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Na Pegada do Silêncio

" ‘You are a lover of silence’, he said". H. W. L. Poonja

" ‘You are a lover of silence’, he said". H. W. L. Poonja

Na Pegada do Silêncio

07
Jan26

Não existe dia para usar roupa nova

Sónia Quental

No llegues, márchate.

Isra Bravo

        

         A tradição de usar roupa nova no Ano Novo era daquelas que ajudavam a enrijecer a mentira que se vivia sem fazer feriado. A superstição é o último reduto de quem respira com a crença de que a vida é desligada de si e de que os acontecimentos são fruto do acaso – do acaso e da roupa que se estreou ou não no dia certo.

         Compreendo a importância dos rituais que assinalam passagens simbólicas, nem sempre conscientemente escolhidas, mas pelo menos conscientemente acolhidas. Nos ciclos de vida, porém, o calendário é mera referência – uma âncora útil, por vezes pesada.  Se os dias são curtos para demorarmos em cada um a reflexão, e as decisões de vida precisam de respirar em intervalos de tempo maiores, as resoluções vigorosas querem-se mais correntes do que de ano a ano.

         Roupa nova, para mim, não tem dia marcado. Com mais frequência do que gostaria, constato que aquela que uso já não me serve e que preciso de outra. Cansa viver de abalo em abalo, mas o contrário disso é andar distraído.

         Com a quantidade de bens e objetos que nos habituamos a acumular, não reunimos a energia também necessária para os ajustes sucessivos de rumo. A vida não cessa de perguntar quem somos e para onde vamos, mesmo a quem deixou de se fazer essas perguntas. Ter a resposta continuamente fresca, como a roupa nova, é a única coisa que nos pede. Não é pouco.

 

 

29
Dez25

Metafísica para crianças

Sónia Quental

         Mesmo quem não é naturalmente dado à introspeção acaba, nalgum momento da vida, por não conseguir evitar a pergunta: “O que é a felicidade?” Há quem chegue a ela pela experiência prolongada ou culminante do sofrimento; há quem chegue pela via da concretização de metas que não entregam a satisfação prometida. Na ausência do esquivo troféu, propõem então que a felicidade não esteja nas metas, mas no caminho, escondida nos obstáculos que tiveram de ultrapassar para chegar às metas e na transformação pessoal que daí decorreu.

           Encontrei ao longo dos anos muitos ecos desta filosofia, que não conseguia convencer-me mais do que a ideia da felicidade como fruto de conquistas externas. Ambas as respostas me pareciam fundamentalmente erradas, talvez por ter vivido mais pelos caminhos do pelas chegadas e também por lá não ter visto sinais de felicidade.

         Até que, mergulhada nestas cogitações, me lembrei de uma cantiga que aprendi na escola primária e que só recentemente soube ser um poema de Vinícius: “A casa”, que descreve uma casa “muito engraçada”, que não tinha teto nem coisa nenhuma. Não tinha, enfim, nada que a definisse como casa, além do nome de quem assim a chamava e olhava como tal. Era uma impossibilidade lógica que me fascinava e me ficou a bulir por dentro mais do que qualquer outra coisa que tenha aprendido na carteira da frente da sala de aula.

         O tempo apenas lhe tirou o som, que agora se faz de novo ouvir, quando descubro que a casa engraçada tem sido a minha procura da felicidade, que a consciência nunca rendeu. A felicidade de me encontrar sucessivamente, fulminantemente, com quem sou e com o lugar para o que sou, e de esse lugar vir crescendo comigo. E de assim me achar numa casa sem penico, de onde caem as paredes e se perde o chão, no trabalho de demolição do Amor, que subtrai primeiro para acrescentar depois. Desfeitas as ilusões de pequenez e as romarias da imaginação, a casa sem teto é a mais aconchegante do mundo, em equilíbrio precário no vórtice impossível do ilimitado. Penico para quê?...

 

As you begin to wake yourself up from your dreams of hell or purgatory, heaven dawns on you in a way that the imagination can’t comprehend. And then, as you continue to question what you believe, you realize that heaven, too, is just a beginning.

