, não dizem “bom dia” nem “obrigado” quando se comem, tão-pouco sentem a obrigação de retribuir favores. Imagine-se que nos jardins da periferia a consciência não pesa. Cada dia é menos dia, à medida que o tempo se desfaz. Da noite, só a memória resta.

 

24
Set25

Sem título

Sónia Quental

72 - Nine of Pentacles.jpg

 

         Em bebés, compram-nos fatinhos adiantados para os meses em que formos maiores, que chegam rápido e fazem que a roupa encolha à mesma velocidade. Com o passar da idade, o ritmo vai abrandando, até que deixamos de crescer, pelo menos para cima. A roupa que se compra não é porque a anterior tenha deixado de servir, mas calha a outros pretextos.

        Ninguém nos diz, quando o corpo já não espiga, que há outros fatinhos que é preciso dar à costura, porque a direção do crescimento mudou: agora, é para dentro, e o enxoval é de silêncio. Começa por um fio, uma suspeita. Uma graça que vira fatalidade. E pouco a pouco se vão revelando as marcas dessa estranha vestimenta, como a elasticidade, o tecido respirável, que pode ir à máquina, a qualquer temperatura. Não cola ao ferro nem ganha borbotos.

         É das peças que se principia sem um esboço que as mostre acabadas, que ajude a saber que forma lhes dar, que desenho. Quanto mais se labuta, desde o grão fecundador até se lhe notar o comprimento, mais difícil se torna distinguir a roupa de quem a faz e veste. Os bolsos que se formam sem uso conhecido vão revelando coisas por ninguém escondidas, ainda novas: um é de paz, outro de um amor sem vincos.

         A cada descoberta, o corpo de fora agasalha-se nas sobras maiores do tecido, que fermenta, jorra com justa abundância. A abundância prometida aos que foram chamados, dada aos que apareceram. As dádivas do Silêncio caem sobre a persistência.

 

Imagem: baralho Rider Waite

12
Set25

Dualidade

Sónia Quental

Captura de ecrã 2025-09-12 081551.png

 

         Quis acertar as balanças do mundo, de olhos abertos, espada na mão. O coração não se conhecia como tal, necessário, chamado a intervir no seu peso diminuto, desmaiado nos pratos horizontais da balança.

         Os olhos ardiam, a espada era lâmina sem intervalo que não cortasse de a segurar. Caía-me, sem emenda que a alçasse. Pesava-me de sua justiça que não dormia nem deixava dormir. Achava eu que bastava tirar a venda, que a justiça, como a verdade, era substância de uma camada só, que se revelava de uma vez à disposição de olhar. Mas o meu era míope, fugia-me para o coração desabituado do peso, cortado da culpa que me pesava nos braços hirtos de retidão.

         No lugar da cadeira, tivera um regaço que não soubesse se sou torta ou direita – um coração acordado, onde pudesse cair com as pálpebras fechadas da inocência, sem rasgo de acusação.

 

Imagem: baralho Morgan Greer

24
Jul25

Cura da finitude

Sónia Quental

Estava do lado de fora da porta e sem cadeira, destinada a esperar longamente por vez. Não havia vez para mim – alguém me passava infalivelmente à frente, esgueirando-se para a câmara onde tudo era possível, a passagem cedida aos felizardos que tinham vez, sem ordenação de senha. Os que tinham cadeira, os despreocupados. Os que mereciam porque lhes tinha cabido o berço ou a sorte (o meu berço era sem cadeira, sem sorte).

Esperava sem encosto, paciência ou alento. Distraía-me colhendo trevos de quatro folhas, que existiam para me lembrar de que acharia raridades se procurasse muito. Procurei muito, sem sair do sítio, mesmo me doendo as pernas da imensa purga da sala da finitude, de que haveria de me curar, terminantemente. Necessariamente. Não como dos advérbios de modo, de que tentaram curar-me e só conseguiram que me fizesse mais doente. Forçosamente.

Quando todos se foram e a fila se desfez, vi que saíam em vez de entrarem. Onde eu estava era a alcova. Onde fiquei até me curar de acreditar que o finito era o meu lugar, meu fim e princípio. O caminho era pelos trevos, os que tinham quatro folhas e salvei de serem pisados, com a paixão dos advérbios de modo e o cuidado das mãos luzentes, infantes.

 

20
Jul25

Medo

Sónia Quental

 

         Vim para caminhar pelos medos, debulhá-los às meadas. Eu, a mais encolhida, a que menos se via e pouco se ouvia. Só trazia um “não” teimoso, que medrou sem cuidados, desses que apanham fogo e ficam no lugar da nossa pequenez, a lançar chispas como pedras que caem nas noites em que falham estrelas.

 

27
Jun25

Janela

Sónia Quental

         As janelas não levavam à esperança: simplesmente não castigavam a solidão. Enquanto as orações da manhã e da noite, com récitas diferentes para o anjo de guarda, eram por obrigação, a janela era uma promessa que não me separava de mim. Levava para o infinito. Era onde o anjo da guarda se encostava quando queria saber dele e lhe pedia o serviço dos aflitos. Que as minhas aflições tendiam a ser muitas. Pedia-lhe paciência. Só o tinha a ele.

       Anjo da guarda, minha companhia… Embora fosse muito de reclamar por aquilo a que não me pouparam, fui tendendo a preferir as companhias invisíveis: as que não se veem nem se ouvem nem se sentem e se duvida de que estejam lá. Até que o círculo foi ficando cada vez mais estreito e sobrei apenas eu, a querer desvanecer-me como os anjos, a ouvir as orações dos aflitos. Ainda a gostar do encosto à janela.

 

 

03
Jun25

Queda livre

Sónia Quental

         Era demasiado o esforço para não cair. Não fazia mais do que segurar-me de pé, tentar não cair outra vez de bicicleta, não tropeçar nos próprios pés, não esfolar os joelhos, não andar toda pisada. Escolher sapatos que não magoassem e me deixassem andar sem bolhas nos pés.

         Gostava de caminhar, mas não de cair. Gostava de caminhar para sempre, sem chegar a lugar algum, embora achasse que queria. Transpirava debaixo do sol imaginando procurar alguma coisa séria, mas o que gostava era só de andar. Mas não de cair.

         Se me desmoronasse por acidente, em que bocado estaria eu? Seria a soma das partes ou estaria engastada nalguma? Continuaria a ser a mesma se perdesse alguma delas?

         O esforço de evitar as quedas antes as trouxe dobradas. Continuava a mesma criança de joelhos esfolados e algodão com água oxigenada, a limpar as feridas teimosas, sempre triste, sempre zangada. Tentaram empurrar-me para a felicidade de fazer de conta que todos traziam vestida, sem conseguir.

         O que aconteceu foi que deixei de me importar com as quedas. Passei a cair com mais graça, com mais intenção – às vezes ainda triste, às vezes zangada ou as duas coisas ao mesmo. Descobri que estou em todas as partes e em nenhuma. E quando a felicidade vem tratamo-nos por 'tu'.

 

 

Once the tempest has moved through you, you are left clean and naked, stripped of the burden of pretending to be who you are not. And in this naked awareness, you see that you’re not really falling apart – you are falling open.

 

Amoda Maa, in Falling Open in a World Falling Apart

 

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