O nome que dão à perfeição
Achava que a perfeição era um marco a atingir. A felicidade viria depois, distribuindo recompensas perpétuas e aliviando-me de um lugar insistentemente aquém. Escusado será dizer que esse alívio nunca chegou e talvez por isso gostasse de encontrar pequenas falhas em pessoas e objetos, tornando-os mais verosímeis, mais próximos do protótipo de imperfeição que via em mim. Logo comecei a preferir as coisas com defeito às que vinham impecáveis de fábrica, por me fazerem sentir menos desigual, naquela que talvez fosse a forma mais imediata de alívio que encontrei.
Mas nem assim me abandonou a ânsia da perfeição que atormenta mais mulheres do que homens, embora estes comecem a acusar a mesma aflição. O avanço da ciência e da cosmética parece ter deixado a perfeição ao nosso alcance, normalizando operações cirúrgicas que conseguem alterar substancialmente a aparência física de uma pessoa. Se ainda não são para todas as carteiras, e não se banalizaram em todos os países, estaremos a caminho disso, quanto mais não seja por influência das redes sociais e dos seus gurus.
Interessou-me, portanto, a série documental The Price of Perfection, apresentada por Olivia Attwood e centrada nos procedimentos estéticos que já se tornaram comuns no Reino Unido, à semelhança do que acontece nos EUA, onde as mulheres utilizam vulgarmente substâncias injetáveis para preencher os lábios aos 18 anos, continuando vida fora, viciadas numa ideia de perfeição que nunca é saciada.

As entrevistas e o resultado das intervenções plásticas que a série acompanha semeiam a dúvida quanto à ironia da “perfeição” presente no título, com belezas naturais transformando-se em verdadeiras aberrações, produto de uma perceção distorcida que gera corpos igualmente deformados. Com a maior das canduras, uma mulher diz querer parecer um filtro do Instagram, enquanto outra cobiça o nariz arrebitado de uma boneca. Há quem se sujeite a cortar pedaços do couro cabeludo para fazer um transplante de sobrancelhas e quem tire gordura da barriga para enfiar no rabo. Isto para não entrarmos nos meandros do branqueamento anal!
Muitas não sabem o que injetam no corpo, não se informam sobre os procedimentos que escolhem e quem os administra - e mesmo quem está ciente dos riscos de saúde não hesita em jogar a vida na roleta, contentando-se em seguir as modas do Instagram, autoridade absoluta na matéria. Corta-se aqui, enche-se ali e as inseguranças são resolvidas com uma leveza que não põe limites à manipulação física. Os conceitos de feminilidade, masculinidade e atratividade medem-se, sem mais, pelo tamanho de certas partes do corpo, a grossura dos lábios e a quantidade de pelos faciais. A prova da perfeição é uma corrida de obstáculos, ganha por quem conseguir contornar os defeitos físicos e ficar ao largo do envelhecimento (que desejavelmente seria de evitar por completo).
Para a maioria, este é um vício sem retorno, que começa a alterar a paisagem humana no seu todo e a impor uma nova imagem de normalidade. Em vez de ficar convencida de que a perfeição humana faz parte dela, o que vejo, pelo contrário, são pessoas cada vez mais frágeis, neuróticas, plastificadas e alheadas de si. Aí entra o ChatGPT, a dizer para não nos julgarmos tão duramente e que podemos ser aquilo que quisermos. Abençoado.

Imagens: Olivia Attwood: The Price of Perfection