Byron Katie

 

16
Set25

Cordão umbilical

Sónia Quental

 

         O cordão umbilical não cai à primeira. É dele que vem o medo primário da perda, o medo da morte que nos espanta logo à nascença e nos faz agarrar a tudo o que impeça de sermos sozinhos. Tudo o que nos mostre que estamos sós desde o momento do primeiro choro. Desde que aprendemos a andar, é preciso a todo o momento desembaraçar o passo desse cordão umbilical invisível, implacável, que ainda assim não podemos perder.

       Mesmo quando se nos enrola à volta do pescoço, em sufocos intermitentes, é a corda que temos para voltar ao sítio onde éramos preenchidos, um todo sem partes, um mundo sem perdas. Por isso nos prendemos ao que quer que forme o cordão que nos ligou ao útero: família, amigos, crenças, identidade. Se largarmos esse mosaico feito de tempo, colado à memória pelo hábito, largamo-nos de nós, impressão digital apagada pela ausência de vínculos.

         Não deixamos ir os outros para não nos deixarmos ir, para lutarmos pela continuidade e mantermos a coesão que existe por trás de um nome reconhecível quando alguém o pronuncia. Dá medo rasgar o cordão e nascer verdadeiramente, viver sem amarras, que é o mesmo que estar sempre a morrer, sem saber o que virá depois. Despedirmo-nos de todos os reconhecimentos, de volta à nudez que nunca teve começo – à alegria de Ser.

03.08.2018 - Saia preta (33).jpg

Fotografia: 2018 © Francisco Amaral – Todos os direitos reservados

 

Fear of loss magnetizes us away from Truth: loss of acceptance, loss of friends, loss of reputation, loss of home, loss of position, loss of dreams, loss of preconceived ideas, loss of beliefs, loss of traditions, loss of the world we’ve spent lifetimes building up in our image, loss of our ideas about God.

(...) Who wants to let go of everything for a mistake? I look at her and see that we never let go of anything that doesn’t bring in something higher. She calls it evolution. It’s the natural movement of being – toward the higher thing.

Christin Lore Weber, in A Cry in the Desert: The Awakening of Byron Katie

 

21
Ago25

Bom demais para ser verdade

Sónia Quental

         Em tempos de meninice, diziam-me para pensar em coisas boas quando não conseguia dormir. Agora, acabo de apagar um e-mail que me diz para desconfiar se a oferta parecer boa demais para ser verdade, de uma instituição que tenta pegar-me o mesmo cinismo com que tratou a intervenção que lhe pedi num caso de fraude. Aparentemente, há uma medida para o bom que pode acontecer-nos – não admira que pense assim quem vive da prática da extorsão legalizada e pertence ao mesmo clube dos bandidos que se movem na sombra, como acontece com as entidades bancárias.

         Não se cansam de nos tentar dizer qual é o nosso lugar, ao que podemos aspirar e de nos confiar ao caixão seguro do que é moderadamente bom. Com o que está acima só podemos sonhar, mas de olhos muito abertos e sem êxtases que descambem na levitação. O sonho parece atividade que não se transporta para o mundo concreto, um consolo da sensatez cinzenta a que temos de nos resignar. É assim que nos mantêm na linha, de cabeça baixa, desconfiando de todos exceto de quem nos aconselha por bem.

         Nunca fui muito de sonhos, exceto dos involuntários, quando a mente consciente faz a sua pausa noturna. A improbabilidade das coisas boas não as tornava convidativas ao pensamento e eu não queria levá-las para o terreno do impalpável. Sempre preferi o caminho angustiante da verdade. Mas, apesar das doses de cinismo e das más intenções que a experiência torna cada vez mais fácil ler na transparência dos rostos, ainda não acho que haja limites para o que é bom nem que o maravilhoso esteja confinado ao éter do sonho. Se suportarmos a agonia, descobrimos que a verdade e o bom não andam afastados. Nem moram longe do belo.

19
Abr25

Contentamento

Sónia Quental

 

         Alguns descobriram já que a felicidade não está em alcançar. Descontentes das metas, voltaram-se para os processos, vivem no caminho e a caminho. O meio parece mais promissor do que acabar e descobrir que não há finais felizes. É, pelo menos, garantia de ocupação. Mas também não é aí que se esconde o contentamento. Difícil é admitir que o temos à mão.

