Uma rabanada
Para mim, o Natal é uma rabanada, repetida todas as semanas até deixarem de as fazer. Ou assim era até as gaivotas terem começado a ameaçar essa nesga de calor, na falta de polícia e de seguranças, que em vez de se unirem na solidariedade de uma muito necessária Brigada das Gaivotas, ocupam o tempo à caça de quem anda a fazer sessões fotográficas em espaços públicos com máquina a sério (com o telemóvel já se pode). Sem rabanada de leite, não há Natal. Por isso, aviso desde já que o andar suspeito que em breve poderá fazer soar o alarme nas câmaras de reconhecimento facial é a rabanada debaixo do casaco, a proteger o meu Natal – o olhar inquieto é o que indaga ao horizonte se o caminho está livre para poder dar uma dentada num Natal com açúcar, mas livre de culpa, sem as aves terem inveja.
Mesmo que com a presença única de animais que não são meus amigos – o que já por si põe em causa um bom troço de infância passado a ver a Arca de Noé, que nos dizia para sermos amigos deles –, é um Natal mais transparente do que qualquer outro. As gaivotas vão diretas ao assunto, sem se fazerem rogadas. Não andam a rondar pelas costas, a cobiçar a minha rabanada nem a questionar o meu direito a ela: atacam e está feito. Apesar do sobressalto, há mais verdade nisso do que em qualquer Natal que tenha conhecido, mesmo quando recebia prendas e era muito nova e passei pela febre das cassetes da Mariah Carey. Parece outra vida.
De resto, tudo o que queria no Natal era que chegasse o dia seguinte. Quando chegava, preferia que não tivesse chegado. Dentro do espírito da brevidade, é nisto que posso condensar os Natais e aniversários de uma vida – até à data. A felicidade era para fingir, como todos sabiam no contrato tácito que as famílias nos fazem assinar quando subscrevemos o serviço. Em cada Natal e cada aniversário, perdi um pouco mais a inocência de berço que tinha de voltar a montar nos outros trezentos e muitos dias do ano. Mas o trabalho não foi em vão: de tanto escavar para afundar os alicerces, achei uma inocência pré-imaginação, intocada desde antes do primeiro choro. É essa que reluz nos meus olhos, a condizer com o brilho do açúcar na rabanada e um Natal simples, as gaivotas e eu.
