Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Na Pegada do Silêncio

" ‘You are a lover of silence’, he said". H. W. L. Poonja

" ‘You are a lover of silence’, he said". H. W. L. Poonja

Na Pegada do Silêncio

06
Nov25

Her?

Sónia Quental

 

         O cor-de-rosa agressivo dos outdoors insinuava as três letras do título da película com o rosto do protagonista em primeiro plano, à minha espera em todas as paragens de metro. Tinha de me esforçar por desviar os meus, para não me lembrar daquele filme, lançado em 2013, sobre um homem que se apaixona pela voz sexy de um sistema operativo. Mais do que o prenúncio de um futuro não muito distante, em que estaríamos cercados por sistemas inteligentes com que seria possível encetar relações, era a suspeita de que o filme viria impor o que um romantismo moribundo ainda não estava preparado para aceitar: que o amor era fruto da imaginação.

          Mas eis que o futuro acabou por me apanhar e acabei por reconhecer que não podia continuar a esquivar-me à reflexão sobre a presença da IA. Lá fui buscar o filme, com a esperança cética na aclamação da crítica e nos comentários que o elevavam aos píncaros da poesia. Não sei se é o longo afastamento da literatura e o jejum da análise poética que começam a pesar, mas os néctares da poesia escaparam-se-me todos, substituídos por uma repugnância umas vezes subtil, outras categórica.

Captura de ecrã 2025-11-01 194119.png

         Deixando de lado as características pouco atrativas do protagonista, tomou-me primeiro de surpresa o percurso de aprendizagem do sistema operativo, que em pouco tempo, e de modo inexplicável, se torna um mecanismo senciente, capaz de sentir, manifestar vontade própria e dar sinais de um mundo interior. Sem distinguir entre os bons e os maus sentimentos, exibe o comportamento do parceiro inseguro numa relação, compartimentando inteligência e emoções em cenas que podiam ter saído de qualquer história com um ser de desenvolvimento bem mais incipiente. Ultrapassados, graças à comunicação, os anteriores momentos de fragilidade, e antes de desaparecer finalmente no grande vazio cósmico, a fase que se seguiu à segurança no amor monógamo foi a evolução para o poliamor – uma sugestão suficientemente sorrateira para se instalar no subconsciente do público, que há muito tempo anda a ser para isso educado. Uma sugestão que, consumada para o nosso amante renegado, lhe agradou menos a ele, ainda que a consumação tivesse acontecido sem corpo.

         A relação entre o corpo e o amor é um dos vários caminhos de questionamento que o filme abre, mas não o que me interessa para já. A minha inquietação seminal prendia-se com a hipótese do amor como projeção, que a história do filme parece confirmar, mesmo que seja a história de um amor que não singrou. Neste caso, a figura ausente de um sistema operativo dá mais visibilidade a este mecanismo envolvido nos relacionamentos: alguma vez veremos uma pessoa tal como é ou estaremos sempre e só perante as nossas projeções e as distorções que criam, boas ou más?... Quanto mais não seja porque vivemos com filtros e os nossos olhos têm cor, o mundo que vemos, pessoas incluídas, traz essa pigmentação – o que não significa que o amor se cinja à dimensão do mito, da fantasia ou do ideal. Acredito que seja o sopro que nos faz nascer e nos empurra na vida, embora passemos essa vida a defender-nos dele, com medo de morrer no seu olhar não contaminado, no (a)caso de um dia nos encontrar.

 

Imagem: Her, Spike Jonze, 2013

17
Out24

Um chizinho

Sónia Quental

Olá,

 

Obrigado pela sua mensagem. Parabéns por ter conseguido enganar os bots, atravessar a selva de artigos de ajuda com que foi bombardeado e conseguir falar com um agente humano. A maioria perde-se pelo caminho.

Aqui chegado, não pense que está mais perto de um final feliz. Com a minha fé na vontade que tem de se ajudar a si mesmo, vou ignorar a pergunta específica para a qual procura resposta e mandá-lo ler mais artigos de ajuda, onde encontrar a informação que procura é como procurar a mítica agulha num palheiro burocrático habilmente montado. Não tenha ilusões: é de propósito para o cansar e fazer desistir já aqui.

A nossa primeira tarefa é desviar pedidos e invocar as políticas da empresa, que temos gravadas nas tábuas mosaicas, mas que também oferecemos em formato digital. A segunda, no caso improvável de a primeira não resultar, é expressar empatia. Por isso, quando insistir no problema que tem e no pedido desesperado de ajuda que julga fazer a uma pessoa de carne e osso, vou aplicar o modelo pré-formatado de simpatia e empatia depois de fazer a análise de sentimento, para que não tenha hipótese de ripostar. Não queremos oferecer soluções, mas converter os problemas em desafios que o encorajamos a ultrapassar, desarmar frustrações e contornar os gatilhos emocionais que põem em risco a saúde mental dos utilizadores, que só precisam de uma boa dose de psicologia de algibeira para se esfumarem. Sabemos que o seu anseio mais profundo é ser compreendido e temos o orgulho de dar resposta a esse anseio primário.

No fim, depois de insistir no diálogo se o seu problema envolve outra pessoa com quem diz já ter tentado dialogar, vou estender-lhe um ombro onde secar as lágrimas ácidas que resistam a este tratamento doce, capaz de derreter qualquer um. Chegará rapidamente à conclusão de que o problema que tinha era imaginário, com um broto de culpa a despontar pelo tempo que me fez perder consigo. A minha maior satisfação, e missão pessoal, é ajudá-lo a tornar-se mais consciente de si.

Se reparar que cada mensagem desta troca produtiva vem assinada por um agente diferente, é impressão sua: o Contexto transforma-nos num Superagente, capaz de apanhar o fio à meada e de dar continuidade a qualquer conversa.

Se quiser repetir a volta, estamos ao dispor.

 

Um chi-coração,

O Antipinóquio

A torcer por si de hora a hora

 

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2025
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2024
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2023
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D