 

 

The whole world belongs to me, because I live in the last story, the last dream:

woman sitting in chair with cup of tea.

Byron Katie

 

15
Jan25

Vou ali preocupar-me

Sónia Quental

 

No sólo de miedo vive el hombre. Aunque mucho hijo de puta nos quiera alimentar de eso constantemente. 

Isra Bravo

 

 

Captura de ecrã 2025-01-15 193408.png

A Preocupação era uma presença palpável na casa, o animal de estimação que não tínhamos, crescendo em tamanho ao mesmo tempo que a família aumentava em largura e o espaço encolhia. Mais vezes se esqueceram de mim do que da Preocupação, um colete salva-vidas sombrio que ia de férias ia connosco, não fôssemos afogar por excesso de descontração.

Por fim, quando à custa de tanta engorda a Preocupação atingiu proporções descomunais, começou a entranhar-se na pele, a infiltrar-se no ADN, até se instalar num pano de fundo mental, um véu que cobria tudo em que tocava. Eu, que era capaz de fazer várias coisas ao mesmo tempo, conseguia ter uma Preocupação familiar em funcionamento automático, uma defesa supersticiosa contra tudo o que pudesse correr mal, com atualizações diárias de todas as calamidades iminentes e prováveis.

          Com o tempo, e não satisfeita com a capacidade sobrenatural de pairar sobre tudo, a Preocupação começou a querer ser mais do que uma omnipresença fantasmagórica, exigindo tratamento de parente vivo. Comecei a ter de parar o que estava a fazer para me preocupar ativamente. Não posso falar: estou preocupada. Mais do que manifestar o poder de mobilização que as vedetas têm quando atravessam a passadeira vermelha, a Preocupação era como um buraco negro, que tudo sugava e contagiava de negrura.

          Encarei sempre com suspeição as pessoas despreocupadas. Invejava-lhes a leveza do otimismo, a facilidade com que sacudiam aquela caspa de ansiedade que não me largava, e tudo lhes corria bem na imprudência de não usarem colete salva-vidas. Por mim, quanto mais me preocupava, mais carregado me parecia o horizonte, mais motivos de preocupação tinha. Apesar dessa inveja, era fácil associar a despreocupação à superficialidade, porque verdade é que conheci muitos raios de sol sem grande coisa atrás da testa, sempre prontos a declamar clichês cintilantes nos momentos mais escusados.

         Já a sabedoria despreocupada é uma conquista menos comum: captar alguma coisa do que é a vida e escolher abdicar da preocupação sem naufragar é outra loiça. Não se trata da simples capacidade de gerir as emoções nem de controlar os pensamentos. Para deixar a Preocupação definhar e a expulsar do espaço que ocupou furtivamente, precisamos de ter bem estabelecido em que é que confiamos, o que queremos alojar em nós, uma atividade que merece mais a nossa energia do que ceder à Preocupação, que mais depressa nos leva ao fundo do que nos mantém à tona de água.

         Mais poderia dizer, mas hoje prefiro a ligeireza e está na hora de terminar: tenho de ir ali preocupar-me (ou não).

 

Imagem: Tarot Illuminati

 

15
Nov24

Casulo

Sónia Quental

 

          Para alguns, a vida é um casulo depois do outro. A falta de vínculos seguros faz sentir a porosidade ventosa de uma cápsula que não protege, apenas isola, tornando-nos ilhas à deriva num oceano de pessoas felizes, que nascem com a certeza de qual é o seu lugar e do seu direito inato de o ocupar.

      Na altura, o bullying não estava na moda. Ouvia-se apenas os cochichos de troça pelas costas, a segregação desdenhosa dos autoconfiantes, com a pressão para nos fazer imitar-lhes os modos em troca de aceitação – a sugestão inocente da mutilação para nos colarmos aos vincos que alguém dobrou por nós. Quem achava que tomava conta da nossa felicidade ao participar dessa pressão para funcionarmos em sociedade, por mais convencido que estivesse das suas boas intenções e da sua autoridade pedagógica, não conseguia disfarçar o desconforto de conviver com o que sobrava à normalidade, ameaçando trazer ao de cima o que a custo asfixiava sob o limiar da consciência.

      A vida era um casulo de plasticina, que as mãos dominantes apertavam e moldavam ao seu critério – porque quem não sabe nem finge saber qual é o seu lugar, quem não teve uma estaca de amor a ajudar as suas hastes a medrar seguras, é durante muito tempo frágil e fraco, suscetível, movido pela fome de pertença que o faz render e render partes de si. A resistência diária exige um dispêndio incomportável de energia, por isso vai-se cedendo aqui e ali, até que deixa de se notar. Quando a cedência se torna modo de vida, perde-se conta às suas manifestações mínimas, que têm um efeito tão devastador quanto as maiores, pelo costume que criam – por escaparem mais facilmente à deteção.

        Em cada patamar que traz a renovada clareza de que a busca de quem somos nos leva por um trilho cada vez mais solitário, há uma escolha a fazer. Quem porfia, quem faz essas escolhas deixando-se morrer e voltar à vida sem saber se voltará a respirar, abandonando um casulo depois do outro, contrariando os reflexos condicionados, reconstruindo a sua integridade psicológica e anímica, com um compromisso cada vez mais estreito com a verdade, descobre que já não quer pertencer, que já não é o enjeitado, mas aquele que enjeita. O oceano de plástico lá fora, o nonsense da alienação ubíqua, as manipulações impercetíveis nas relações pessoais já não convencem. Não se suportam. Porém, a cada casulo rompido, revela-se uma força desconhecida, a pele fica mais transparente, há um centro que ganha em vitalidade e firmeza.

         Ficam para trás os tempos de mendigar sobras, assim que se sentem os primeiros respingos de uma fonte interna, essa que ninguém procura, com a cerveja ou o copo de vinho na mão, as incontáveis concessões às amizades de conveniência e ao desejo de aceitação adolescente, que nem a passagem do tempo acalma. O casulo abre-se em casa e os funcionais interrompem a pose para nos assaltarem os segredos e surripiarem o mapa da felicidade que afinal também procuram, desfeitas as ilusões da funcionalidade, do sucesso, das respostas que afinal nunca tiveram.

 

 

21
Ago24

Confessionário

Sónia Quental

 

         A alternativa à glamorização da imagem nas redes sociais, que faz parecer que todos vivem de férias, a viajar, se alimentam de pratos exóticos e passam o tempo em aventuras radicais, é o momento do confessionário. É o nome que dou a quando alguém ouve falar nos atrativos da vulnerabilidade e decide experimentar, com a mesma tónica na transparência em que se empenhava até aí – com a diferença de que o que antes era a “transparência” enfeitada do hall de entrada é agora a transparência hiperbólica da cave de horrores.

         Afinal, nem tudo eram rosas. A pessoa não estava a ser autêntica, mas decidiu assumir aquilo que era, com todos os defeitos e descalabros que tentava esconder dos outros. Percebeu intimamente o charme de se afirmar derrotada, o brilho indesmentível da humildade que não quer parecer que é, mas prepara as conclusões para os outros. Agora, a postura é de contrição, sai tudo cá para fora, com baba, ranho e o voto de absolvição fervorosa do público de followers, cujo coração torce pelo ídolo e por este seu lado tão humano, que toca o lado humano de cada um. No fundo, não são tão diferentes assim.

        E no entanto… Esta prática emocionada e indiscriminada da “vulnerabilidade”, ao estilo reality show, deixa a mesma sugestão de fake do que as anteriores máscaras do poder - a mesma sugestão que sempre senti quando alguém tentava aplicar o esquema da comunicação assertiva, expressando sentimentos e necessidades com a intenção sub-reptícia da chantagem emocional.

         Desabafo agora eu, neste momento de vulnerabilidade mimética, a repugnância instintiva que senti quando encontrei uma publicação do professor espiritual Jeff Foster, que passava na altura por uma fase crónica da doença de Lyme, exteriorizando um pânico que várias vezes o tentou ao suicídio. O título da publicação era “Will you remind me of my own teachings?”, a única parte que senti honesta em toda uma ode à vulnerabilidade, à abertura, à autenticidade e à transparência – termos que se acompanham muito, mas que têm uma essência mal compreendida. Entre o elogio das virtudes de dar a conhecer sem vergonha o inferno por que passava, revelava que não queria morrer, embora às vezes também sentisse o desejo conflitante de morte. Desde o “There’s no shame in crying out to your God when you’re on the fucking cross” até à derradeira confissão (“The ‘Fuck it’ becomes stronger than the ‘Namaste’”), os palavrões vão pontuando a poesia deste que se desespera na perspetiva de dar de caras com a morte (introduzo já aqui o spoiler de que o autor em questão recuperou, se encontra bem e foi recentemente pai).

         Dois dos grandes avatares da espiritualidade do século XX e de todos os séculos, Ramana Maharshi e Nisargadatta Maharaj, morreram de cancro. Len-ta-men-te. O autodomínio que manifestaram é em tudo avesso à atitude que a publicação anterior deixa transparecer. Tiveram não só a dignidade de sofrer em silêncio, mas a capacidade de transcender a dor e o corpo. Quando procuro um professor, uma figura exemplar e conhecedora que me ensine a limpar a minha cave de horrores e a mudar-me para o andar de cima, não espero que essa pessoa seja como eu: espero que seja melhor. Mesmo que na condição humana não haja absolutos, há comparativos de superioridade. Por isso, espero-os um pouco mais invulneráveis do que eu. Espero que me mostrem aquilo que posso ser e não que tenha de ser eu a lembrá-los daquilo que ensinaram.

 

19
Jul24

O caroço

Sónia Quental

 

But to find what true happiness is, we must be willing to be disturbed, surprised, wrong in our assumptions – and cast into a very deep well of unknowing.

Adyashanti

 

                  

         Admito que a glorificação da autoconfiança sempre me inquietou. À medida que ia atravessando limiares etários, sempre à espera de chegar ao círculo das pessoas que “sabem” (o que se passa, o que andamos aqui a fazer, com respostas conclusivas para as perguntas que importam), descobri que quase ninguém se importa com as perguntas que importam. Passado aquele breve intervalo da adolescência ou a eventual crise de vida que leva a que se interroguem sobre o motivo de estarmos aqui ou sobre o que é a felicidade, ninguém quer saber. E descobri que, de entre aqueles que se importam, ninguém ou quase ninguém sabe nada que valha a pena saber. Ninguém que eu conheça, pelo menos – que esteja num círculo de convívio que transforme a ideia de um tal ser em algo mais próximo do que o mito ou a improbabilidade estatística, dando-lhe os contornos de possibilidade alcançável.

         Admito que os autoconfiantes me pareciam mais capazes de lidar com a vida. A crença acaba por ter o seu poder hipnótico, dá um certo desembaraço e tenacidade que leva à superação de “desafios”, esse eufemismo que, como todos os que se repetem levianamente, se tornou nada menos do que insuportável.

         Admito que sentia uma certa inveja dos autoconfiantes, a quem o sucesso parecia servido numa bandeja que premiava a simples crença na capacidade própria, fosse qual fosse o seu fundamento. “Autoconfiança” é a qualidade que aparece à cabeça da lista de predicados que se procura no sexo oposto. A pessoa autoconfiante inspira automaticamente confiança – pelo menos, à primeira vista. Chegado o momento da revista, admito que comecei a ver o quanto de propaganda havia na autoconfiança e o escandaloso logro que espreitava por baixo. Percebi que quase todos os autoconfiantes estavam enganados quanto às qualidades de que se achavam investidos, embora não se cansassem de as alardear: se as repetissem muito, talvez conseguissem convencer-se, a si e aos outros, e elas se tornassem reais.

         Admito outra coisa: que os autoconfiantes eram pessoas demasiado normais para mim. Com demasiadas certezas, demasiado instaladas na vida (não conseguia evitar o horror a esse “encaixe”). Convencidas de que a autoconfiança e a força de vontade bastam para marcar pontos, subjugar os obstáculos de uma existência empenhada em criar dificuldades, materializando uma meta depois da outra por pura diversão, numa luta de vontades que pedia, além de autoconfiança e pensamento positivo, perseverança.

         Admito que a perseverança me inspira mais simpatia. Saber a que aplicá-la é para mim um “desafio” bem mais valoroso do que cultivar a autoconfiança à força bruta, envergar trajes glamorosos que nada escondem por baixo. Mais do que a polpa, interessa-me o caroço.

 

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